A editora Ostinato regressa a Cabo Verde para abordar o funaná “frenético” e cru dos anos 1990, numa compilação que fala de liberdade, das primeiras eleições democráticas e de viagens a São Tomé para se comprar um acordeão.

Vik Sohonie, antigo jornalista e responsável pela Ostinato Records, conhecia a música cabo-verdiana a partir da sua maior embaixadora, Cesária Évora, mas cedo percebeu que há mais para lá das mornas e a descoberta levou-o à edição de dois álbuns, um em torno da música dos anos 1970 e 80 feita na diáspora e outro sobre os Pilon, grupo criado no Luxemburgo nos anos 1990.

Ganha agora forma o terceiro capítulo da viagem da Ostinato por Cabo Verde, com a compilação “Pour Me a Grog”, centrada no funaná que se fazia no final dos anos 1990 no arquipélago, onde aparecem nomes como Ferro Gaita, Orlando Pantera, Chando Graciosa ou Fefé di Calbicera.

A ideia da Ostinato é usar a música para contar histórias e as histórias têm muitos capítulos. Se ouvirem os três álbuns de uma ponta à outra dá para ter uma boa perspetiva e compreensão da música cabo-verdiana entre os anos 1980 e início dos 2000. Não é justo para os países simplesmente contar um capítulo da história”, contou à agência Lusa Vik Sohonie.

Para contar a história do seu mais recente capítulo em torno de Cabo Verde, o responsável da editora sediada em Nova Iorque teve que recuar até aos anos 1950 e falar de como alguns jovens do interior da ilha de Santiago se deslocavam até São Tomé “não para ter uma melhor vida ou mandar dinheiro para casa, mas simplesmente para trabalhar para comprar um acordeão [gaita, em Cabo Verde]”, explica a editora na nota de lançamento do álbum já disponível na plataforma Bandcamp e distribuído a partir do dia 25 para os restantes locais físicos e digitais. Após regressarem a casa, estes jovens criaram uma espécie de elite de tocadores de gaita autodidatas. Mal visto quer pelo Estado português quer pela Igreja, o funaná continuou a ser um género “isolado” e pouco difundido, explica a editora.

Se nos anos 1980, o funaná que surgia através de nomes como Bulimundo substituía a gaita pelos sintetizadores – “as melodias tocadas nos sintetizadores eram efetivamente uma versão digital das notas dos acordeões”, explica Vik Sohonie -, nos anos 1990 o som regressou às suas origens e, para isso, as primeiras eleições democráticas no país, em 1991, também desempenhar um papel, sustenta o editor.

No sufrágio, o funaná cru e “frenético” que se tocava há décadas no interior de Santiago passou a ser a banda sonora dos comícios políticos e dos muitos festivais de música que passaram a ter presença no país, a que se juntou “um sentimento forte, especialmente no final dos anos 1990, de que deveria haver um regresso às raízes”, aclarou o responsável da Ostinato Records.

Muitos artistas estavam fartos do som do sintetizador e sentiam que era necessário celebrar a música na sua forma mais crua. Os ritmos são, na sua maioria, os mesmos, mas a gaita e o ferrinho destacam-se”, vinca.

Num país em que a maioria dos grandes mestres da gaita não tinha tido oportunidade de gravar num estúdio, surge um segundo momento fundamental para deixar registado o som desses músicos, sublinha Vik Sohonie, apontando para o ano de 1997, quando o grupo Ferro Gaita lança o seu primeiro álbum, vendendo 40 mil cópias num país com 400 mil habitantes. Com esse sucesso, produtores da diáspora voltaram às pequenas aldeias do interior de Santiago para gravar mestres da gaita pela primeira vez. Alguns gravaram um único álbum “para imortalizar o seu som”, outros entraram no estúdio “para deixar uma prenda para os seus filhos”, contou o editor americano, realçando que contou com a “preciosa” ajuda do colecionador norueguês Olav Aalberg para conseguir fazer a compilação, face às edições de muito pequena escala que saíram na altura.

Para Vik Sohonie, o som “frenético” e cru, de ritmo pesado e rápido, que se consegue ouvir nas oito músicas presentes na compilação é a “banda sonora feita por um grupo de pessoas que descende de gente que constantemente lutou contra o poder colonial e contra a opressão, a partir de uma vida isolada no norte da ilha de Santiago”. “É a música de combatentes”, acrescentou. Apesar de já contar com três capítulos em torno da música de Cabo Verde, Vik Sohonie ainda tem “muitos planos” para aquele arquipélago, nomeadamente levar bandas para dentro do estúdio e gravar nova música, disse.