Não há final sem uma celebração à altura e o último dia da 53ª edição da ModaLisboa não foi exceção. No domingo, novos criadores e nomes já consolidados da moda portuguesa partilharam as atenções. Todos tiveram o seu espaço na passerelle que, pela primeira vez, foi montada nas antigas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército — os novos e os veteranos, os conceitos superiores e o pronto-a-vestir de assimilação imediata, o minimal e o barroco.

O desfile

Pode dizer-se que Carolina Machado está a meio caminho entre estes dois últimos extremos. À jovem designer coube a honra de apresentar a coleção do próximo verão com o Panteão Nacional como pano de fundo. Quer no cenário do desfile, quer na base da própria coleção, encontrámos arquitetura. Depois de uma férias na Costa Amalfitana, deu por ela encantada pela paisagem urbana, mas também pelo estilo de vida boémio e veraneante quer quis imprimir em “Dolce Vita”. “Há looks que são da miúda que vai à praia e que depois segue diretamente para uma festa”, explica ao Observador.

Carolina Machado © Melissa Vieira/Observador

Carolina pode ter uma longa carreira, mas já começam a definir-se aqueles que são os seus elementos de assinatura — o volume dos ombros, os recortes das palas dos bolsos. Diferentes tons de laranja, o verde lima e o lilás aqueceram, ao mesmo tempo que a seleção de peças — do top bandeau ao fato fluido e relaxado — evidenciou a versatilidade deste guarda-roupa prático e funcional. “Tem sido um processo lento, mas diria que a marca está a crescer”, acrescenta a criadora, enquanto recorda que a produção está entregue a um grupo de quatro costureiras. A escala é, portanto, pequena e local. O gráfico de vendas, alimentado sobretudo pela loja online, denuncia, segundo explica, uma inclinação para o norte da Europa, com destaque para a Suécia e para a Noruega.

Construir uma marca de moda de autor e vê-la ganhar dimensão é, muitas vezes, um processo trabalhoso e demorado, logo, de investimento e, inevitavelmente, de paciência. Ainda assim, Ana Duarte, outro nome que conquistou lugar na plataforma LAB, não se pode queixar. “Tem havido uma evolução gigante. Estamos a duplicar as vendas a cada ano que passa. No ano passado, o facto de Sara Sampaio ter usado aquela peça impulsionou bastante os resultados, mas este ano já superámos o valor que tínhamos. As pessoas estão mais atentas à marca, respeitam o facto de ser design de autor e estão mais dispostas a investir”, explica ao Observador, depois de, também ela, sob o nome Duarte, ter desfilado no passado domingo.

Duarte © Melissa Vieira/Observador

Saber interpretar a procura e trazer isso para a dinâmica comercial do seu próprio trabalho é uma capacidade que Ana tem desenvolvido nas últimas estações. “Atacama”, título da coleção do próximo verão, é a prova disso. Os beges foram o rosto da coleção, resultado de uma inspiradora viagem ao deserto chileno mas também de uma tendência entre a clientela. A pele natural foi usada para construir blusões com bolsos e encaixes. Ao mesmo tempo, a robustez das peças foi contrabalançada pela serenidade da paleta, que incluiu ainda verde e cor-de-rosa. Ana regressou ainda às suas macro malhas. Afinal, foram as favoritas de Sara Sampaio e, para todos os efeitos, à noite, faz muito frio no deserto.

Constança Entrudo foi a terceira mulher a tomar conta da tarde de domingo, em Santa Clara. Na terceira coleção que apresentou na passerelle da ModaLisboa, o primeiro prenúncio de que uma explosão de cor estava a caminho foi a entrada dramática do rapper e ativista Mykki Blanco. Constança mantém-se ligada às suas tecelagens, técnica que lhe valeu uma identidade inconfundível no panorama da moda portuguesa. Em calças, usou-as para conseguir opacidade, em vestidos, abriu-as e tornou-as numa matéria leve e transparente, como aliás convém ao vestuário estival.

A festa

Ao fim da tarde, a sala LAB já tinha ficado para trás. Gonçalo Peixoto, o menino prodígio da moda portuguesa, exigiu que as atenções se dirigissem para a sala de desfiles principal. Com mais público e com o triplo da passerelle, a ascensão do jovem criador, de apenas 22 anos, continua a ser tão meteórica quanto aparatosa. “Quando andava na escola, diziam-me que as coleções tinham de seguir uma regra. Que, se há uma saia, convém que toda a coleção tenha sempre a mesma linha de saias. Mas não, vamos fazer uma minissaia, uma saia pelo joelho, uma larga e uma justa. Porque uma cliente não tem um único mood durante seis meses”, admite Gonçalo, minutos após o final do seu desfile.

