Qualquer escola poderia candidatar-se até ao final de setembro para receber de forma gratuita os materiais necessários e começar a fazer compostagem, mas a Zero nunca pensou que fossem tantas as inscrições.

218 escolas responderam ao repto da associação ecologista para que lhes fosse entregue um compostor e lhes fosse dada alguma formação. Numa parceria entre a Zero e a empresa de embalagens Silvex, o projeto “Devolver à Terra” promete agora selecionar 100 escolas, capazes de iniciar os processos de compostagem ainda este ano letivo.

Paulo Lucas, da Zero, garante que na seleção “vamos privilegiar as escolas que têm hortas no interior, já que uma das vantagens da compostagem é exatamente devolver os nutrientes aos solos, e que, ao mesmo tempo, não utilizem fertilizantes inorgânicos ou químicos”.

Num inquérito enviado a 800 estabelecimentos (para o qual receberam 170 respostas válidas), a Zero e a Silvex aperceberam-se não só de que, apesar de separarem os resíduos orgânicos, poucas escolas faziam compostagem, mas também de que mesmo muitas vezes as escolas que a fazem, abrangem apenas uma parte da comunidade escolar. Esta é uma realidade que, aos olhos da associação ambientalista, inibe “um país que se quer preparado”, numa sociedade que já de si se apresenta “terceirizada, mais de serviços, em que as pessoas pouco sabem sobre agricultura”. É bom que as gerações mais novas saibam o que se pode fazer”.

Escola do Cerco, Porto

O inquérito, terminado em julho, fez notar que as escolas centram mais a sua atitude de separação de resíduos na tradicional reciclagem, como a das embalagens, do papel e do vidro, com apenas 2% dos estabelecimentos a admitirem não reciclar. No entanto, quando o foco passa a ser a separação dos resíduos orgânicos, o número sobe para 46% o das escolas que nada fazem para os separar ou encaminhar o lixo orgânico para a compostagem.

Com o estudo, a Zero entendeu também que “muitas vezes as escolas o fazem com dificuldade e de forma limitada”, nas palavras de Paulo Lucas ao Observador, uma vez que das que separam estes resíduos, “a maioria coloca nos contentores borras de café, restos de comida confecionada, cascas de fruta e guardanapos de papel, havendo pelo menos uma escola que coloca cápsulas de café”. Para os resíduos orgânicos produzidos nos espaços exteriores, a maioria das escolas (100) não possui contentores específicos.

No entanto, a compostagem já é uma realidade em algumas escolas portuguesas. 78 das inquiridas disseram já terem compostor e encaminharem para a compostagem os resíduos orgânicos saídos principalmente do refeitório e do bar, num número que atinge os 80% dos resíduos produzidos. A responsabilidade da tarefa recai sobre o pessoal docente, seguido do pessoal não docente, não estando, por norma, os alunos incluídos no processo.

Na escola do Cerco, há animais, compostagem e sementes a crescerem monitorizadas por uma aplicação de telemóvel

“Equidistantes! Sabem o que significa?”. Faz-se silêncio na mesa oval e despregam-se olhares comprometedores entre os alunos do 5º ano da escola básica e secundária do Cerco, no Porto. A tarefa é colocar as sementes dos quivi que estão a dissecar todas à mesma distância num guardanapo. É quinta-feira e é dia de literacia científica. Esta espécie de aula-oficina assalta desde o início do ano letivo os horários das turmas do 5º ano durante toda a manhã.

Escola do Cerco, Porto

Do quivi, passou-se às maçãs e surge uma pergunta por parte da professora Ana Teixeira, de biologia e geologia: “O resto da maçã come-se ou então vai para onde? Qual é o ecoponto?”. Não foi da boca de todos os alunos que saiu uma resposta firme, mas lá se ouviu timidamente ao fundo “preto”. “O orgânico”, retorque a também coordenadora da literacia científica. Na voz, a nuance de quem está a falar com crianças.

Começa na sala de aula a ensinar as bases da separação dos resíduos, nos quais se incluem os orgânicos, e só com o avançar do ano letivo se passa à parte da observação da compostagem. Há cinco anos que a escola tem vários compostores na horta pedagógica, que convivem com árvores de fruto e com animais de várias espécies. Os resíduos do refeitório são alimento para os animais ou servem de composto para o futuro adubo natural das plantações.

É no âmbito da mais científica das literacias que os alunos aprendem a fazer a separação dos resíduos. Nunca a compostagem fez tanto sentido como agora. Por isso, Ana Teixeira inscreveu-se no programa da associação ecologia Zero para receber mais um compostor para a escola.

Num dos jardins interiores do estabelecimento, vê-se um “terreno de ensaio”, onde a professora instalou um painel solar, um jardim vertical e onde há já várias sementes – como as quivi e de maçã da sala de aula – a germinar num estendal da roupa.

Escola do cerco, porto

“Na próxima semana vamos introduzir uns sensores com led luminoso em que os meninos vão poder ver através das cores dos semáforos quem é que está com falta de água, quem é que está com água sim-senhor e quem é que está com excesso”, comenta Ana com o Observador, com ânimo na voz como diz terem os alunos quando frequentam as literacias.

“Como têm um contexto não-formal – não estamos numa sala de formação tradicional, a metodologia é partindo de uma situação problema -, os meninos têm um grau de motivação muito mais elevado”.

Com o ensino 4.0, como lhe chama, a professora e restante equipa junta agricultura e tecnologia. Os resultados práticos da missão dos alunos de cuidarem das sementes, vai-lhes ter a casa através de notificações nos telemóveis e tablets.

As literacias dividem-se em quatro temáticas – científica, digital, para os media e artística -, monitorizando os alunos durante sete semanas cada. Foram introduzidas por aquela escola no início deste ano letivo, sendo o Cerco um das cerca de meia centena de projetos de inovação que conferem às escolas do ensino básico e secundário a possibilidade de gerirem como querem mais de 25% da carga horária semanal. Ao fim de sete semanas, a escola promove uma avaliação qualitativa destes “módulos” e os alunos passam à literacia seguinte.

Escola do Cerco, Porto

Ana Teixeira (de bata branca) é a coordenadora da equipa de literacia científica do Agrupamento de Escolas do Cerco, no Porto.

Manuel António Oliveira, o diretor do agrupamento de escolas com mais de dois mil alunos, comenta que a decisão de adquirirem algumas árvores de fruto adveio do “muito espaço exterior” das instalações, mas também da vontade de mostrar aos alunos que “os frutos não nascem nos supermercados”. Isto, associado à necessidade que viam dos alunos terem de assimilar na prática os conhecimento teóricos, porque se chegou a perguntar algures numa sala de aula “afinal, como se faz um email?” e a admitir que “o meu quarto só mede um metro”.

No ano passado, com a chegada da professora Ana, “foi acionado um plano de reciclagem que engloba a compostagem”, justifica Paulo Manuel Ferreira, subdiretor do agrupamento. Os compostores passaram a ser também matéria de sala de aula e nos corredores da escola veem-se ecopontos nos cantos dos corredores; nenhum caixote do lixo comum. “Temos agora uma garagem cheia deles”.