Depois do brinde, segue-se o primeiro gole de Periquita Tinto, que surpreende sempre. Muito frutado, sentem-se com facilidade os frutos vermelhos, mas também o leve sabor do cedro, da madeira de carvalho e até do café e da baunilha. Temos à nossa frente um vinho que revela com orgulho a sua história e que a sabe contar com mestria, como poucos. Numa visita à José Maria da Fonseca, a empresa secular e familiar responsável por esta marca, vamos conhecer todo o processo de produção: da uva ao vinho, aproveitando para ouvir a história da família pelo caminho. António Maria Soares Franco, Administrador e Vice-presidente da empresa, faz parte da sétima geração à frente dos destinos da marca, e será dele a “voz” desta visita guiada.

Família e vinho entrelaçados

José Maria da Fonseca tinha 30 anos quando chegou a Azeitão e se apaixonou pela região. Ao percorrer o terreno agora ocupado pela empresa que fundou, não é difícil perceber porquê, sobretudo em dias em que o sol ainda queima, mas já deixa um tom dourado sobre os bagos de uva que, em breve, irão ser vindimados.

Estava-se nas primeiras décadas do século XIX e já havia terrenos com vinha, pelo que decidiu montar também aqui um negócio de vinhos. Corria o ano de 1834 quando fundou a empresa com o seu nome. “Ele era muito jovem e inovador e nem vinha da área do vinho, pois estudou matemática. Talvez por isso tivesse a capacidade de olhar para o negócio de uma forma completamente diferente”, conta António Maria Soares Franco. “Por exemplo, na altura, a maior parte das vinhas eram trabalhadas à mão e ele começou a perceber que, se as alinhasse, podiam ser trabalhadas também por animais”. Além disso, como era matemático, calculou o sítio onde os pés deviam ser plantados e qual deveria ser o espaçamento entre eles para maximizar a exposição solar. “Foi uma verdadeira revolução na forma como se trabalhavam as vinhas”, garante.

José Maria da Fonseca soube igualmente contornar algumas consequências da crise pela qual passou o negócio, quando surgiu a filoxera – praga provocada pelo inseto com o mesmo nome e que afetou a produção de vinho em Portugal e na Europa. Nessa altura, de forma a fazer face aos prejuízos provocados por esta doença, havia quem recorresse à falsificação do vinho. Para garantir aos seus clientes espalhados pelo mundo, a qualidade do vinho que produzia, e também para promover a imagem de marca dos seus produtos, começou a propor-lhes que comprassem o seu vinho engarrafado. “Esta foi uma das estratégias mais importantes que seguiu na altura, pois já havia vinho do Porto engarrafado, mas os vinhos de mesa eram vendidos a granel, dentro de barricas de madeira. É neste momento que nasce o Periquita”.

Como os primeiros registos do vinho são de 1850, calcula-se que a vinha que lhe deu origem tenha sido plantada por volta de 1846.

Mas o fundador da casa não se limitou a engarrafar o vinho, que considerava ser “a forma civilizada de o apresentar ao cliente”. “Era muito atento a todos os detalhes, tinha uma preocupação com a estética e com a forma como apresentava o produto que ia vender. Andava sempre à procura das melhores matérias-primas: as garrafas vinham de Inglaterra, os rótulos eram feitos por um artesão francês e as rolhas eram obra de um especialista catalão em cortiça”. Nada era deixado ao acaso.

A origem do nome

As uvas que dão agora nome ao vinho são da casta Castelão e foram plantadas na propriedade de José Maria da Fonseca, a Cova da Periquita. “Começaram a produzir um vinho de uma qualidade excepcional, muito melhor do que os que eram produzidos na região. Por isso, os viticultores daqui começaram a pedir ao senhor José Maria da Fonseca que lhes cedesse algumas varas da Periquita. Foi aí que surgiu a confusão entre a variedade de uva e a marca. Este é um daqueles casos onde a marca tem tanto sucesso que se apropria do nome da casta”.

Periquita está na mesa dos portugueses pelo menos desde 1850, sendo a marca de vinho tinto engarrafado mais antiga do país. “Quando falamos dos valores da portugalidade e do orgulho em ser português, podemos dizer que Periquita é de facto um vinho e uma marca que pode falar portugalidade porque está à nossa mesa há 169 anos”.

O Periquita no mundo

“Este é um dos vinhos portugueses mais exportados e, portanto, dizemos também que é embaixador da cultura portuguesa. Vendemos para mais de 70 mercados, como a Suécia, os Estados Unidos, o Canadá e toda a Europa. Recentemente avançámos para o mercado da China, no Oriente”. O Brasil, continua a ser um cliente muito importante, mas já o era no final do século XIX (no final da vida  de José Maria da Fonseca), onde chega a absorver 90% da produção do Periquita e dos outros vinhos da casa. “Curiosamente, naquela altura, quando vendíamos para o Brasil ou para outras mercados, como África, por vezes não havia divisas para nos pagarem, recebíamos madeiras exóticas em troca. É por essa razão que, muitos dos nossos tonéis onde o Periquita estagia, nas nossas adegas de Azeitão, são feitos de mogno. O Brasil é, desde essa altura, um mercado importantíssimo para nós e onde continuamos a querer crescer.”

