Parece um exercício matemático: como olhar para o mesmo número e lê-lo de formas diferentes. Uma hora depois de Luís Montenegro ter estado, na SIC, a anunciar a sua candidatura à liderança do PSD, explicando, por ‘a’ mais ‘b’, como os 27,9% de votos que o PSD teve no domingo foram “os piores de sempre”, Nuno Morais Sarmento, vice-presidente de Rui Rio, foi à RTP explicar, por ‘b’ mais ‘c’, como esses mesmos 27,9%, que foram um resultado “curto” (Morais Sarmento esperava chegar aos 30%), têm um lado bom.

“Há 28% que podem valer 40, e há 40% que podem parecer 28%, os resultados têm a ver com as circunstâncias”, começou por dizer. E dedicou-se depois a explicar, assim, como se pode olhar para o resultado eleitoral de Rio, que, no seu entender, não é “impeditivo” para se recandidatar à liderança:

1) Com o mesmo resultado (cerca de 29%), Cavaco Silva começava em 1985 “o caminho que o levou à maioria absoluta em 1991”. Morais Sarmento só não diz que, em 1985, mesmo com essa votação, o PSD de Cavaco Silva foi o partido mais votado.

2) A distância que hoje existe do PSD para o PS (na ordem dos 8 pontos percentuais, de 28% para 36%) é “a diferença que normalmente se encontra entre o partido ganhador e o partido que vem a seguir”. Na prática, lembra Morais Sarmento, o PS teve 1,8 milhões votos, e o PSD teve 1,4 milhões, continuando o país ainda bipolarizado em torno destes dois partidos.

3) O PSD tem mais votos do que todos os partidos a seguir a ele.

4) O PSD só não teve uma votação maior porque houve um maior emergência de partidos novos no centro e à direita e porque os votos brancos e nulos, que são “válidos” porque são de pessoas que não se demitiram de ir votar, também aumentaram (e são mais do que os votos no PAN).

5) O “ponto de partida” de Rui Rio para este ciclo de eleições eram as autárquicas de 2017, as últimas sob a liderança de Passos Coelho. E, em relação a essas, Rio ganhou na medida em que os dois últimos anos da liderança de Passos puseram o PSD em “risco”. “As eleições têm uma consequência e uma sequência, não são desligadas umas das outras. O mais penalizador para o PSD não foram os quatro anos de governação com a troika, mas sim os dois anos seguintes que terminaram nas autárquicas em que tivemos 10% em Lisboa e 11% no Porto”, lembra o vice de Rio. Agora, diz, nestas legislativas, se o PSD estava “em risco” de desaparecer nas grandes cidades, os números são diferentes: 22% de votos no PSD em Lisboa e 31% no Porto.

6) Durão Barroso também perdeu as Europeias e perdeu, a seguir, as legislativas para António Guterres, mas “dois anos depois estávamos no pântano”, e o governo de Guterres caía após uma derrota nas autárquicas. É esta a grande aposta do núcleo duro de Rui Rio: que a solução de governo de António Costa seja frágil e não dure quatro anos. Nessa altura, então, que deverá coincidir com uma altura em que o ciclo económico internacional já não seja tão favorável — “há demasiados ovos no ar para que um não caia no chão” — o PSD pode surgir mais forte. “Portugal sobe 4 ou 5 pontos nas taxas de juro e nós estamos a pedir ajuda outra vez”, diz Morais Sarmento, definindo esse como o maior risco que o governo de Costa enfrenta nesta nova legislatura.

É com esta leitura dos dados que Morais Sarmento afirma que uma liderança não se constrói no tempo “mediático”, mas sim no tempo “que ela precisa”. E a liderança de Rui Rio precisa de mais tempo. Por isso, o vice-presidente de Rui Rio defende que o atual líder do PSD se mantenha no cargo, afirmando que tem o “perfil indicado para contrapor ao perfil de António Costa”. “Não vejo que estas duas votações [europeias e legislativas] sejam impeditivas, mas a decisão cabe a ele”, disse apenas.

Para Morais Sarmento, Luís Montenegro foi um “bom líder parlamentar” e não é “péssima pessoa ou péssimo candidato”, mas não é o nome indicado para a liderança do PSD. Primeiro, em termos ideológicos: o vice de Rio defende que a estratégia deve ser manter o PSD na social-democracia e não na ala liberal. Depois, em termos de perfil: “Em termos de bagagem, reconheço outra competência técnica e outra capacidade de merecer a confiança dos portugueses a Rui Rio do que a Luís Montenegro”. Já Maria Luís Albuquerque, que esta terça-feira Cavaco Silva lançou para cima da mesa, é “um dos melhores quadros do PSD”, mas, quanto ao resto, Nuno Morais Sarmento não tem dúvidas: “Às vezes a disputa interna no PSD parece uma gaiola de malucas”.