As antigas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exércitoderam as boas-vindas à 53ª edição da ModaLisboa. Na passada sexta-feira, o calendário de desfiles compôs-se de novos talentos na área do design, mas também de nomes já consolidados da moda portuguesa. O concurso Sangue Novo foi o pontapé de saída. Seguiram-se as apresentações de Hibu, marca que ressurge após três anos de pausa, dos Colisão Studios, de Valentim Quaresma e da plataforma de design colaborativo Awaytomars, que deixaram para o final da noite o anúncio de uma colaboração com a italiana Missoni para o próximo outono.

Hibu, a marca criada por Marta Gonçalves, estava parada há três anos. O regresso era aguardado neste primeiro dia de ModaLisboa, em parte porque a designer de 28 anos voltaria a solo, depois de a marca já ter estado sob a direção criativa de um trio e, entretanto, de uma dupla. Pode dizer-se que o âmago da Hibu está intacto. Em tempos conhecida por desafiar as gavetas de género, no que à roupa diz respeito, foi precisamente nessa fluidez — versatilidade, no léxico do design — que Marta criou uma coleção sem estação.

Hibu © Melissa Vieira/Observador

“Quis mostrar que estas peças podem ser usadas por toda a gente — todos os géneros, todas as idades, todos os corpos”, começa por explicar ao Observador, minutos após o final do desfile. Num formato curto, mistura de uma apresentação convencional e performance, Marta Gonçalves deu a conhecer aquilo a que chama uma coleção de básicos, assente em gangas que variam entre preto, branco, verde e azul, t-shirts e peças prontas a integrar um guarda-roupa quotidiano. Para já, anularam-se os excessos experimentais. Pela primeira vez, a Hibu passou da fase de protótipos e apostou numa coleção produzida em série.”Durante este tempo em que estive sem apresentar coleções, fiz uma pesquisa de fábricas que pudessem produzir em quantidades pequenas. Foi um rompimento com o processo anterior. Antigamente, era muito para o show, mas faz todo o sentido mostrar esta parte também. Isto é usável e e nem tinha assim muitas peças, mas elas podem ser usadas de várias maneiras”, continua.

Isso, a criadora fez questão de mostrar à frente de todos. O formato de desfile convencional foi quebrado logo ao início, quando membros da plateia se levantaram e vestiram peças que haviam sido estrategicamente deixadas à beira da passerelle, dentro de sacos. Num outro momento, manequins trocaram de roupa entre si, mostrando a versatilidade e o pragmatismo da nova Hibu. Marta fala de uma progressão a nível comercial. Sem uma estação definida, grande parte destas silhuetas retas e descontraídas já foi produzida em fábrica, antecedendo o lançamento da loja online, que está para breve. Com preços entre os 80 e os 300 euros, depois da ModaLisboa, o destino da coleção “Cru-L” é a rua.

Valentim Quaresma © Melissa Vieira/Observador

Seguiu-se o desfile dos Colisão Studios em parceria com a Assimagra, uma parada de silhuetas diretamente inspiradas no mármore português, pela mão da designer Mariana Emauz. Ao cair da noite, coube a Valentim Quaresma encher a grande sala de desfiles das antigas oficinas. O criador começou por bater continência ao tema (Collective) e ao local onde acontece esta edição da ModaLisboa. Não foi coincidência, Quaresma quis mesmo que os primeiros coordenados do desfile exibissem medalhas, condecorações e acessórios que remetem para uma estética militar. Depois de ter inaugurado uma exposição de escultura no Palácio da Ajuda e de ter mudado para lá o seu atelier, o designer reconhece a influência da solenidade e da opulência desse ambiente numa coleção marcada por brilhos, pedras coloridas e peças imponentes. Ao mesmo tempo, cresce o investimento — de tempo, materiais e pesquisa — no vestuário.

Coube à plataforma de design colaborativo Awaytomars encerrar o primeiro dia de desfiles. Alfredo Orobio e Marília Biasi contaram, como já é habitual, com uma rede de criadores à escala global, cerca de 800 no caso desta coleção primavera-verão. Silhuetas longilíneas, uma escala diversa de tons beringela e um tom formal marcaram a antecipação da próxima estação quente. Afinal, esta foi a primeira vez que a Awaytomars calçou saltos altos. “É um reflexo das coisas que a gente tem recebido na plataforma. Mas essência continua ali. Nas primeiras coleções, os tecidos eram muito tecnológicos e, de certa forma, era tudo menos real. A gente agora está com o pé no chão. A nossa ideia é ter sempre um conceito, mas também uma linguagem comercial. Até porque a gente precisa vender”, explica Alfredo Orobio.

Awaytomars © Melissa Vieira/Observador

O aprimoramento não apagou aquelas que são as assinaturas da marca. Os estampados continuam enérgicos, nesta coleção inspirados numa longínqua flora marciana, enquanto a seda se mantém entre as matérias-primas em destaque. O percurso internacional da Awaytomars tem sido notável. Este ano, a marca lançou uma coleção em colaboração com a The Woolmark Company e com a Harvey Nichols. Decididamente, uma amostra do que está por vir. Os dois criadores aproveitaram o desfile desta sexta-feira para anunciar o lançamento de uma micro coleção para a Missoni. “Faz dois anos que a gente está num processo de namoro. Vai ser co-criada pelo público e vai ser vendida no mundo todo, o que para a gente vai ser um marco inacreditável. No fundo, é uma marca que tem 60 anos a vir ter com uma que existe há quatro”, conclui. O primeiro olhar para a coleção chega no próximo outono, com apresentações prometidas para Lisboa e Milão.

Este sábado, a ModaLisboa continua a antecipar o próximo verão no Campo de Santa Clara. Entre os desfiles agendados, destaque para Nuno Gama, Ricardo Preto, Dino Alves e para a presença de Luís Onofre na capital. Na fotogaleria, veja ou reveja as imagens que marcaram o primeiro dia.