Tudo começou em 2012, quando Tânia Santos abriu a CRU, um espaço que junta uma área de cowork, uma loja colaborativa e uma galeria de arte, em pleno quarteirão das artes na Miguel Bombarda, no Porto. Numa altura em que o conceito era ainda uma miragem, o projeto especializou-se no setor criativo. “A CRU tem sido casa para centenas de fornadas de trabalhadores independentes, freelancers e empreendedores de todas as áreas, mas tivemos sempre um foco especial nas indústrias criativas”, confirma em entrevista ao Observador.

A cidade funcionou como motor para muitas iniciativas e acabou por ser um terreno fértil para que a sociedade criativa se instalasse e se desafiasse. “O Porto sempre teve projetos criativos e artísticos muito fortes, que foram sobrevivendo. Há uma sociedade muito ativa e fazedora, tenha ou não meios para isso. Essa energia é contagiante e visível, talvez mais visível para quem é de fora do que propriamente para nós.”

Pintura, escultura, cinema, fotografia, marketing, publicidade, arquitetura, design, ilustração, software de jogos ou até mesmo jornalismo são algumas das categorias que cabem nesta listagem, na qual todos interagem e colaboram entre si. Com experiência na área, Tânia Santos identificou algumas dificuldades no setor.

“Há uma tendência de as pessoas, principalmente se saírem dos meios mais tradicionais de ensino, não trazerem uma bagagem forte ao nível da gestão de negócio, planeamento e estratégia de carreira. É uma lacuna que existe”, explica ao Observador, acrescentando que os trabalhadores criativos tendem a afastar-se do universo mais comercial.

“Normalmente, quem pertence à área artística chama aos seus negócios projetos. Quando têm um projeto e querem fazer dinheiro com ele, é um negócio, mas há todo um pudor em falar de dinheiro, é um tema tabu.”

Perante este cenário, Tânia não quis “assistir às dificuldades de braços cruzados” e decidiu criar conteúdos e serviços de apoio a profissionais destas áreas. “Quando se fala em gestão de negócios e eventos de empreendedorismos, os exemplos que nos dão são o Google, a Apple, startups que valem milhões ou empresas unicórnio. Todo este universo não está cruzado com a ideologia do setor criativo, onde muitos não pretendem um negócio escalável, massificado ou internacionalizado”, conta.

O festival que se transformou em bootcamp e quer ser independente

“O evento foi desenhado num crescendo”, explica Tânia Santos, ao Observador, afirmando que o primeiro dia será uma espécie de wram up para os cerca de 30 oradores, maioritariamente portugueses, e o público se conhecerem com uma bebida na mão. O programa do Indie Workers divide-se entre momentos teóricos e expositivos, especialmente durante a manhã, e tardes práticas com workshops, flash classes e mesas redondas. “Não temos académicos no programa”, realça a responsável, acrescentando que o objetivo é que a iniciativa seja o mais prática e próxima do trabalhador real.

Os mitos do empreendedorismo criativo, a instabilidade financeira associada, os desafios do branding pessoal, o mercado online ou como fazer um micro planeamento para um micro negócio são alguns temas abordados no sábado, dia 19. Já no domingo, a manhã é reservada à descoberta de opções de espaços cowork no país e no mundo e a tarde é para quem quer saber um pouco mais sobre a gestão de projetos e clientes, legalidade, fiscalidade e burocracia do negócio ou como construir um portfólio. O Indie Workers terminará com um concerto do Samuel Úria pelas 18h, no 7º piso do Palácio dos Correios.

A ideia de organizar um festival que promovesse a formação e o networking entre trabalhadores independentes do universo criativo começou a ganhar forma e, em 2017, Tânia Santos concorreu com esta proposta à convocatória aberta da plataforma Scale Up Porto, ficando em 45º lugar. A portuense não desanimou, inscreveu-se no curso de economia e gestão de inovação na Universidade do Porto, persistiu na ideia e voltou a concorrer este ano.

“Acrescentei uma perspetiva mais prática ao evento, mais pessoas passaram pela CRU e me inspiraram, melhorei a proposta, apesar de no essencial ser muito idêntica à primeira”.

O festival virou um bootcamp e a iniciativa alcançou o segundo lugar da convocatória, sendo, por isso, financiada pela Câmara Municipal do Porto. A 1ª edição do Indie Workers acontece no Palácio dos Correios, “fugindo à formalidade do auditório com escadas” e tem direito a um terraço com uma vista fotogénica sobre a cidade.  A intenção da organização é tornar o evento anual e que, no futuro, “dependa mais de patrocínios do que da autarquia”. Há 150 lugares disponíveis e os bilhetes custam entre 45 e os 90 euros.