Não pode dizer-se que o voto do Partido Trabalhista contra o acordo alcançado por Boris Johnson é, propriamente, inesperado — dificilmente Jeremy Corbyn alinharia numa aprovação que desse ao primeiro-ministro britânico a vitória em que quase ninguém acreditava. E também era mais ou menos expectável que o Partido Liberal Democrata mantivesse a sua oposição, qualquer que fosse a proposta, tal como os escoceses do SNP, que, desde o início, insistem que a Escócia votou contra o Brexit.

Todos estes ‘nãos’ anunciados para a votação de sábado já significariam que, até lá, Boris Johnson teria de ter uma enorme capacidade negocial nos bastidores do parlamento, para convencer os deputados que lhe restavam. Ao final da manhã desta quinta-feira, com a confirmação do voto contra dos dez deputados do DUP, as contas complicaram-se ainda mais.

A aritmética é, até, bastante simples: para fazer passar o seu acordo na Câmara dos Comuns, Johnson precisa de 320 votos a favor. Neste momento, porém, conta apenas com 259 votos certos de deputados do Partido Conservador, de acordo com as contas da Bloomberg e do The Guardian. Faltam-lhe, portanto, 61 deputados do seu lado. Onde pode encontrá-los?

Os conservadores que o próprio Boris expulsou

O melhor será, talvez, começar pelos próprios conservadores. Boris Johnson conta apenas com 259, mas, há pouco mais de um mês, contaria com 280. Para onde foram os 21 que faltam? Para fora do partido, expulsos pelo próprio Boris Johnson por terem aprovado legislação que bloqueava a possibilidade de uma saída sem acordo, contra a vontade do Governo. Desses 21 ‘rebeldes’, como passaram a ser conhecidos, dois já mudaram definitivamente de partido — Philip Lee e Sam Gyimah transitaram para os Liberais-democratas, tornando difícil que possam, agora, apoiar Boris. Sobram, por isso, 19 votos que podem ser conquistados.

A tarefa, porém, não é fácil. Alguns estarão, de facto, à procura de uma forma de voltar para o Partido Conservador — sobretudo tendo em conta que a maioria era considerada “leal” e nunca antes de setembro tinha quebrado a disciplina de voto —, mas há ainda muitas dúvidas sobre a razoabilidade e, sobretudo, a fiabilidade das políticas de Johnson, o que pode fazer com que se mantenham à distância e recusem o apoio neste momento decisivo.

Caso consiga convencê-los a todos, o primeiro-ministro passa a contar com 278 votos a favor — ainda longe, mas mais perto dos 320.

Os conservadores eurocéticos mais radicais

No parlamento britânico há ainda outros conservadores cujo voto não está garantidamente com Boris Johnson — como nunca esteve para Theresa May. Vistos como os eurocéticos mais radicais, recusaram sempre as propostas apresentadas por May e insistiram num acordo que fosse o mais minimalista possível, sem grandes laços ou compromissos com a UE. Apesar de todos os votos contra, agora parecem estar disponíveis para apoiar Boris Johnson, sobretudo depois de o parlamento ter aprovado a lei que obriga o Governo a pedir um adiamento, caso não haja entendimento até este fim de semana.

Para isso, o primeiro-ministro terá de os convencer de que o acordo a que agora chegou é diferente daquele que a sua antecessora apresentou várias vezes. E isso também não é tarefa fácil — esta quinta-feira, o próprio negociador-chefe da UE, Michel Barnier, dizia que o texto final “não tem surpresas”, porque, em grande parte, já estava no acordo de Theresa May.

No total, são 28 deputados. O seu voto a favor não seria, ainda assim, suficiente para fazer passar o acordo, mas seria um empurrão significativo. Somando aos conservadores expulsos, Boris Johnson passaria a contar com 306.

Os trabalhistas que querem o Brexit

É aqui que Boris Johnson terá de se virar para a oposição, à procura daqueles deputados que, mesmo não concordando com ele, prefiram aprovar o seu acordo a ter uma nova extensão do prazo para o Brexit ou uma saída caótica sem acordo. Nas contas da Bloomberg, serão 21 os trabalhistas nessa situação. Se os conseguisse convencer a todos, o primeiro-ministro resolveria o problema. Mas isso parece difícil: Theresa May também acreditava que a solução passaria pelos que defendiam que o resultado do referendo tinha de ser cumprido, mas, quando chegou a hora de votar, só conseguiu convencer 5.

A esperança de Boris Johnson estará no facto de, além desses, outros 15 terem subscrito uma carta à União Europeia, este verão, apelando a um acordo, e de isso poder indicar a sua disponibilidade para aceitar o que agora está em cima da mesa.

Se assim for, e todos eles se juntarem, a marca dos 320 deputados necessários é ultrapassada, com 327 votos a favor.

Os deputados independentes — e os incertos

É claro que, para estas contas, é preciso admitir que todos os deputados dos três grupos anteriores vão tomar a mesma decisão e votar a favor — e o parlamento britânico já mostrou várias vezes que essa é uma certeza que ninguém pode ter. Porque sabe disso, Boris Johnson não poderá descartar qualquer apoio, a começar pelo dos deputados independentes que abandonaram os tories e o Labour.

A Bloomberg estima que possam ser, no máximo, 5 votos. E o problema é que, além de serem poucos, a sua tendência de voto é ainda mais incerta que a dos anteriores. Quatro votaram a favor do acordo de Theresa May, na última votação. O quinto poderá fazer o mesmo.

A estes juntam-se ainda dois votos que ninguém sabe para onde vão pender: um deputado do Lib Dem que tem criticado a posição do próprio partido contra o Brexit; e Jo Johnson, o irmão do primeiro-ministro, que chegou a fazer parte do Governo, mas acabou por demitir-se.

Ainda assim, todo este grupo representa apenas uma soma de sete votos — insuficiente se a maioria dos outros deputados possíveis não apoiar o acordo.