O discurso anual da líder de Hong Kong, Carrie Lam, na assembleia regional, foi interrompido duas vezes por protestos de vários deputados e teve mesmo de ser cancelado, acabando por ser transmitido via vídeo mais tarde. É a primeira vez que um líder executivo em Hong Kong é interrompido na câmara e impedido de discursar, de acordo com a BBC. E o caos na assembleia fez com que a revogação da famosa lei da extradição, que deu início aos protestos que abalam a região desde junho, não pudesse ser efetivada.

Carrie Lam começou a discursar no Conselho Legislativo por volta das 11h da manhã (hora local, 4h em Lisboa) desta quarta-feira, mas rapidamente foi interrompida pelos gritos de vários deputados, que diziam “cinco exigências, nem uma a menos”. A frase refere-se às cinco exigências feitas pelos manifestantes durante esta vaga de protestos: eliminação da lei da extradição, inquérito independente à ação policial nas manifestações, demissão de Carrie Lam, libertação de ativistas detidos e mais liberdades democráticas.

Os deputados do partido pró-democracia Partido Cívico traziam t-shirts pretas (a mesma cor usada pelos manifestantes) com essa mesma frase, como revela o jornal local South China Morning Post (SCMP). Dois deputados, Eddie Chu e Au Nok-hin, traziam consigo fotografias do Presidente chinês Xi Jinping, que usaram para tapar a cara — numa referência à “lei anti-máscara”, aprovada este mês, que proíbe os manifestantes de terem a cara coberta durante os protestos. No meio da confusão, seis deputados acabaram por ser expulsos da câmara.

A desordem, no entanto, continuou e Lam teve mesmo de cancelar a sua intervenção, depois de ser interrompida pela segunda vez. A deputada Tanya Chan, do Partido Cívico, acusou Lam de ter “sangue nas mãos” e disse-lhe que não tinha direito a dirigir-se à assembleia: “Ela acabou por incitar muita gente a protestar [com as suas ações]. E agora quer vir aqui falar de políticas e de governar Hong Kong?”, questionou.

Na sequência da saída de Carrie Lam do Conselho Legislativo, o Governo emitiu de seguida um comunicado para explicar que o discurso iria ser transmitido via vídeo. “Devido às circunstâncias atuais, a chefe do Executivo não pôde fazer o seu discurso na íntegra”, pode ler-se no comunicado. “Para que toda a gente possa conhecer as várias iniciativas que dele constam, na íntegra, ela irá fazer o discurso através de um vídeo.”

No vídeo, Carrie Lam anunciou uma série de medidas, em particular para a habitação. Mas também se referiu ao elefante na sala, falando sobre as manifestações: de acordo com o SCMP, a líder de Hong Kong sublinhou que a violência pode destruir a região, pediu um regresso à normalidade e assegurou que se irá manter firme ao princípio de “um país, dois sistemas”, defendido pelo Governo chinês para Hong Kong. Tal não impediu o maior partido pró-Pequim de criticar o discurso de Lam: “Para além de pedir às pessoas para serem pacíficas e racionais, devia ter proposto medidas substanciais para que as pessoas tenham confiança de que a ordem social será restaurada”, afirmou a presidente da Aliança Democrática para o Melhoramento e o Progresso de Hong Kong, Starry Lee Wai-king.

As cenas de caos na assembleia regional de Hong Kong aconteceram no mesmo dia em que o Congresso norte-americano aprovou vários projetos de lei que apoiam os manifestantes na região.