Milhares de pessoas tomaram nesta sexta-feira as ruas de Hong Kong para protestar contra a aprovação de uma lei de emergência que proíbe, a partir de sábado, o uso de máscaras com as quais os manifestantes escondem a sua identidade.

Desde o início da tarde, cidadãos de Hong Kong marcharam pelo distrito Central da cidade, usando máscaras, para protestar contra a legislação anunciada esta sexta-feira pela chefe do governo, Carrie Lam, gritando palavras de ordem como “Hong Kong, resiste”. Carrie Lam anunciou que o uso de máscaras pelos manifestantes vai ser proibido a partir de sábado, uma medida para ajudar a polícia a “acabar com a violência e restaurar a ordem”.

Os manifestantes provocaram cortes no tráfego e o encerramento de lojas, num dia que se tornou tenso, desde que Lam declarou a sua controversa medida, pela qual teve de recorrer a um decreto da época colonial britânica que pode conceder poderes mais amplos ao governo sem ter que passar pelo parlamento.

Algumas pessoas distribuíram máscaras aos participantes, uma vez que, como gritavam, esta é “a última oportunidade” de usá-las. A ‘lei anti-máscara’ prevê penas de até um ano de prisão e multas que podem ascender a 25 mil dólares de Hong Kong (pouco mais de 2.900 euros).

Embora para Carrie Lam a lei procure apenas identificar os manifestantes mais violentos e “não implique que Hong Kong esteja em estado de emergência”, muitas pessoas na cidade temem que o governo acabe a invocar a referida lei para solicitar o poder de autorizar detenções, censurar a imprensa, alterar leis ou assumir o controlo total do transporte.

Nesse sentido, um grupo de manifestantes criou barricadas improvisadas perto de um túnel, perante o olhar atento de alguns motoristas que fizeram soar as suas buzinas como gesto de apoio àqueles que protestavam. Dezenas de internautas pediram que as pessoas saíssem às ruas de Hong Kong para participar no protesto contra a proibição do uso de máscaras.

A nível diplomático, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Dominic Raab, alertou o governo de Hong Kong do perigo de “agravar” as tensões e pediu a Lam que apostasse no diálogo político. Também o chefe da diplomacia de Taiwan expressou a sua preocupação por uma lei que poderia “violar direitos e liberdades individuais”.

Na origem da contestação, que se vive no território desde o início de junho, está uma polémica proposta de emendas à lei da extradição, já retirada formalmente pelo governo de Hong Kong.

Contudo, os manifestantes continuam a exigir que o governo responda a quatro outras reivindicações: a libertação dos manifestantes detidos, que as ações dos protestos não sejam identificadas como motins, um inquérito independente à violência policial e, finalmente, a demissão da chefe de governo e consequente eleição por sufrágio universal para este cargo e para o Conselho Legislativo, o parlamento de Hong Kong.

A transferência da soberania da antiga colónia do Reino Unido para a China, em 1997, decorreu sob o princípio “um país, dois sistemas”.

Tal como acontece com Macau, para Hong Kong foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judicial, com o governo central chinês a ser responsável pelas relações externas e defesa.