Não sei se existe o conceito de excesso de contexto, mas com a saída de Ghosteen, décimo sétimo álbum de Nick Cave e dos Bad Seeds, passou a existir – é muito improvável que alguém o vá ouvir sem estar plenamente consciente das condições em que foi criado: Arthur Cave, filho de Nick, morreu durante as gravações de Skeleton Tree, o disco anterior do ex-cantor maldito; a sua morte ensombrava esse disco, mas Skeleton Tree já estava composto quando se deu o acidente que levou Arthur do mundo dos vivos – Ghosteen é o primeiro álbum de Cave escrito após a morte do filho.

O que deixa o ouvinte – pelo menos aquele que tem dificuldade em ser voyeur em situações de dor extrema – numa situação desconfortável: devo mesmo ouvir isto?, perguntei-me várias vezes nas 24 horas a seguir à saída de Ghosteen. Tenho o direito de espiolhar na vida de um homem que, inevitavelmente, estará em sofrimento? E se não gostar? Isso significa falta de empatia humana?

Uma equipa de filmagens acompanhou a gravação de Skeleton Tree; quando a tragédia ocorreu, Cave decidiu continuar com o documentário, como forma de não se fechar ao mundo; em novembro de 2016, um ano e pouco após a morte de Arthur, o filme, chamado “One More Time With Feeling”, chegou aos cinemas mas não o vi então. Por alguma razão, ocorreu-me que vê-lo nessa altura seria como se um desconhecido entrasse em casa de Cave instantes após ele receber a notícia da morte do filho.

Cada ser humano reage de forma diferente à dor – há fases padronizadas, por assim dizer, a negação, a raiva, a aceitação, mas cada um de nós tem a sua forma única de resgatar a sanidade. Cave, que durante décadas escreveu canções que soavam a parábolas do Velho Testamento, com personagens destrutivas, vingativas e escatológicas, mantendo a sua vida longe dos olhares do público, abriu-se ao diálogo com o mundo com a criação de Red Hand Files, um site em que responde às perguntas dos fãs.

De seguida, Cave foi em digressão com os Red Hand Files, isto é, transportou o conceito do site para o palco: sentava-se ao piano e tocava as canções que as pessoas pediam, depois de responder às perguntas que elas faziam. Em vez de se fechar na sua dor, Cave optou por partilhá-la, o que se de início pareceu surpreendente, acaba por fazer sentido: Cave nunca apreciou expor-se, mas sempre precisou de pessoas ao redor – há uns anos, num documentário, Mick Harvey (que durante muito tempo foi o braço direito musical de Cave) dizia que o australiano tinha dificuldade em estar sozinho, precisava de estímulo e gente à volta.

Tanto nos Red Hand Files como na digressão que se lhe seguiu, as respostas que Cave oferecia às pessoas oscilavam entre a partilha de uma intimidade claramente sofrida e a quase-auto-ajuda (sempre é preferível receber conselhos de Nick Cave que de um instrutor de ioga comedor de quinoa mestre de mindfulness).

Talvez não fosse assim que os fãs de Cave imaginassem o príncipe das trevas quando este chegasse aos 60 anos, mas não só a idade e a vida não perdoam ninguém (todos vamos ficar prostrados no chão, humildes perante a força da devastação que nos está reservada e o que podemos é quando muito ter a sorte de não estarmos sozinhos quando chegar a nossa hora de desgraça) como também o australiano sempre teve algo de pastor em palco: da estrutura das canções, cheias de crescendos, à obsessão com a ideia de castigo e redenção, presente nas alusões ao Velho Testamento, passando por toda a postura febril, comandar uma audiência de crentes faz parte da essência de Nick Cave.

[ouça na íntegra o álbum “Ghosteen”, de Nick Cave:]

O pastor que Nick Cave tem dentro de si, nos dias de hoje, é um diferente do pastor que foi no passado – menos obcecado com a ideia de castigo, menos obcecado com a violência, menos obcecado com a escatologia e mais próximo da ideia de perdão, amor, família. O Cave antigo punha sal nas feridas, suas e dos outros, desafiava Deus a abatê-lo; o Cave atual abraça quem sofre e diz que vai ficar tudo bem.

Permitam-me uma correção: Cave não nos diz que vai ficar tudo bem – mas por vezes tomamos a sua aproximação a nós, a empatia que demonstra pela dor de toda a gente, como um sinal de que vai ficar tudo bem. Não vai – e convém deixar isto claro: Cave tem sido bem explícito quando aborda diretamente o assunto. Se continua a compor, tocar ao vivo, etc, é porque já nada pode correr mal, porque tudo correu mal. Ele admite que não faz ideia de como continuar; simplesmente continua.

