Primeiro, claro, o mestre de cerimónias:

“Senhoras e senhores e tudo o que anda lá pelo meio, prontos para rir? O vosso trabalho é só um: rir. Quem me dera que o meu trabalho fosse tão simples”.

Ora como se pode perceber estamos perante um animador de público daqueles que costumamos odiar, que se acha o mais engraçado, mas que é profundamente decadente, que podia apresentar montras finais em grande estilo, mas que, ao invés disso, apresenta três ecrãs que se acendem conforme aquilo que se exigir: rir/emoção /aplaudir.

Depois, claro, a apresentação de personagens. Pedro é um estudante de doutoramento em Filosofia, Lúcia é “a nossa lésbica preferida”, José é um amigo de belo humor “que ainda não saiu do armário” e Maria é a vizinha, a mulher que entra na casa pelos sítios mais estranhos e que tem uma propensão especial para azeite de trufa. Depois ainda, claro, o genérico. E assim está apresentada a sitcom, numa casa-estúdio com direito a sofá para três pessoas e kitchenette. “Mon€y” é o mais recente espectáculo da mala voadora – companhia portuense que já em Maio havia levado “Dinh€iro” à Culturgest – e conta com encenação de Jorge Andrade e interpretação do próprio, de Manuel Moreira, Marco Mendonça, Maria Jorge e Tânia Alves. Estreia esta quinta-feira, 17 de outubro, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Sim, tanto se fez “Dinh€iro” como agora se faz “Mon€y”. E se neste último caso estamos perante um texto da artista britânica de origem canadiana Deborah Pearson – co-fundadora do coletivo artístico Forest Fringe – antes era a perspetiva de Jorge Andrade que reinava. E se aqui se faz uma sitcom original, em “Dinh€iro” partia-se da série-fenómeno norte-americana dos anos 80. Mas afinal, porque raio as séries ilustram, tão bem ou tão mal, esta problemática? “Pois, ou se calhar tão mal. Nós tivemos, enquanto projeto, a ideia de fazer dois espectáculos sobre dinheiro e a proposta era como é que dois criadores entendiam o tema. Uma das perspetivas seria a minha – em conjunto, obviamente, com os outros artistas que fazem parte do projeto – e para a outra desafiámos a Deborah Pearson a pensar sobre o dinheiro, que era algo que ela detestava. Disse-nos que não tinha afinidade nenhuma e porque é que eu a tinha convidado para fazer uma coisa assim”, explica Jorge Andrade, diretor artístico da companhia.

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A relação de Deborah Pearson com a mala voadora já vem de antes. Vem à boleia do mini-festival que a companhia portuense realiza todos os anos no seu espaço chamado Família Inglesa, pode onde já passaram estruturas e artistas que mantém enorme ligação com a mala, como os Third Angel ou os Forced Entertainment. E, em 2017, Pearson esteve na Culturgest a apresentar “History History History”, espectáculo que mostrou depois na Família Inglesa, onde aproveitou para conhecer o quartel-general da mala voadora.

Agora que a amizade está explicada, enveredemos então pelas notas, pelo guito, pelo pilim. Se, em relação a “Dallas” – e por consequência a “Dinh€iro” – Jorge Andrade admite que se serviu da família Ewing “pela inocência com que via aquilo na altura” e mais pelo fascínio “das roupas, dos carros e nem tanto pela falta de escrúpulos ou como é que ali estava o tema do dinheiro”, se apontarmos a bússola para “Mon€y”, a ideia de Deborah Pearson foi outra:

“A proposta da Deborah surge na lógica de como é que se vê sitcoms onde o tema do dinheiro está completamente ausente. A série ‘Friends’, que de alguma forma foi inspiradora para a criação desta sitcom, por exemplo, lembro-me de existirem algumas críticas de como é que aquelas pessoas que tinham trabalhos não tão bem sucedidos tinham dinheiro para viver naqueles apartamentos tão bons. Aquilo era profundamente inverossímil, mas estas questões não se colocam nas sitcoms, elas não existem para estar a lançar problemas financeiros, servem antes para as pessoas estarem ali a relaxar depois de um dia de trabalho”, conta.

Podia ser então, um Pacquiao vs. Mayweather, um combate de boxe com golpes simbólicos, entre dois criadores que, não querendo assim tanto falar de dinheiro, também sentem que não o podem ignorar. “O animador de público, que é a personagem que eu faço, faz algum contraponto com a autora, isto não significa que eu me coloque ali enquanto Jorge e a Deborah enquanto autora, até porque ela se coloca como uma autora que vive em L.A. e é muito rica, algo que não podia estar mais longe da realidade, porque ela vive num apartamento minúsculo em Londres. Aquele animador só quer entretenimento, ele não quer problemas sociais, e o que se coloca em perspetiva parece-me que é: se isto que nós fazemos, arte, teatro, serve para estarmos ali a tratar politicamente dos assuntos ou não? Serve para nos substituirmos aos políticos numa época em que todos os dias aparece um novo problema social e económico? Nós que até agora estávamos tão orgulhosamente sem representação de extrema-direita no nosso Parlamento já não temos esse orgulho. E parece que nós, enquanto artistas, temos que tomar uma atitude em relação a isso, é precisamente disso que trata este espectáculo”, avisa.

