“Stoners” é o nome da coleção que junta roupa e mármore. E, por muito improvável que seja cruzar estes dois universos, o facto é que nada está realmente fora do alcance de uma mente fértil, da mesma forma que a moda é aquela espécie de substância líquida, capaz de se apropriar das imagens e conceitos mais recônditos. Nesta matéria, pode dizer-se que Mariana Emauz passou os últimos meses a partir pedra. Defini-la como designer de moda é adequado, mas traz algum risco, sobretudo o de adotar uma visão redutora de uma obra potencialmente metamórfica. Neste seu momento de criação, centrou-se no vestuário e desenhou-o à imagem e semelhança da pedra portuguesa.

“Sempre adorei explorar materiais diferentes, por isso é que foi tão natural pensar em fazer algo com pedra portuguesa”, admite a criadora, em conversa com o Observador. Genealogicamente, é fácil explicar o fascínio. A mãe é pintora e sempre gostou de incorporar objetos inusitados — de fragmentos de madeira ao próprio pó de pedra –, o pai arquiteto e dono de uma extensa coleção de livros da especialidade. Aos olhos do comum mortal, o mármore pode ser só o material que salta à vista em cozinhas e casas de banho, mas para Mariana é a “pintura da natureza” que proporciona um número infindável de inspirações. “De repente, comecei a olhar para o mármore e a vê-lo como uma matéria muito mais maleável do que o resto das pessoas pensava. Cada veio tem 700 milhões de anos e não há um centímetro quadrado igual. Isso deixa-me muito impressionada até hoje”, continua.

Imagens das provas da coleção para o desfile de sexta-feira

A incursão de Mariana pelas pedreiras portuguesas começou há cerca de três anos. Ainda estudava no Modatex, em Lisboa, quando chegou ao Todos, um espaço de co-work na velha e industrial Marvila. Trabalhava para pagar a renda do seu próprio canto. No primeiro dia, subiu ao andar de cima e encontrou a equipa vizinha reunida em torno da pedra portuguesa. Nessa noite não dormiu, passou-a a fazer esboços do que poderia ser uma transposição da rocha para um produto de design. O projeto ficou em suspenso e, terminado o curso de Design de Moda, mudou-se para o Japão, mais especificamente para a cidade de Fukuoka.

Mesmo à distância, a ideia não esmoreceu. Acabou por encontrar na Assimagra (Associação Portuguesa da Indústria de Mármores, Granitos e Ramos) o principal parceiro. Em representação dos recursos minerais portugueses, esta organização fundada em 1964 conta, atualmente, com mais de 240 pequenas e médias empresas associadas. Em março deste ano, regressou à base (a Lisboa e ao Todos) e criou os Colisão Studios. “Há na indústria uma vontade grande de se modernizar”, refere Mariana, explicando ainda que esta primeira coleção foi desenvolvida no âmbito do projeto Marble Fashion Design, promovido pela Cluster Portugal Mineral Resources, por sua vez financiada por fundos do Alentejo 2020. Nos últimos anos, a ação da Assimagra tem sido de promoção da pedra portuguesa sobretudo além-fronteiras, do recente edifício de Siza Vieira em Manhattan ao projeto Primeira Pedra, cuja reta final irá coincidir com a Bienal de Veneza. Nas palavras da diretora de Qualidade, Ambiente e Território da associação, Célia Marques, a parceria “pretende marcar o grau de flexibilidade e modernização do mármore português”.

Mariama Emauz, a designer de 29 anos que assina a coleção “Stoners”, inspirada no mármore português

Do lado criativo, abordar esta matéria rígida e explorar a plasticidade que nela via levou a designer para a estrada. Visitou pedreiras e fábricas de corte de pedra. O pitch estava longe de ser fácil. Afinal, como convencer uma indústria habituada a lidar com blocos de 180 toneladas a cortar argolas com meio centímetro de espessura? Foi uma tarefa árdua, mas resultou. A atual coleção tem sido desenvolvida em colaboração com cinco fábricas portuguesas. Dos pequenos elementos polidos à mão que enriquecem roupas e acessórios aos saltos altos, o mármore surge numa escala bastante inferior a que habitualmente circula no mercado. Num dos modelos de calçado, o salto alto foi adicionado a uma estrutura em eco plástico, totalmente biodegradável, resultante de impressão 3D. “Muitas vezes, tenho uma coisa na cabeça, mas depois o material tem limitações”, comenta a criadora. Ainda assim, a persistência é meio caminho andado para contornar as aparentes impossibilidades. Aconteceu com a cravação de pedras no mármore (pedra sobre pedra, no fundo), uma conquista recente. A to do list está longe do final — ao que parece, o próximo passo é conseguir fazer missangas.

Prestes a estrear-se na ModaLisboa, depois de várias candidaturas à plataforma Sangue Novo que nunca chegaram a bom porto, Mariana prepara agora um desfile onde apresentará cerca de 30 coordenados, marcado para sexta-feira à noite. E se o mármore fosse um grupo de pessoas? Como é que se vestiriam numa sociedade que assistiu a todas as eras e à extinção de centenas de espécies? A questão, um tanto ou quanto fantasiosa, foi o ponto de partida para a escolha de materiais leves, transparências e tecidos técnicos.

O moodboard da coleção “Stoners”

Mas o objeto de estudo inspirou a designer a outros níveis. “As peças que não têm mármore são a minha interpretação desta pintura da natureza”, esclarece. Os eixos vertiginosos das pedreiras do anticlinal de Estremoz ditaram o corte de algumas peças, outras tiveram como destino recriar, umas de forma mais literal do que outras, os tão apreciados veios, bem como a textura do pó. No final, o resultado é um guarda-roupa usável, onde se destaca o exercício de transformar uma base conceptual numa coleção de peças que não nos importávamos de vestir. “Se o meu objetivo é aproximar as pessoas do mármore, tinha de desenhar peças que as pessoas pudessem compreender e usar”, afirma.

As colaborações marcam o projeto “Stoners”. Numa das peças, Mariana desafiou um artista a imprimir elementos gráficos usando carimbos de mármore. Nos brincos, contou com o trabalho de uma joalheira para manipular a prata. Define-se, por isso, como uma estrutura leve, em parte alimentada de sinergias, muitas delas providenciadas pelo próprio co-work onde tem o atelier. Fotografia, vídeo, programação — a criadora muniu-se das ajudas certas, ao mesmo tempo que ganhou a mobilidade de uma jovem marca. Não foi por acaso que escolheu pôr “studios” no nome. Além do desfile, a ModaLisboa vai receber uma exposição de peças de design assinadas por Mariana Emauz — jogos de pedra e luz, volumes maciços e um pequeno filme rodado em torno do conceito. Se, por um lado, a mostra exibe uma versatilidade que a própria designer quer continuar a pôr à prova, por outro, serve de chamariz a outros artistas e autores que podem vir a descobrir na pedra uma nova matéria nobre.

Imagem promocional da coleção “Stoners”

Produzir e comercializar a coleção será a etapa seguinte, tal como estreitar a relação com os parceiros industriais do projeto. “Quem sabe se não me mudo para o Alentejo”, admite. A aposta tecnológica é outro dos caminhos. Para o futuro da marca é fundamental adaptar as máquinas de grande escala ao corte e polimento de objetos bem mais pequenos e delicados, sobretudo se pensarmos numa produção em série. O caminho entre a pedra e a moda está oficialmente desbravado. Mariana tinha um bloco de mármore e fez dele uma coleção para a próxima primavera.