Adega: o casamento entre tradição e inovação

O centro de vinificação Fernando Soares Franco representa o salto dado para o século XXI. Está equipado com a mais alta tecnologia, combinada com formas de tratar o vinho que continuam a preservar a tradição. “São ainda usadas prensas alemãs, que se utilizavam há mais de cem anos. Assim como também continuamos a fazer vinhos pisados a pé, da forma tradicional. A inovação está na forma dos lagares, que são redondos, para que as uvas não se acumulem nos cantos, e no material – aço inoxidável – para melhor controlo da temperatura de fermentação”.

Trata-se de uma adega impressionante, automatizada e eficiente, com mais de 430 cubas de fermentação. “Desta forma, na fase inicial da vinificação, conseguimos separar uvas de castas diferentes, de vinhas diferentes e até com exposições diferentes dentro da mesma vinha. Isto dá ao enólogo a possibilidade de tomar mais tarde a decisão do tipo de vinhos que quer lotear. No fundo, é como se tivéssemos um pintor, em que lhe proporcionamos uma palete com um leque variado de cores, que ele depois escolhe para pintar o quadro da forma que considerar ser a melhor”.

Segundo o nosso “guia”, a filosofia do Centro de Vinificação é, assim, tratar as uvas com o máximo de cuidado possível, de forma a conseguir produzir grandes volumes de elevada qualidade e, ainda, com um impacto reduzido na natureza. A sustentabilidade tem sido, aliás, uma preocupação da empresa nos últimos 30 a 40 anos. “Desde o início dos anos 80/90 temos tido o cuidado de trabalhar as vinhas com critérios de sustentabilidade, pensando em formas de nos mantermos em harmonia com a natureza, diminuindo a nossa pegada de carbono, não só no trabalho das vinhas, como no tipo de produtos utilizados. Mas também na manutenção do arrelvamento no meio das carreiras de vinha, de forma a preservar a biodiversidade, na retenção do máximo de água possível e gastando o mínimo de água e energia, quer nas vinhas quer na adega”.

Um laboratório ao mais alto nível

A atenção dada aos detalhes está no ADN da empresa, do início ao fim do processo e o laboratório de vinificação não escapa a este escrutínio. Está dotado dos mais modernos equipamentos, para garantir que todos os vinhos saem da adega com o padrão de qualidade exigido. Na sala de enologia é, então, feito o polimento final dos vinhos (usando mais de um lote ou de outro, criando a tal obra prima, feita com acesso a uma imensa palete de cores), antes de serem engarrafados. Depois do lote estar feito e do vinho preparado, é engarrafado. “Tendo sido o primeiro vinho tinto português engarrafado, esta é uma parte importante da produção”, assegura. E toda a atenção é dada igualmente aos Periquita Branco e Rosé. Conta ainda que “na altura em que se começou a engarrafar o vinho, veio uma máquina de Bordéus que engarrafava quatro garrafas de cada vez. Hoje, temos quatro linhas de engarrafamento diferentes e, se estiverem a trabalhar em simultâneo, podemos fazer 30 mil garrafas por hora. A diferença é enorme, relativamente a dois séculos atrás, mas a paixão é a mesma”.

Gerações à mesma mesa

António Maria Soares Franco faz parte da sétima geração da família a trabalhar na José Maria da Fonseca, juntamente com a irmã Sofia e o primo Francisco, embora ainda permaneçam em funções os representantes da sexta geração: António e Domingos Soares Franco. “Nós estamos no negócio do vinho mas estamos, de facto, no negócio das pessoas, pois o vinho faz-se sobretudo das relações pessoais, nos convívios à mesa e nos momentos de partilha, e isso é determinante para o produto final”. A “sucessão” familiar estende-se a muitos dos restantes trabalhadores, que também pertencem a várias gerações de colaboradores. “Fazem parte do pilar central daquilo que é José Maria da Fonseca. Conhecemos todos pelo nome e tentamos proporcionar o acesso à melhor formação possível, dentro desta área. Já recebemos várias certificações de qualidade que nos permitem ter sempre um nível muito elevado de qualidade em tudo o que fazemos”.

À mesa com Periquita

A visita termina nas caves e loja de enoturismo, neste ambiente de calor e festa. “Temos mais de 40 mil visitantes por ano, que sabem que provar um vinho é mais do que bebê-lo, é perceber exatamente o que está por detrás, perceber a filosofia da empresa e, neste caso, das gerações envolvidas na sua produção”.

Recentemente, abriu em Azeitão a segunda “flagship store” da José Maria da Fonseca: a By The Wine Azeitão (a primeira fica em Lisboa, no Chiado). “É uma forma de juntar as pessoas e de combinar toda esta experiência à mesa. Esta arte de bem receber, que é tão portuguesa, e que é também uma forma de partilhar a nossa cultura, à volta de uma garrafa de vinho Periquita e de bons petiscos”.

Saiba mais em https://observador.pt/seccao/periquita/