Tudo isto é o tal “excesso de contexto” de que falava em cima – é o que transportamos para Ghosteen mesmo antes de ouvirmos uma nota que seja. Claro que um disco é um disco – em última instância, e por mais confessional que seja, é um produto da imaginação de alguém, que compôs aquelas sequências de notas e escreveu aquelas palavras e rasurou o que não gostava e modificou, consciente de que no fim a obra deixará de ser sua e será avaliada por estranhos – em última instância, e por mais confessional que seja, Ghosteen é uma obra de arte.

Mas duvido que alguém o vá ouvir assim. A música é uma arte particularmente íntima: colocamos os auscultadores e está ali uma voz nos nossos ouvidos a contar-nos as suas desgraças e alegrias; acreditamos que são reais as histórias que aquela voz canta e que são as histórias que a pessoa que assina viveu. Não é assim, mas cometemos este erro demasiadas vezes.

Só que talvez às vezes a dor seja demasiada para se brincar à ficção – talvez às vezes reste apenas a terra devastada e a esperança que algo ali cresça. Talvez, às vezes, reste apenas acreditar que “There’s nothing wrong with loving something you can’t hold in your hand”, como Cave canta em Ghosteen, a faixa-título, e a alusão mais direta que existe no disco à morte do seu filho.

Já não há histórias nas canções de Cave, pelo menos como existiam antigamente – as letras, agora, são imagens aparentemente aleatórias e com o seu quê de proféticas: reis que morrem, ursos que envelhecem a ver televisão, navios que andam pelo ar; em “Leviathan” uns bons 90% da letra são

“Oh my, oh my, oh my, oh my
I love my baby and my baby loves me”

Nunca se aborda diretamente nenhuma tragédia mas em Ghosteen (elisão de “ghost” e “teen” que evoca o filho Arthur) o refrão é “I am beside you, I am beside you”. No seu carácter simbólico, quase todas se traduzem em desgraça e esperança.

Em fundo há sintetizadores e cordas planantes que rodeiam a voz de Cave, que nunca soou tão envelhecida e frágil. O Nick capaz de canalizar a fúria e o êxtase está totalmente ausente – em seu lugar está outro homem e não é fácil precisar o tipo de emoção que ele evoca: isto já não é melancolia nem contemplação nem depressão, é uma voz do além, de alguém que viu o fim do mundo e voltou para nos falar dele. “Jesus lying in his mother’s arms / Is a photon released from a dying star” canta Cave em “Fireflies” e o que concluo é que o narrador da canção está a dizer-nos que o acontecimento fulcral da nossa cultura não é mais que um minúsculo grão de areia na grande ampulheta do cosmos; no final da canção ele canta “We are here and you are where you are” e é difícil afastar a ideia de que isto é uma forma de lidar com a dor, de aceitar o que quer que o mundo traga.

Tenho usado o verbo cantar, mas Cave não canta, oscila entre recitar e ocasionalmente modular a voz para chegar a uma nota; quase sempre a voz arrasta-se, embora haja um par de momentos de ascensão: um coro que assoma em Hollywood, o crescendo de Ghosteen (a faixa, que dura 12 minutos). Em nenhuma há catarse ou explosão (Ghosteen quase nunca sai do mesmo ruminar obsessivo).

Tudo isto recorda-me um pouco Music For a New Society, o disco que John Cale escreveu à saída de um casamento e da última desintoxicação de heroína, assoberbado por recordações que havia reprimido desde a infância, como o abuso sexual que sofreu aos 12 anos – ambos são discos sem qualquer outro centro que a voz, ao redor dos quais rodopiam orquestrações (em Ghosteen) ou sons concretos (Music For a New Society). E ambos são discos de uma solidão e devastação tremendas.

A palavra que mais usei neste texto foi devastação: não estou a exagerar nem a sofrer de falta de léxico, é a única palavra que encontro capaz de descrever o pós-mundo de Ghosteen, um disco que não devia ter edição física. Estou a ouvir “Waiting for you”, em que Cave repete a frase que dá título à canção e penso: não era bonito que Ghosteen, com a sua beleza arrasada, os seus missais lacrimosos, existisse apenas em streaming, a atravessar-nos rumo a não se sabe bem onde? Não era bonito que não o pudéssemos agarrar e dizer “Isto é um disco”, não era bonito que isto – toda esta ferida que canta – fosse apenas uma alucinação coletiva, um pesadelo com notas?

Gostava que não houvesse críticas para Ghosteen, três ou cinco estrelas consoante o gosto e a disponibilidade de quem houve, que Ghosteen não repousasse em qualquer prateleira – porque não há prateleiras onde encaixar isto. Isto não se encaixa, não se mede, não se esquece, não se ultrapassa, não tem preço.

Era bonito que se quiséssemos ter Ghosteen nas mãos tivéssemos de dar a mão a tio Cave.