Joaquim Pinto carregou o carro com as bobines e pôs-se a caminho de Madrid. A mistura de som era provisória, já que o filme nem sequer estava terminado. O objetivo era encontrar-se com Guglielmo Biraghi, diretor do Festival Internacional de Veneza, embora não estivesse nada combinado. O italiano estava em Espanha para assistir a filmes que poderiam potencialmente participar no evento de cinema, mas já tinha explicado à equipa portuguesa de “Recordações da Casa Amarela” que não se deslocaria a Portugal para mais visionamentos.

Joaquim Pinto não desistiu. O produtor (mas também realizador e engenheiro de som) descobriu em que hotel estava hospedado Biraghi, reservou um quarto no mesmo local e marcou uma projeção numa sala de cinema. “Entre os filmes espanhóis, lá o convenci a ver o nosso. Ao fim de 30 minutos, ele pediu para parar a projeção. Estava selecionado para Veneza”, conta Joaquim Pinto ao Observador.

Em setembro de 1989, “Recordações da Casa Amarela”, de João César Monteiro, acabaria por vencer o Leão de Prata no Festival de Cinema de Veneza. O prémio mais importante, o Leão de Ouro, foi para “A Cidade da Dor”, de Hou Hsiao-hsien. Amigos da comitiva de Taiwan, o produtor e o realizador portugueses foram convidados para a festa da vitória.

“Tinham o Leão de Ouro em exposição numa mesa cheia de iguarias. Todos beberam muito, provavelmente em Taiwan não estavam habituados a bebidas pesadas”, lembra Joaquim Pinto. A certa altura da noite, João César Monteiro despediu-se e deixou a festa. Pouco tempo depois, o produtor português percebeu que estava toda a gente em pânico, a correr de um lado para o outro. “O Norman [Wang, que fazia a promoção de “A Cidade da Dor”] explicou-me que o Leão tinha desaparecido, alguém o tinha roubado. Ao fim de 15 minutos, já com telefonemas para a polícia, percebi que o João tinha escondido a estatueta debaixo de uma mesa.” O sentido de humor do realizador (que morreu em 2003) era muito particular e manifestava-se em todos os momentos, até no de maior consagração da sua carreira até ali.

Depois do encerramento do festival, João César Monteiro seguiu para outra cidade italiana. Joaquim Pinto regressou a Portugal com o prémio. Quando chegou, encontrou no jornal “Público” uma entrevista que o realizador tinha dado ao telefone. “Perguntaram-lhe como estava o Leão. Ele respondeu: ‘O Leão está bem, ficou com o filho da mãe.’ Era uma piscadela de olho para mim.”

“Vai e dá-lhes trabalho”

Às salas portuguesas, “Recordações da Casa Amarela” chegaria a 12 de outubro desse ano. Exatamente 30 anos depois, Inês de Medeiros ainda recorda o projeto como “inesquecível”. Alfama foi o cenário para grande parte das filmagens e a figuração era feita por quem vivia naquele bairro lisboeta. Arranjar as pessoas era uma das tarefas de Inês de Medeiros, assistente de realização.

“Eu era bastante destemida e adorava aquilo, acabávamos a fazer parte da vida das pessoas, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Toda a rodagem foi extraordinária, mas Alfama era um bairro muito fechado”, recorda.

Apesar de ter apenas 21 anos naquela altura, quando soube de um caso de violência doméstica, teve de intervir, apesar de nada ter a ver com filme. “Fui lá meter-me no meio. O homem batia à mulher e à criança. Depois queria bater-me também.” Os moradores da zona, lembra, uniram-se para defendê-la. “Protegiam-me do senhor, que era louco”, recorda Inês de Medeiros.

Este episódio insólito não foi filmado, mas bem podia ter feito parte de “Recordações da Casa Amarela”, que marcou a sua época e as seguintes por ser irreverente e não querer saber de regras.

João César Monteiro (que morreu em 2003) realizou o filme e, pela primeira vez, foi igualmente o protagonista, João de Deus, um homem de meia idade que vive numa pensão barata de Lisboa. É expulso depois de assediar a filha da dona do espaço e acaba por ir parar a um hospício. Quando sai de lá, tem uma missão, dada por outro doente mental: “Vai e dá-lhes trabalho.” Assim faz João de Deus neste filme e nos dois seguintes (“A Comédia de Deus”, 1995, e “As Bodas de Deus”, de 1999) que fecham a trilogia. Para o papel foram considerados outros atores, como Jorge Silva Melo ou Roberto Benigni — que “era muito caro”, explica Joaquim Pinto. No entanto, “lá no fundo o João César sempre soube que era a pessoa certa para o papel”.

Os custos acabaram por ultrapassar o orçamento inicial por isso mesmo. “Gastámos mais películas porque o João estava a realizar e a atuar. Tínhamos um plano irrealista com uns dois takes por cena. Claro que fizemos muito mais.” Embora, passadas três décadas, Joaquim Pinto não consiga lembrar-se de quanto custou fazer “Recordações da Casa Amarela”, conta que teve de recorrer a vários créditos bancários durante a produção. “Os apoios não chegavam. Tivemos a sorte de ter um apoio da RTP e depois uma pequena verba do ICA [Instituto do Cinema e Audiovisual] mas não eram suficientes. Fomos pagando à medida que o filme foi estreando e sendo vendido.”

