Depois de meses de informações incertas, o futuro do emblemático edifício Monumental, no centro de Lisboa, começa a ganhar contornos mais definidos. As anunciadas obras de remodelação vão mesmo seguir em frente e iniciam-se até ao fim deste mês, com termo previsto no último trimestre de 2020. Além de serem mantidas as atuais salas de cinema, o edifício passa a ter uma zona comercial com apenas uma ou duas lojas de grande escala, em vez da atual lógica de centro comercial, adiantou nesta quinta-feira o diretor em Portugal da empresa proprietária do Monumental, a espanhola Merlin Properties.

Durante um encontro com o Observador na sede lisboeta da empresa, no Marquês de Pombal, João Cristina explicou que a fachada, as instalações e os equipamentos interiores do Monumental vão ser completamente renovados, incluindo canalizações, rede elétrica e sistemas de ar, mas “a área e a volumetria do imóvel ficarão exatamente iguais” ao que hoje existe. “É uma reabilitação, os usos não serão alterados”, sublinhou. O custo da obra é de 28,9 milhões de euros, com projeto de arquitetura do gabinete Broadway Malyan e engenharia do grupo Ductus.

A Merlin espera que todas as áreas do Monumental estejam em funcionamento no momento da reabertura: lojas, salas de cinemas e escritórios. Poderá o exibidor cinematográfico ser novamente a Medeia? “Quando chegar a altura, iremos a mercado e contactaremos todos os operadores para discutir condições”, respondeu João Cristina. Será um exibidor vocacionado para o cinema de grande público ou para filmes menos comerciais? “Para já, não sabemos, mas de certeza que qualquer operador que tome aquele cinema terá em consideração o público-alvo da zona”, acrescentou.

Devido à profusão de centros comerciais em redor da Praça do Duque de Saldanha, como o Atrium, o Residence ou o Picoas Plaza, o espaço de comércio do Monumental será convertido num “grande conceito de retalho”, classificou João Cristina. “Vamos criar uma ou duas lojas de grande dimensão. Pelo feedback que temos recebido de operadores, é uma aposta ganha”, referiu, sem adiantar de que lojas ou marcas se trata.

Uma história que começa em 1951

O futuro do edifício estava rodeado de incertezas desde dezembro do ano passado, quando o empresário e produtor Paulo Branco convocou a imprensa para anunciar que se via obrigado a abandonar as salas de exibição cinematográfica que ali explorava desde 1993, por já não serem economicamente viáveis. Além disso, acrescentou Paulo Branco, o imóvel preparava-se para uma reestruturação completa a partir do verão de 2019. Até fevereiro, haveria filmes, mas apenas aos fins de semana e numa das quatro salas.

Acabou por se verificar que a Medeia, empresa de exibição de Paulo Branco, manteve atividade no Monumental até 29 de setembro último. As obras, até ao momento, como testemunhou o Observador em julho e confirmou agora João Cristina, têm consistido apenas em “limpezas e pequenas demolições”.

“A nossa relação com o Paulo Branco é boa. Ele disse que fechava as salas por falta de viabilidade económica e por questões de concorrência. Chegámos a acordo e revogámos o contrato”, explicou João Cristina, reconhecendo que “a questão dos cinemas no Monumental é sensível e é normal que seja mediatizada”.

O edifício foi inaugurado há 25 anos e é herdeiro do Cine-Teatro Monumental, que marcou a história do teatro e do cinema em Portugal entre 1951 e 1984, ano em que foi demolido. Em 1993 surgiu o atual bloco envidraçado. O que se segue, nas palavras de João Cristina, é um imóvel que “comunica melhor com o exterior, é mais transparente e mais eficiente do ponto de vista da distribuição de espaço nos escritórios”. “Acreditamos que será um orgulho para todos os lisboetas e que irá trazer o Monumental à modernidade”, resumiu.

Em fins de 2020 este Monumental terá sido substituído por uma nova proposta arquitetónica, marcada pelo vidro transparente

Também presentes no encontro com o Observador estiveram dois responsáveis da área de investimento da Merlin Properties, Inês Arellano e Fernando Ramírez, que se deslocaram esta semana a Lisboa. A empresa tem sede em Madrid e é considerada a maior sociedade de investimento e gestão imobiliária cotada na bolsa espanhola, o que acontece desde 2014.

Até ao fim deste ano, a Merlin entrará na bolsa portuguesa, uma informação já conhecida desde junho e confirmada nesta quinta-feira por Fernando Ramírez. “Temos vindo a criar um portfólio de alta qualidade, queremos maior atenção e visibilidade em Portugal e estamos para ficar, não para investir e depois ir embora”, garantiu este outro responsável.

A Merlin atua em três sectores do imobiliário – escritórios, centros comerciais e logística – e chegou a Portugal em 2015, tendo comprado o Monumental à Lone Star em 2016. Na área de Lisboa explora hoje 12 imóveis: nove de escritórios (incluindo o Monumental), dois de comércio a retalho (centros comerciais, aqui também incluindo o Monumental) e uma área de logística (Plataforma Logística Lisboa Norte). Entre os projetos de escritórios, o Monumental é o de maior superfície, quase 17 mil metros quadrados, e aquele que por agora concentra atenções.