À vista desarmada, podemos dizer que pelo menos desde Descartes a dúvida ocupa o lugar de honra entre as faculdades intelectuais. Metódica, científica, apanágio do brilhantismo ilustrado contra a bovina dogmática clerical, a dúvida foi ganhando peso como a mais complexa e nobre operação do intelecto. Aproveitaram-se dela os enciclopedistas, os defensores do “pensamento crítico” contra a aceitação obediente de doutrinas externas, e a vaga semi-cética de intelectuais que inundou o século XX.

Entre uns e outros, porém, houve um homem que se insurgiu contra este modo de pensar. John Henry Newman, o mais famoso cardeal Inglês da era Vitoriana, lutou contra esta forma de pensar de uma maneira tão arguta como poucas vezes se viu. É que, no seu Ensaio a favor de uma gramática do assentimento não se limita a reclamar da dúvida a partir de dentro, isto é, a duvidar das vantagens da dúvida. De facto, quando divide as operações da razão em três – dúvida, inferência e assentimento – explica que muitas vezes é tomado por dúvida um assentimento dogmático. Dúvida, na verdade, é uma questão em que a balança ainda não se pronunciou, tanto pode pender para um lado como para outro – mas exige uma resposta. A dúvida religiosa habitual, como quem diz duvidar da existência de Deus, é, na maior parte das vezes, um assentimento de uma não existência, não uma pergunta.

Newman, no entanto, não se limita a perorar contra a dúvida. Explica, até, que ela pouco interessa para o seu estudo e pouco será mencionada. Aquilo que lhe interessa é provar a complexidade e importância do assentimento, e de que forma está longe da tal passividade acéfala que a Modernidade atribuía à dogmática por oposição à atitude céptica.

E se já explicámos que a dúvida é a pergunta, importa então distinguir a inferência e o assentimento. Como os próprios nomes já sugerem, a inferência significa a aceitação condicional de uma proposição; se x acontecer, então y. O assentimento implica a aceitação sem reserva de uma proposição.

Acontece que o assentimento se pode dar na forma de assentimento nocional ou real. Isto é, posso apreender uma noção e aceitá-la, sem que isso tenha significação real para mim; posso dizer que o calor dilata os corpos porque assim o aprendi, sem no entanto já o ter tido como experiência direta.

Importa, no entanto, perceber que esta distinção pode estar sujeita a variações. Aquilo que é nocional para uma pessoa pode ser real para outra, e expressar-se com a mesma linguagem. Quando a criança e a sua mãe concordam que o açúcar é doce, podem estar em planos de assentimento diferentes. Enquanto a mãe explica que a doçura, adjetivo, se aplica ao açúcar em geral, ao substantivo comum, a criança pode estar a dizer que aquele açúcar em particular, que está a comer, tem aquele sabor a que chamou doçura.

Também igualmente importante é perceber que pode haver várias formas de assentimento real. O açúcar é doce pode ser assentimento real se implicar uma experiência, podemos ter como assentimento real que “é verdade que o açúcar é doce”, e ainda “aquilo que a minha mãe disse – que o açúcar é doce – é verdade”. Embora seja estruturalmente a mais complexa e a mais mediada, a verdade é que esta é a forma do assentimento que se nos afigura mais viva. Como o próprio Newman explica, ninguém morre para afirmar que o açúcar é doce, mas vários são capazes de morrer para afirmar que a mãe diz a verdade.

Ou seja, há logo aqui uma diferença abissal em relação à escola de pensamento Moderna que é de importância capital. Contrariamente à mentalidade experimentalista, é na asserção mais mediata que Newman vê maior poder, precisamente porque apresenta um grau de realidade e relação com o sujeito que a experiência intelectual em geral não costuma apresentar. Que o assentimento real é o mais próprio à condição do Homem, até os experimentalistas aceitam – afinal, a aceitação daquilo que se vive como experiência própria como pedra de toque do conhecimento é a própria doutrina que advogam. Newman, no entanto, vai mais longe nesta possibilidade: há, de facto, experiências mais vivas que podem alterar o sentido de um assentimento real.

Newman, como todos os homens sensatos, também explica que a melhor forma de conhecimento é o assentimento real – isto é, o assentimento daquilo que provámos. Explica que o assentimento real trata de casos singulares, contra os comuns do nocional, que o conhecimento nocional pode dar capacidade a um linguista para traduzir um tratado de economia, mas só o real é que permite perceber ao economista o que está realmente em causa.

Acontece, no entanto, que o assentimento nocional, além de muitas vezes definir aquilo que acontece no próprio assentimento real confusamente, pode também passar a real. Newman dá o exemplo da escravatura, condenada em geral desde sempre, mas só ao fim de vários séculos transformada em real.

Ora, isto mostra-nos, em primeiro lugar, que estas categorias não são estáticas, mas também que o assentimento nocional tem mais dificuldade em ter implicações vitais.

Newman, numa passagem interessante, explica que este é o maior paradoxo do assentimento: é que, à medida que vai ganhando com a experiência e tornando-se cada vez mais nocional, o assentimento vai-se também afastando do assentimento e tornando cada vez mais esfera da inferência e vice-versa: a inferência enfraquece o real e o assentimento o nocional.

Ora, tudo isto é importante porque o verdadeiro fito de Newman é tratar da religião que, segundo ele, ao contrário da teologia, faz parte da esfera do assentimento real, por contraposição à teologia, que faz parte do assentimento nocional.

A constante luta de Newman contra a religião relativista é expressa cabalmente nesta relação entre religião e teologia com o próprio dogma. Isto é, Newman procura explicar que, fazendo a religião parte da esfera do assentimento real, interessaria mais à sua prosperidade a experiência pessoal do que a dogmática. Alguém experiencia a Trindade? Que é o Deus Uno mais do que matéria teológica, nocional, distante da experiência real da religiosidade?

Embora Newman dê exemplos relacionados com a Trindade e a Unidade, interessa-nos mais a defesa da necessidade da dogmática para a experiência real. Explica o cardeal que não só o conhecimento nocional dos dogmas torna claro aquilo em que a religião (real) assenta, como, mesmo nocionalmente, a dogmática nega assentimentos reais. Acreditar na Divindade de Jesus implica rejeitar uma série de experiências reais de Jesus como um bonzinho, como um simples profeta judaico histórico, ou como um chefe político; acreditar na comunhão dos santos implica rejeitar as mais trágicas visões apocalípticas de impossibilidade de redenção. E sobretudo, a partir da experiência de assentimento real mediato explicado em primeiro lugar, Newman mostra a centralidade da própria Igreja. É possível tomar um dogma como assentimento real no sentido em que se percebe a Igreja, num sentido real, como fiável. Na divisão que Newman faz entre os tipos de assentimento – alegação, crédito, opinião, presunção e especulação – a aceitação de um dogma faria parte quer do crédito, quer da presunção, confiando à Igreja a especulação. Isto é, reconhecendo o Homem a verdade dos princípios da Igreja, e tendo deles um conhecimento real, experimentado, tem reconhecimento da sua autoridade nos princípios que estão fora do seu alcance.

Na linha de uma longa tradição, Newman explica que se acredita nos dogmas por se acreditar na Igreja e não na Igreja por se acreditar nos dogmas. Isto é, para o conhecimento de Deus, o que é verdadeiramente fundamental é conhecer a Igreja. É aí que o rosto de Cristo está verdadeiramente revelado.