Muito do trabalho do jovem designer parte de um impulso inadiável. A escolha do primeiro tecido da coleção — no caso, um tigresse cor-de-rosa e amarelo que acabou por despertar a atenção para o mote safari –, o excesso do styling a sobrecarregar peças já por si excessivas, a peça que idealizou no sábado e que chegou, pelas mãos de uma costureira, uma hora antes do desfile, o desejo de vestir tudo tão imediatamente que o fez colocar à venda dez peças da coleção no próprio dia do desfile. O chamado see now buy now é, no fundo, um ingrediente óbvio numa fórmula de sucesso — na passerelle, Gonçalo Peixoto exibe uma fantasia de consumo imediato.

Gonçalo Peixoto © Melissa Vieira/Observador

Por outro lado, o criador explora, como nenhum outro, as fronteiras entre o cool e o piroso. Aliás, faz mais do que isso. Pisa-as a toda a hora, sem remorsos e com elevado nível de satisfação. Plumas, lantejoulas, estampados florais, slip dresses sem costas, tigresse, crop tops, saias franzidas, xadrez, transparências, blazers e uma overdose de cor-de-rosa — das duas uma, ou um cérebro explode ou se chega a uma harmonia perfeita no meio de um caos kitsch.

“Esta coleção é calor, é muita pele à mostra. Sim, roça o foleiro. Mas é isso que eu quero, sair de uma zona de conforto, trazer materiais e pô-los onde não devem estar. É todo um universo composto por tudo o que não é provável. Os materiais podem estar aí nessa fronteira, mas depois a silhueta vai mudar tudo. Se for um material muito nobre, vou para algo mais largo, mais descontraído”, explica. A equação está mais do que ensaiada e torna-se evidente peças como um vestido extra curto, sem costas e com franzidos laterais, construído na mais leve das sedas, ou como um hoodie de lantejoulas brancas surge na reta final do desfile debaixo de um vestido de alças do mesmo material. No fundo, Gonçalo Peixoto quis dar uma festa. Conseguiu.

A after party

Kolovrat abriu a passerelle aos veteranos. A primeira trouxe uma reflexão sobre futuro, renovação e reciclagem, estampou resíduos sobre seda, construiu blazers drapeados e encantou a sala com padrões salpicados, outros com uma gradação de cores térreas. Longos e vaporosos, os vestidos subtraíram rigidez à coleção da criadora. O desfile que contou com alguns dos melhores clientes da designer, um reforço da mensagem e o reiterar de uma convicção — para Lidija Kolovrat, o futuro é local e assente na proximidade.

Kolovrat © Melissa Vieira/Observador

Num regresso ao calendário lisboeta, Carlos Gil foi o nome que se seguiu, num desfile promovido pelo Portugal Fashion. O criador mantém-se fiel à estética que o trouxe até aqui — cores vibrantes, silhuetas longilíneas, um ou outro elemento extravagante e um toque desportivo. O próximo verão será muito diferente. As borboletas sugiram como um dos motivos centrais, quase sempre trabalhadas em lantejoulas. As aberturas nas mangas foram outro dos detalhes que marcaram a coleção.

Luís Carvalho encerrou a edição número 53 da ModaLisboa. Na máquina do tempo, recuou até aos anos 20 e, ainda assim, conseguiu resistir às inspirações e referências mais óbvias daquela que é a década mais louca do século passado. O criador já tinha passado por Paris, durante a semana da moda, porém o formato de apresentação estática possibilitou que apenas uma pequena parte da coleção fosse mostrada. E, para Luís, nada como um bom desfile triunfante. Duas mulheres (ou duas faces da mesma mulher) estiveram em pé de igualdade — a das plumas e lantejoulas e a das peças de alfaiataria e da risca de giz. A euforia e a emancipação de há quase 100 anos foi temperada com a arte.

Ana Moura a atuar no desfile de Luís Carvalho © Melissa Vieira/Observador

A art déco pairou sempre, das referências mais óbvias às grandes subtilezas que põem à prova qualquer criador de moda — as riscas, os elementos gráficos em forma de leque, tão característicos daquele período, o cruzar das alças de um vestido, o recorte invulgar da lapela de um blazer. O homem manteve-se um mostruário de cortes exímios. Nas peças mais tradicionais, houve upgrades na modelagem. A fluidez dos materiais continua a ser uma imagem de marca do guarda-roupa masculino.

A expressão “fechar com chave de ouro” foi levada à letra pelo designer do norte. Ana Moura encerrou o desfile. A fadista interpretou ao vivo um novo tema, fruto da colaboração com Branko. Luís Carvalho apareceu no final e encontrou uma sala de pé. Moda e música agradeceram os aplausos. A próxima edição da ModaLisboa acontece em março de 2020e tudo indica que voltará a realizar-se nas antigas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército. Até lá, veja as imagens que marcaram este último dia, na fotogaleria.