A Academia Sueca ligou a Olga Tokarczuk apenas alguns minutos antes de anunciar publicamente que lhe tinha sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura de 2018. A escritora polaca encontrava-se a viajar de carro na Alemanha, onde se encontra neste momento a promover o seu novo romance, Jacob’s Scriptures. Foi apanhada de surpresa e, numa primeira reação telefónica ao organismo que atribui o prémio literário, admitiu que ainda não sabia como reagir aos milhares de telefonemas e mensagens que já tinha entretanto recebido.

O dia foi agitado, e apenas hoje é que a escritora polaca conseguiu sentar-se calmamente e escrever algumas palavras sobre o que sentiu ao saber que tinha sido galardoada com o Nobel da Literatura. O seu comunicado oficial foi divulgado durante a tarde desta sexta-feira pela Cavalo de Ferro, a editora que publicou em Portugal o muito elogiado Viagens, que lhe valeu o Man Booker Prize International em 2018 e a catapultou para a fama internacional, e que vai fazer chegar às livrarias na próxima semana Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, que esteve nomeado para o mesmo galardão britânico de tradução.

“Soube que venci o Prémio Nobel nas circunstâncias mais estranhas — na autoestrada, algures ‘a meio’, num lugar sem nome”, começou por dizer Tokarczuk. “Não consigo pensar numa metáfora melhor para descrever o mundo em que vivemos. Atualmente, nós os escritores confrontamo-nos com desafios cada vez mais improváveis e, no entanto, a literatura é uma arte de movimento lento — o longo processo de escrita torna difícil apanhar o mundo ‘em flagrante’. Muitas vezes questiono se é sequer possível descrever o mundo, ou se já somos demasiado impotentes perante a sua forma cada vez mais fluída, a dissolução de pontos fixos e o desaparecimento de valores.”

E continuou: “Acredito numa literatura capaz de unir as pessoas e de mostrar o quão semelhantes somos, que nos torna conscientes do facto de estarmos ligados por fios invisíveis. Que conta a história do mundo como se este fosse um todo vivo e uno, desenvolvendo-se de forma constante à frente dos nossos olhos, e no qual nós temos um pequeno, mas poderoso papel”.

Tokarczuk terminou felicitando Peter Handke, vencedor do Nobel de 2019. “Estou contente por ambos virmos da mesma parte do mundo”, disse. São ambos escritores da Europa central, uma zona onde existe “um problema democrático”, nas palavras da escritora polaca. Tanto um como outro “escrevem sobre terras contestadas, sobre quem é dono da memória e sobre a necessidade humana de contar histórias”, resumiu Fiammetta Rocco para o The Guardian. A decisão da Academia de atribuir o prémio a Handke tem, contudo, sido muito mais contestada devido à sua ligação ao regime de Slobodan Milosevic, ex-presidente da Sérvia e antiga Jugoslávia.

O anúncio dos prémios Nobel de 2018 e 2019 surge depois de um ano de hiato na sequência de um escândalo sexual envolvendo o dramaturgo francês Jean-Claude Arnauld, marido de uma ex-membro da Academia e dono de um clube literário parcialmente financiado por esta.