Organização precursora de cuidados e instituições de saúde no Porto até à década de 1950, a  (LPPS), a comemorar 95 anos, tem hoje a sua atividade restrita à ação social, disse a presidente.

Fundada por alunos de medicina numa altura em que na faculdade se começara a lecionar a disciplina de Medicina Social, a LPPS, relatou Edite Silva em entrevista à Lusa, cedo começou a mostrar “estar à frente do seu tempo”, um facto histórico depois descrito pelo colega de direção, António Santos.

“Uma das campanhas que acompanhou o início da atividade foi o combate à sífilis, e outras doenças venéreas, nas então denominadas trabalhadoras do sexo”, relatou o responsável sobre um tempo em que, devido aos “índices de higiene muito baixos, doenças contagiosas e epidemias assolavam a cidade”.

Desde sempre sediados na Rua Santa Catarina por cima do Café Majestic, um dos ícones do Porto e que abriu três anos mais cedo, a LPPS desenvolveu “instrumentos de comunicação, como fotografias ou cartazes, que usavam imagens fortes como forma de combater o analfabetismo da população e assim passar a mensagem”, acrescentou.

Constituída por “homens não apenas formados, mas também viajados”, o que lhes permitiu “aplicar no Porto realidades conhecidas noutras paragens”, os contactos permanentes com a Câmara do Porto e o Governo Civil do Porto, a quem “alertavam para os problemas numa primeira rede de intervenção, que incluía os hospitais Santo António e Conde Ferreira, este para as doenças mentais, e a Santa Casa da Misericórdia do Porto”, revelaram-se “fundamentais”, frisou.

“Da ação dos fundadores da Liga foram dados os passos que levaram ao surgimento de sanatórios, Maternidade de Júlio Dinis e da rede de dispensários por toda a cidade numa altura em que a tuberculose era um grande foco de preocupação”, relatou António Santos.

E de uma instituição que “foi, durante anos, a primeira e única a dar esta resposta social no país”, disse o vogal da direção que em meados da década de 1950 a Liga “reformulou a sua ação e missão devido à capacitação no campo da saúde que começava a manifestar-se na cidade e à sua volta”.

A LPPS desenvolve hoje uma “atividade exclusivamente de cariz social, presta apoio domiciliário a 35 pessoas (com idades entre os 60 e 95 anos) ao mesmo tempo que investe na educação para a saúde e, sempre que há fundos, em formações escolares até ao 9.º ano”, explicou a presidente.

Nesse âmbito, desenvolveram parcerias, em tempos diferentes, com as câmaras do Porto e de Matosinhos, depois de em 2016 terem “tido um financiamento aprovado a nível internacional” para um apoio que durou até meados de 2017 para tratar de questões relacionadas com a “vulnerabilidade social”, como explicou Joana Pereira, também dirigente daquela Organização Não Governamental.

Por força da nova realidade, os desafios da Liga “passam por tornar-se mais sustentável financeira e demograficamente, conseguindo atrair mais pessoas para ajudar no projeto”, disse Edite Silva. Argumentando ser Portugal um país “educacional e culturalmente onde ainda não foram alcançamos padrões que façam ter comportamentos profiláticos e preventivos”, António Santos lamentou que o “país invista pouco em prevenção”.

Entre a bibliografia produzida dentro e fora do âmbito das conferências ao logo dos anos pela LPPS estão livros que alertam para questões sociais e de saúde pública. “O pé descalço, uma vergonha social que urge extinguir” (1956), “Perigos sociais do alcoolismo” (1960), “Escarrar e cuspir” (1944), “Como educar e adaptar a vida dos pequeninos” (1963) e “Profilaxia do cancro” (1966) são alguns dos livros publicados pela Liga que compõem hoje o acervo daquela ONG.