João César Monteiro já tinha tentado antes um financiamento maior por parte do ICA. Apresentou o projeto mas este foi recusado. Foi então que pediu ajuda a Joaquim Pinto, que conhecia desde 1976. “Leu-me o guião e perguntou se eu queria produzi-lo mas eu próprio não tinha grande experiência de produção sem ser no meu filme, ‘Uma Pedra no Bolso’ [1988]. Já tinha trabalhado com o João na área do som, mas só isso”, explica.

“Nem sequer tínhamos promoção montada”

Para o argumento, João César Monteiro recorreu a Inês de Medeiros. “Graças aos meus pais, conhecíamo-lo desde sempre e a minha irmã Maria [de Medeiros] estreou-se num filme dele, o ‘Silvestre’.” Ainda assim, ficou surpreendida com o convite e muito empolgada. “O texto inicial estava maravilhosamente escrito, mas não como um guião. Ele pediu-me ajuda para transformá-lo”, explica ao Observador.

Depois, aceitou o cargo de assistente de realização. “O João queria que eu fosse o olhar dele de fora, já que ele era ator pela primeira vez. Claro que isso valia o que valia, ninguém tinha a visão dele.” Foi exatamente por César Monteiro ser “demasiado imprevisível” que Inês de Medeiros recusou fazer o papel de Mimi — acabaria por fazer a dobragem portuguesa da atriz italiana Sabina Sacchi.

As mudanças repentinas de ideias de João César Monteiro eram comuns e um dado adquirido que quem queria trabalhar com ele tinha de aceitar. Manuela de Freitas, que fazia de Dona Violeta em “Recordações da Casa Amarela”, resumiu o que chegou a acontecer.

“Muitas vezes destruía os cenários, rejeitava iluminações e enquadramentos, dizimava equipas. Dizia: ’Não quero isto, parece um filme.’”, recordou a atriz em João César Monteiro, um livro de 2005 dedicado à obra do cineasta.

Um dos momentos mais tensos do filme de 1989 aconteceu no Convento do Carmo, onde foi rodada uma cena com uma banda. “Pouco tempo antes, o João implicou com as cores das camisolas da banda. Aquilo arrastou-se pela noite fora, mas lá acabou por gravar com o que havia”, diz Joaquim Pinto.

Houve outros cenários que marcaram Inês de Medeiros para sempre. “Filmámos no Redondel, no hospital Miguel Bombarda, onde os pacientes estavam fechados em celas. Aquilo era completamente medieval, ainda enlouquecia mais as pessoas. Hoje não nos deixariam entrar lá, de certeza.” A personagem João de Deus passa algum tempo naquele hospício, que contribuiu para o lado místico e original do filme.

O filme foi descrito como “à frente do seu tempo” e “provocador” no livro “Impure Cinema — Intermedial and Intercultural Approaches to Film”, de Lúcia Nagib e Anne Jerslev, publicado em 2014. Nos Estados Unidos chegou a estar em exibição em algumas salas, mas a restrospetiva do Harvard Film Archive, em 2010, foi o primeiro evento que reuniu e deu atenção à obra de João César Monteiro. À revista “Slant”, o curador do evento, Aaron Cutler, explicou que os filmes de João César Monteiro “são obcecados com ritual e iluminação — e desenvolvem um ritmo hipnótico”.

Apesar dos elogios que “Recordações da Casa Amarela” já trazia de fora, quando se estreou em Portugal não foi consensual. “Estávamos em pleno cavaquismo, não era um filme tradicional”, lembra Joaquim Pinto. Além disso, diz Inês de Medeiros, “havia disputas entre filmes de autor e cinema comercial”.

Apesar de tudo, o projeto foi vendido praticamente para a Europa inteira e venceu mais dois prémios (realização e interpretação masculina) no Festival de Cinema de Dunquerque, em França. No entanto, quase não esteve presente em Veneza, o evento responsável pelo grande impulso. Antes da aventura em Madrid, Joaquim Pinto teve de convencer João César Monteiro de que o festival italiano era o indicado para apresentar o filme. “Ele queria tentar um festival mais pequeno, como San Sebastian. Não sei se tinha receio que o filme não fosse aceite na competição.” Não só foi escolhido para Veneza, como após duas ou três projeções, o realizador era parado nas ruas de Itália. “A história era tão particular que o reconheciam como João de Deus, não como o realizador.”

Por essa altura, o público já estava conquistado, mas faltava o júri. “Nem sequer tínhamos promoção montada, era eu que punha as folhas sobre o filme nos cacifos dos jurados e dos jornalistas”, lembra Joaquim Pinto. O júri estava dividido e contra o projeto estava sobretudo “uma senhora francesa [Danièle Heymann] muito conservadora que teve uma reação alérgica ao filme”.

Sem querer, acabaria por ser ela a responsável pela atribuição do Leão de Prata a “Recordações da Casa Amarela”. “Na véspera caiu na banheira e não conseguiu ir votar.”