A guerra entre as berlinas eléctricas topo de gama está ao rubro, com Porsche e Tesla a batalharem entre si para ver quem oferece o melhor modelo deste segmento. Primeiro foi o duelo na pista alemã de Nürburgring, com as versões mais desportivas, mas agora surge finalmente a possibilidade de comparar as versões mais acessíveis e também aquelas que reivindicam a maior autonomia, tema a que os utilizadores de eléctricos são bastante mais sensíveis.

A Porsche revelou esta semana as características do seu novo Taycan 4S, mais acessível do que os já conhecidos Turbo e Turbo S e substancialmente mais em conta. Isto mantendo a mesma estética elegante e esguia, quatro rodas motrizes e um nível elevado de capacidade de aceleração e de velocidade máxima. Exactamente os trunfos que também esgrime o Model S Long Range, menos potente e rápido do que a versão Performance, mas também ele mais acessível e capaz de percorrer maiores distâncias entre recargas de bateria.

Impõe-se pois saber, entre estes dois modelos, qual reúne a maior lista de atributos e o que mais se destaca nos pontos que podem ser mais interessantes para a generalidade dos condutores. Do preço ao consumo, passando pela estética, autonomia, nível de equipamento, capacidade de aceleração, velocidade máxima e potência, qual o que tem mais cartas na manga?

Estética e dimensões: Taycan 1-1 Model S

Gostos não se discutem, pelo que cada cliente será perfeitamente capaz de escolher o veículo que mais lhe agrada entre estes dois modelos, que representam o que de melhor se faz entre os automóveis eléctricos que podem transportar a família, com conforto, mas sem abrir mão de uma condução desportiva.

Contudo, há diferenças entre eles que podem limitar o tipo de utilização, com o Porsche a ser mais baixo e menos espaçoso por dentro, oferecendo ainda um acesso a exigir maior agilidade, para o Tesla se assumir como mais familiar, podendo até disponibilizar 5+2  lugares (estes últimos para crianças), enquanto o Taycan parece preferir acolher apenas quatro ocupantes a bordo.

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A mala é também mais generosa no Model S (805 litros contra somente 488 no Porsche), tornando o modelo mais versátil e prático, isto apesar de o comprimento apenas ser pouco maior no Tesla. Em termos de rendimento aerodinâmico, uma vez que o 4S melhora face aos Turbo e Turbo S, a berlina germânica e americana fazem jogo igual (Cx de 0,22 e 0,23, respectivamente). Como as características mais adaptadas à família do Model S se equiparam à filosofia mais desportiva do Taycan, consideramos que um empate é o mais justo.

Motores e potência: Taycan 1-0 Model S

Ambos os modelos montam um motor à frente e outro atrás, para assim garantirem tracção integral, o que permite a quem vai ao volante usar e abusar do acelerador sem ser acometido por perdas de motricidade que coloquem em risco a segurança ou a eficácia. O novo Taycan 4S surge em duas versões, uma com bateria de menor capacidade (apelidada Performance, com 79,2 kWh), com uma autonomia demasiado curta para se assumir como rival do Tesla, e outra maior, denominada Performance Plus (93,4 kWh), pelo que será esta a ser considerada.

A Porsche anuncia para a versão 4S Performance Plus uma potência 489 cv, valor que sobe para 571 cv com a função overboost associada ao Launch Control, segundo o construtor, sem que especifique a potência de ambos os motores ou se, como a denominação parece indicar, o overboost apenas está disponível durante o arranque e por um período de 8 segundos, como nos Turbo e Turbo S.

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Pelo seu lado, o Model S monta um motor com 262 cv à frente e 387 cv atrás, que depois são modulados de forma a não ultrapassar 421 cv. Isto efectivamente confere uma vantagem ao Porsche, apesar de não parecer materializar-se no arranque ou em termos de velocidade máxima. Ainda assim, uma vitória neste ponto para o Taycan.

Consumo e autonomia: Taycan 0-1 Model S

O consumo num veículo eléctrico é ainda mais importante do que num modelo a gasolina e, mais importante do que isso, diz tudo em relação à qualidade e eficiência da gestão de energia. Daí que os fabricantes tentem optimizá-lo, para conseguir ir mais longe com a mesma capacidade (e peso) de bateria.

Para o Taycan 4S, a Porsche anuncia um consumo médio de 25,6 kWh/100 km, um valor muito mais elevado do que o seu rival americano. Aliás, basta analisar os valores reivindicados por ambas as marcas, e calculados de acordo com o sistema europeu de determinação de consumos e emissões WLTP, para constatarmos que com uma capacidade de acumulador útil de 93,4 kWh, o Taycan 4S Performance Plus reclama uma autonomia de 463 km, a maior dentro da gama do Taycan, mas ainda assim muito inferior à do seu rival.

Nas mesmas condições (WLTP), o Model S Long Range é capaz de percorrer 610 km, ou seja, mais 31,7%. Isto apesar da diferença entre as baterias ser de apenas 6,6 kWh na capacidade total (93,4 kWh para o Porsche e 100 kWh para o Tesla). O consumo substancialmente inferior e a autonomia muito mais generosa atribuem, neste capítulo, uma vitória clara à Tesla.