Mas não será isso inevitável? Talvez, pelo menos assim sugere Jorge Andrade, que assina por baixo a nossa afirmação que diz que os últimos espectáculos da mala voadora são profundamente políticos, de Moçambique a Fausto. Só que: “Muitas vezes acho que o meu discurso não acompanha o meu trabalho. Não sei se é um problema, mas, de facto, foi uma das coisas que fui falando com a Deborah. E acho que é essa dúvida que marca muito este espectáculo, muito bem feito pela Deborah, claro”, tenta clarificar Jorge Andrade.

Portanto, só a ver se a gente percebeu bem: é importante que se pense politicamente, mas quanto à obrigatoriedade de ter uma posição artística, em palco, não sabemos se sim ou se não? É isto? É:

“Parece-me que pode ser a criação de um outro mundo em palco, um outro mundo criado pela arte, e particularmente também neste espectáculo, mais do que ‘epá, nós temos a solução política’ e temos que carregar este fardo social porque as coisas estão demasiado no limite para podermos só brincar a ser artistas, e se calhar acho que é nessa brincadeira que podemos ter mais alguma coisa a dizer, de original. Não sou político, nem sociólogo, portanto a brincadeira como rutura mais do que estarmos aqui a dizer ‘não, o dinheiro é uma ficção, nós é que aceitamos jogar este jogo e não pode ser’”, argumenta o encenador.

A brincadeira como arma anti-sistema, anti-dinheiro. Entendido? Perfeitamente. E a prova de que a mala voadora não se leva demasiado a sério – já agora, nem Deborah Pearson, que se coloca, em vídeo, no espectáculo, como uma autora ilustre rica a viver em Los Angeles – é a narrativa tão absurda e a roçar o patético que encontramos na sitcom dentro de “Mon€y”.

Ainda se lembra das personagens, estimado leitor? Pois bem, Pedro, o filósofo, é, obviamente gozado pelos amigos por “achar o mundo desconcertante”, é daqueles eternamente incompreendidos por um bando de amigos insensíveis, rápidos e com pouco tempo para ler. Só que às tantas o telefone toca, é uma chamada dos EUA, e Pedro, porque não se ajeita com inglês, passa o telefone a José. Do outro lado da linha era do departamento de filosofia da Universidade do Iowa, algo que faz Pedro excitar-se perante a possibilidade da viagem transatlântica e fá-lo, mais ainda, dizer que, extasiado, “o último estudante de filosofia que teve um trabalho estável foi Platão e mesmo esse era estagiário do Sócrates”.

Há ainda Lúcia, que não entende como é que as suas paixões passageiras, as suas curtes, não percebem que ela está a acabar com tudo com as mesmas. Já enviou uma data de emojis e ela nada. Às tantas, coloca o telefone no bolso de trás das calças e o seu rabo faz o trabalho por si: escolhe um emoji que transmite a mensagem correta. E aí o seu rabo passa a decidir tudo, essa arbitrariedade incrível que Jorge Andrade define como algo tão em voga na sociedade atual. “É o chamado outsourcing. Aquela rapariga enviou uma mensagem por engano para acabar com a namorada e então vamos lá explorar isso, é o que acontece hoje com os outsourcings, não é? Eles estão-se a cagar, já me aconteceu apresentar uma queixa e dizerem-me ‘ah, não, mas tem que remeter para a outra empresa, a nossa empresa é contratada para prestar um serviço’. Ora isto basicamente é um cu que está lá, que se está a cagar, tu não queres lidar com os empregados e contratas uma empresa para fazer isso por ti. O que tens no espectáculo é a gestão dessa ideia, e aquilo é mesmo levado ao ridículo: está-se tudo a cagar e só um cu é que se caga”, enquadra.

Mais ainda a tempestade que depois se segue e vai destruindo a ordem instaurada. Mais o vídeo da autora onde explica ao que veio, isto é, onde explica que, por ter visto um documentário sobre pós-capitalismo na Netflix, sentiu que tinha que escrever este texto. Mais a Maria, a vizinha, cujo vício em azeite de trufas se pode comparar à exploração de petróleo – assim que o azeite é deitado pelo cano abaixo logo surge o arrependimento. Afinal de contas, como se pode ler, esta sitcom não é como as outras:

“Acho que foi uma luta, ou seja, fazer uma sitcom, mas fazê-la com substância. Este gajo de filosofia é ridicularizado pelos amigos porque é o único que problematiza minimamente as coisas e para os outros é tudo muito linear. A vizinha agarrada ao azeite de trufas, que se foda a linguagem, os emojis, e portanto, este estudante de filosofia significaria a rutura, mas a rutura dele é absorvida ou poderia ser absorvida pelos Estados Unidos”, conclui Jorge Andrade.

Ou seja, onze contra onze e no final ganha a América. Percebe-se.