De 3 a 9 de novembro, o município do Porto volta a trazer a debate 52 convidados de 15 países para falar sobre as “Travessias” (“Crossings”) do legado colonial no Fórum do Futuro. Partindo da efeméride dos 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães, esta edição vai dedicar-se a “pensar processos de ocupação, tanto territorial como cultural”, da atualidade e da história, e a problematizá-los de forma alargada, descreveu o diretor artístico do evento, Guilherme Blanc, durante a apresentação do programa.

Danny Glover é um dos “cabeças de cartaz” do evento que já vai na sexta edição. O ator norte-americano, estrela de filmes como “Cor Púrpura” e “Arma Mortífera”, é hoje, na verdade, “um dos grandes líderes do ativismo norte-americano, principalmente pelas causas pós-coloniais e pelo fim da escravatura”, considera Guilherme. É disso que nos vem falar o também atual embaixador da UNICEF, numa conversa mediada pelo escritor, cineasta e artista ganês John Akomfrah, pela primeira vez co-curador do evento.

Entre as conferências, debates, performances, concertos e cinema que ocuparão diferentes espaços da cidade ao longo da semana de 3 a 9 de novembro, outro dos destaques vai para a presença de Vavanda Shiva. A cientista indiana “heroína ecológica”, como lhe chamou a revista Time, ficou conhecida pelo combate jurídico contra a empresa multinacional Monsanto e estará no Porto dia 7 de novembro.

Ao diretor artístico do evento e a Akomfrah juntam-se ainda a portuguesa Filipa Ramos, curadora e investigadora, e Gareth Evans, programador cultural e curador de cinema da Whitechapel Gallery.

De Serralves a Casa da Música, pelos vários rostos do racismo

“Travessias” é também pela primeira vez uma cooperação com outras palcos e organizações da cidade. Dia 6 de novembro a Casa da Música recebe um concerto da britânica Lafawndah, que apresentará o seu mais recente álbum “Ancestor Boy” (2019). Por Serralves, dia 8 de novembro, passará a cubana Coco Fusco e o seu “Insustentável Peso da Utopia”, para falar da forma como “a produção artística em Cuba está a passar por um período de estrangulamento”, refere Guilherme. No mesmo dia e sob paisagem idêntica é possível ouvir em conferência Arthur Jafa, recentemente premiado com o Leão de Ouro de Melhor Artista no Festival de Cinema de Veneza, que traz consigo o filme documentário Dreams are colder than death.

Apresentação Fórum do Futuro

Guilherme Blanc (à esquerda) é o diretor de programação do Fórum do Futuro 2019.

A programação do primeiro dia, 3 de novembro, arranca com Chimamanda Ngozi Adichie, “uma das escritoras africanas mais influentes” da atualidade, sublinha o diretor artístico. Com uma obra sobre a relação entre o racismo e a contemporaneidade, sob o tema que também atravessa todo o fórum, “Travessias” (“Crossings”), a escritora vai estar à conversa com a jornalista Joana Gorjão Henriques no grande auditório do Rivoli sobre “o sentir-se negra” e como é que só se inteirou dessa faceta da vida quando saiu de África.

Logo no dia seguinte, 4 de novembro, espaço para um encontro entre o artista Ernesto Neto — recentemente focado no tema da indigenização — e uma das principais líderes indígenas da Amazónia, Sônia Guajajara. A conversa deverá passar pela governação de Bolsonaro e pela importância de trazer os povos indígenas ao debate sobre a defesa da Amazónia.

Sônia Guajajara é uma das principais líderes indígenas da Amazónia.

Chegam-nos mais palavras sobre o Brasil através da artista Vivian Caccuri. “Mão da Febre é uma performance inspirada na forma como a febre-amarela, doença ligada às antigas plantações de açúcar, foi trazida para o continente americano a partir de navios negreiros vindos de África. Uma “virulência” com paralelismo com “a virulência da política atual do Brasil”, aponta Guilherme Blanc.

Os debates-performance estreiam-se neste “Fórum do Futuro” com “um encontro excecional” entre o bailarino e coreógrafo Ralph Lemon e o artista visual Kevin Beasley. O espetáculo parte do som saído de uma descaroçadora de algodão mecânica para refletir sobre raça e escravidão nas plantações de algodão no sul dos Estados Unidos.

Apresentação Fórum do Futuro

O sudoeste asiático será representado por Naeem Mohaiemen, nascido no Reino Unido e educado no Bangladesh, que abrirá o terceiro dia do Fórum do Futuro, com a já habitual “artist talk”. Sob o mote “keep calm e aprende Bengali”, o artista vem partilhar a história de alguém que cresce a aprender esta língua mas, quando migra para o Reino Unido e aprende inglês, acata “uma ideia errada de modernidade”.

Noutra talk, desta feita centrada “nas narrativas marginalizadas”, a artista multipremiada Wu Tsang traz o seu mais recente trabalho cinematográfico, focado na questão da perda de individualidade que os media incutem nas notícias e reportagens sobre refugiados. A artista, muito focada nas questões queer e trans, parte “da representação que os media fazem dos migrantes” para explicar como “a sua voz e a sua identidade individual é-lhes traída” para lhes ser conferida uma identidade quase de “massa”.

A aproximar-se do fim, o Porto receberá “um dos arquitetos mais influentes dos nossos dias”, nas palavras do organizador. Sir David Adjaye, que se iniciou na arquitetura com Souto Moura e a encara como uma “manifestação física das mudanças sociais”, vai conversar com a arquiteta portuense Graça Correia sobre a sua prática artística e a forma como ela se mistura com a cultura africana.

Sir David Adjaye vai estar à conversa com a arquiteta Graça Correia. Ambos iniciaram a carreira no Porto junto do arquiteto Souto Moura.

Ao mesmo tempo que trata questões que abordam a sustentabilidade, a autarquia também quer assinalar esta edição com uma maior preocupação ecológica. Este ano, num investimento total de 260 mil euros, todas as brochuras do evento serão imprimidas em papel mais sustentável, produzido através de materiais que obedecem a certificados ambientais, o plástico será completamente eliminado do evento e não será servida carne aos convidados. “Medidas mínimas de sustentabilidade ambiental”, segundo Guilherme Blanc.