Velocidade de carregamento: Taycan 1-0 Model S

Quando foi revelado, ainda como o protótipo Mission E, o Taycan prometeu um sistema eléctrico a 800 V, sensivelmente o dobro da concorrência, que lhe permitiria recarregar com uma potência de até 350 kW. Quando finalmente foi relevado, no Salão de Frankfurt, a potência de carga anunciada baixou para 270 kWh, caindo mesmo para 225 kWh no caso do 4S Performance.

Quem já conduziu o Taycan e teve ocasião de o recarregar num posto de 350 kW, como foi o caso do jornalista do KM77, registou que o Taycan que conduzia, com apenas 18% de carga na bateria, “começou por recarregar a 240 kW durante os 3 primeiros minutos, para cair para 197 kW e pouco depois para 140 kW”.

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Pelo seu lado, o Model S Long Range carrega a 150 kW e apesar deste valor, tal como no Taycan, depender do nível de carga da bateria (mais lento próximo dos 0% ou dos 100%) não parece, pelo exemplo descrito acima, perder tanto quanto seria de esperar para o seu rival alemão. Ainda assim, o Porsche aceita potências superiores e daí a vitória no capítulo da potência de carga.

Aceleração e velocidade máxima: Taycan 0-1 Model S

Com pesos similares (o Porsche é até ligeiramente mais pesado, o que espanta pelo facto de ser ligeiramente mais pequeno e baixo), seria de esperar que o Taycan se impusesse no capítulo da rapidez e da velocidade, tanto mais que reivindica mais potência, podendo ainda usufruir do overboost na fase de arranque.

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Porém, a vida tem destas surpresas e o Taycan 4S Performance Plus, com os anunciados 489 cv, atingindo 571 cv em overboost, necessita de 4,0 segundos para ir de 0 a 100 km/h. Isto apesar de usar no eixo traseiro uma caixa de duas velocidades, o que é pressuposto ajudar nestas situações. Tratar-se-á de uma contrariedade para a marca alemã, uma vez que a sua rival americana chega aos 100 km/h em 3,8 segundos, revelando-se pois mais rápida, embora reivindique apenas 421 cv. Serão provavelmente cavalos de outra raça, ou então o Long Range tem mais potência do que anuncia…

A velocidade máxima do Porsche e do Tesla está em ambos os casos limitada electronicamente, tentando prolongar a autonomia. Curiosamente, a marca germânica decidiu alinhar pelo mesmo valor (250 km/h) que o construtor americano já reivindicava.

Equipamento e sofisticação: Taycan 0-1 Model S

Aqui, a guerra entre os dois adversários é extremamente desequilibrada e favorável ao Model S Long Range. Ao contrário do Taycan, o Tesla oferece de série o Autopilot, o que inclui cruise control adaptativo (pelo qual o Taycan cobra 1.808€, segundo o configurador), capacidade de manter o carro ao centro da faixa de rodagem, fazer ultrapassagens e lidar com as vias de acesso e saída da auto-estradas, quando a navegar em Autopilot. Tudo soluções com que o Taycan nem sonha.

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Ao imenso ecrã central do Model S, o Taycan responde com um minúsculo, com substancialmente menos funções, dado que o ecrã para o passageiro obriga a um investimento adicional de 1.057€, tal como o pack de som premium, de série no Tesla e com um custo de 1.396€ na Porsche.

Se a tudo isto somarmos sistemas como o Summon, que permite “chamar” o Tesla, ou mandá-lo estacionar sozinho, as actualizações over-the-air para todas as funções do modelo, é fácil perceber que o Long Range vença neste sector.

Preço: Taycan 0-1 Model S

Aqui os números falam por si. A Tesla vende o Model S Long Range em Portugal por 89.900€, mesmo se incluindo mais equipamento de série, enquanto a Porsche exige pelo Taycan 4S Performance Plus 117.987,19€, de acordo com o configurador. São mais 28 mil euros, valor que rapidamente sobe (e de forma vertiginosa) se tentarmos equiparar o nível de equipamento de ambos os modelos.

Não faltarão clientes sensíveis aos argumentos da Porsche e à imagem da marca, mas a vida do Taycan seria mais simples caso a marca alemã vendesse o seu eléctrico por um valor superior, mas conseguisse que este fosse o melhor em aspectos tradicionalmente importantes para os utilizadores desta classe de veículos. O que, como vimos atrás, está longe de acontecer.

Conclusão: Taycan 3-5 Model S

Não se pode dizer que tenha existido um grande equilíbrio neste duelo entre as versões mais acessíveis propostas pelo Taycan e pelo Model S. Apesar de termos condescendido ao atribuir o mesmo número de pontos relativos à carroçaria – que é efectivamente mais espaçosa no Tesla –, valorizando a filosofia diferente no Taycan, raciocínio que voltámos a adaptar à potência do motor, privilegiando o Porsche, apesar de os dados de aceleração não confirmarem esta realidade, o Taycan 4S Performance Plus perde o confronto por 5-3. O Tesla Model S Long Range tem mais argumentos.