O escritor austríaco Peter Handke, premiado esta quinta-feira com o Nobel da Literatura 2019, afirmou ter ficado “surpreendido” com a atribuição da distinção, que considerou “muito corajosa, depois de todas as discussões” provocadas pela sua obra.

Depois de todas as discussões (…), fiquei espantado. Este tipo de decisão revela muita coragem da parte da Academia Sueca”, declarou aos jornalistas que o esperavam em frente à sua residência, em Chaville, na região de Paris, França.

Autor controverso, nomeadamente devido às suas posições pró-sérvias, Peter Handke defendeu, ao longo da carreira, que se deveria “eliminar” o Nobel da Literatura, que classificava de “falsa canonização” que “não oferece nada aos leitores”.

“O Ladrão de Frutas”, o mais recente romance de Peter Handke, deverá sair em Portugal no próximo ano, disse também esta quinta-feira à Lusa o editor Francisco Vale, da Relógio d’Água. Considerando “sempre surpreende” a revelação do vencedor do Prémio Nobel de Literatura, Francisco Vale disse que conta “reeditar” os títulos já saídos, assim como outros, designadamente “Uma Breve Carta para Um Longo Adeus”, procurando refletir “o geral da sua obra”, que é “extensa e diversa”, e inclui poesia, romance, ensaio e teatro.

A ideia era darmos uma ideia geral da sua obra, e publicar outros títulos”, disse à Lusa Francisco Vale, referindo-se a Handke como “um autor de referência da literatura centro-europeia”.

Na Áustria do século XX e princípios do atual, Peter Handke só é comparável a Thomas Bernhard, que já morreu, disse o editor português, referindo-se ao autor de “O Náufrago” e “Perturbação”, também editados pela Relógio d’Água. Para Francisco Vale, Handke surge no esteio de uma tradição de língua alemã, que tem como expoente Franz Kafka.

O autor austríaco tem dois títulos editados na Relógio d’Água, “A Dor Do Chinês” e “A Angústia do Guarda-redes Antes do Penalty”, e Francisco Vale, que está “a ultimar as negociações”, conta editar, “no próximo ano”, o mais recente romance do escritor, “O Ladrão de Frutas”.

Romancista, dramaturgo, poeta, realizador, o escritor austríaco Peter Handke, que venceu esta quinta-feira o Nobel da Literatura 2019, chegou a definir-se como um prosador para quem “não escrever é muito importante”, como disse à Lusa em 2009, numa das suas presenças em Lisboa.

Nascido em 1942, em Griffen, na Áustria, Peter Handke foi apresentado pela Academia Sueca como “um dos mais influentes escritores da Europa depois da Segunda Guerra Mundial”.

“A Mulher Canhota”, “Poema à Duração”, “A Tarde de Um Escritor”, “Para Uma Abordagem da Fadiga”, “As Vespas”, “Insulto ao Público”, “A Hora em que Não Sabíamos Nada Uns dos Outros”, “A Viagem à Terra Sonora”, “Ensaio sobre o Dia Conseguido”, “Os Insensatos Estão a Extinguir-se”, “Jogo das Perguntas”, “Numa Noite Escura Saí da Minha Casa Silenciosa” e “Os Belos Dias de Aranjuez” são outras obras de Handke editadas em Portugal, desde a década de 1970.

Os seus livros – à semelhança dos de Thomas Bernhard – surgiram em diversas editoras portuguesas, como as antigas Plátano e Difel, mas também a Presença, a Assírio & Alvim, os Livros Cotovia ou a Sistema Solar/Documenta. É também argumentista de “Movimento em falso” (1975) e “As Asas do Desejo” (1987), dois filmes do cineasta alemão Wim Wenders, que também dirigiu “Os Belos Dias de Aranjuez” (2016).