A Polícia Judiciária (PJ) acusa a Polícia Judiciária Militar (PJM) de ser a responsável pelas “sucessivas fugas” de informação no caso do assalto a Tancos para os jornais que causaram “descrédito na investigação” e “minaram todas as diligências” realizadas por este órgão policial.  Estas conclusões constam no relatório da PJ no âmbito deste processo, citado pelo Diário de Notícias.

Num documento datado de 14 de setembro deste ano, cerca de uma semana antes de ser proferida a acusação, a PJ reuniu dezenas de notícias publicadas — a partir das quais estabeleceu uma relação com as informações partilhadas com a PJM, numa fase inicial do inquérito. Os investigadores consideram que muitas das notícias “demonstram o conhecimento de pormenores da investigação”.

O primeiro exemplo refere-se uma notícia intitulada “Telemóveis e câmaras ajudam a polícia”, publicada um dia depois de uma reunião em que a PJM foi informada de que a PJ tinha pedido informações sobre os metadados dos telemóveis e dados sobre o tráfego rodoviário.

“Este é somente um exemplo, a par dos inúmeros comentadores e entendidos que todos os dias enchem a televisão e os jornais, que de forma irresponsável, pensando apenas no protagonismo pessoal, dissertam sobre elementos a coberto do segredo de justiça, totalmente imunes a qualquer procedimento criminal”, lê-se no relatório da PJ.

Esta análise permitiu à PJ apontar a PJM com responsável pelas “sucessivas fugas” que tiveram um efeito “irremediável” e traduziram-se numa “constante alteração de procedimentos e estratégias de investigação”. Mais: as fugas de informação “possibilitaram aos suspeitos ter acesso às linhas de trabalho da investigação, bem como às diligências que iam sendo realizadas”, levando-os mesmo a “destruir eventuais elementos de prova que ainda se encontrem na sua posse”.

No relatório final da investigação, a PJ considera ser “essencial” para o inquérito “compreender os problemas levantados pela PJM e as quebras sistemáticas do segredo de justiça”.

A 26 de setembro, o Ministério Público acusou 23 pessoas de terrorismo, associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, abuso de poder, recetação e detenção de arma proibida. Nove são acusados de planear e executar o furto. Os restantes 14, entre eles o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, da encenação que esteve na base da recuperação do equipamento em outubro do mesmo ano.