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“Ele é um miúdo com talento e que já tinha mostrado isso na seleção de Sub-20 do Brasil. Disse-lhe no início da semana que ia ser titular para prepará-lo e ficar mais tranquilo. Tem 17 anos, é um menino mas em relação à maturidade, daquilo que é o jogo, é um menino para aí com uns cinco anos à frente. Vai ter um percurso brilhante. Faz-me lembrar aquele miúdo que saiu muito cedo para a Europa… Como se chama… Que foi para o AC Milan… O Kaká, faz-me lembrar o Kaká”, dizia Jorge Jesus há um mês, após a vitória com o Avaí por 3-0 onde lançou Reinier na equipa e logo com um golo apontado antes de ser substituído aos 76′. Aí, sobravam os elogios; depois, também houve “bronca” no miúdo. E com os pratos da balança a penderem para o português.

Quando chegou ao Brasil, neste caso ao Flamengo, Jorge Jesus teve um primeiro jogo treino transmitido através das plataformas sociais onde não viu problemas em dar um “aperto” em Willian Arão. “Está mal Arão!”, gritou de uma forma que foi tudo menos disfarçada, para aquele que era uma espécie de patinho feio da equipa capaz de gerar amores e ódios pelas prestações no meio-campo. Nessa altura, houve uma divisão entre a razão ou não do gesto mas, com o passar dos meses, aquele que tinha sido chamado à atenção tornou-se na grande revelação da equipa, no meio-campo mais consistente do Campeonato ao lado de Gerson, um craque “pescado” à Roma. Com Reinier, no triunfo com a Chapecoense, fez o mesmo. E todos aceitaram a atitude, incluindo o próprio pai do jogador que considerou tudo normal. Hoje, Jesus é mais do que uma fé e todos aceitam a sua palavra.

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Vindo de uma série de nove vitórias e apenas um empate (0-0 com o São Paulo), o Flamengo já tinha do seu lado a parte histórica de uma campanha que poucos pensavam ser possível: além de ser a equipa com mais pontos à 23.ª jornada desde que o Campeonato passou a ser disputado com duas voltas a 20 clubes, o FiveThirtyEight, uma plataforma de estatísticas e probabilidades que trabalha com a ESPN Brasil, dava uma percentagem de sucesso como campeão do conjunto do Rio de Janeiro de 80% (só duas vezes quem liderava com cinco pontos à 23.ª ronda não acabou em primeiro). A isso juntou-se ainda na véspera a derrota do Palmeiras com o Santos, o que dava uma oportunidade de ouro ao Fla para disparar na classificação, em caso de triunfo com o Atl. Mineiro.

Esta semana, numa entrevista ao Goal, Luisão, antigo central e capitão do Benfica ao longo de uma década de meia que trabalhou seis anos com o técnico, dizia que “o Brasil não estava preparado para o sucesso de Jorge Jesus”. E explicou porquê. “Nem dele nem de ninguém porque se procura os defeitos até dos ídolos”, referiu, recordando uma conversa que teve com o ex-treinador dos encarnados que lhe mudou a perceção com aquela idade de ver o jogo. Foi com uma conversa assim que Jesus ganhou Arão. E será com uma conversa assim que Jesus irá ganhar Reinier. Com isso, ganha sobretudo o Flamengo, mesmo sem os internacionais Gabigol e Rodrigo Caio.

Num encontro com o Atl. Mineiro de Elias (ex-médio do Sporting), Nathan (médio ofensivo que passou pelo Belenenses SAD) ou o veterano Ricardo Oliveira (avançado que esteve vários anos na Europa), o líder brasileiro teve uma entrada dominadora e assumiu por completo o encontro ao longo de toda a primeira parte frente a um adversário em 5x4x1 com linhas tão baixas que o homem mais avançado estava 10/20 metros… à frente da sua área. Ainda assim, perante o domínio avassalador em termos estatísticos, foi preciso arriscar em dois momentos para o Flamengo quebrar a muralha adversária: na meia distância, com Wilson a travar os remates de Rodolfo (30′) e Rafinha (35′) para canto; e nas bolas paradas, com Willian Arão a surgir ao primeiro poste para desviar o canto na esquerda de Vitinho e inaugurar o marcador a apenas oito minutos do intervalo.

O Flamengo surgia nesta 24.ª jornada como a equipa que mais golos tinha na sequência de passes pelo corredor central mas também aquela que mais marcava na sequência de cruzamentos. Com o Atl. Mineiro, face à densidade de adversários junto da área, arriscou mais a meia distância e nas bolas paradas. Mas nem por isso deixou de ser fiel à ideia de jogo que lhe vale a liderança do Campeonato, tendo ficado perto da abrir o marcador logo nos minutos iniciais do segundo tempo com Reinier a desviar a rasar o poste após cruzamento de Rafinha. No entanto, e contra a corrente do jogo, os visitantes conseguiram mesmo chegar ao empate por Nathan, num lance onde surgiu bem entre os centrais na área para fintar Diego Alves e empurrar para o 1-1 (51′).

Jesus parecia estar a adivinhar qualquer coisa, até pela conversa que foi mantendo com os dois centrais desta noite, Rhodolfo e Pablo Marí, entre o túnel de acesso aos balneários e o relvado. Do nada, um encontro que parecia estar a 100% dominado ganhou uma vida própria e podia trazer mais questões do que respostas ao Flamengo mas foi preciso esperar apenas dez minutos pelo 2-1: numa altura em que o Maracanã já soltava uns assobios à exibição de Vitinho, o avançado contratado ao CSKA Moscovo teve um golo fabuloso após trabalho individual, mal festejou o feito mas acabou com todo o estádio a cantar o seu nome ainda antes do pontapé de saída… também a pedido de Jorge Jesus, que continua a dar show na sua área técnica (e um pouco fora dela em algumas fases).

O Atl. Mineiro, que ainda podia ter voltado ao jogo onde nunca esteve depois do empate, quebrou em definitivo, foi somando erros defensivos que não estavam a acontecer e consentiu mesmo o 3-1 num lance demasiado facilitado pelos centrais contrários, que permitiram que Vitinho tocasse de cabeça na área para Reinier fuzilar e marcar também o seu golo apenas quatro dias depois de ter sido chamado à atenção de Jesus no final do encontro frente à Chapecoense. Ele fala, eles aceitam a palavra. E assim vai o Flamengo, que a partir de agora soma oito pontos de avanço sobre o Palmeiras e o Santos antes de um complicado jogo frente ao Athl. Paranaense.