Diogo Varela Silva, neto de Celeste Rodrigues, foi um amigo muito próximo de Zé Pedro. Tiveram uma amizade de décadas – Zé Pedro é o seu padrinho de casamento – e chegaram a viver juntos. Não é de espantar que alguém tão próximo seja o responsável por este documentário em volta da vida e da carreira de Zé Pedro, “Zé Pedro Rock ‘n’ Roll”, cuja estreia mundial acontecerá dia 18 de outubro na Sala Manoel de Oliveira no Cinema São Jorge, em Lisboa (21h30), como parte da programação do DocLisboa. Trata-se de um filme-homenagem, como Diogo Varela Silva nos diz: “Este filme é um filme para nós, para nós que estamos a tentar arrumar a questão da saudade e do luto.”

Falámos com o realizador dias antes da estreia mundial de “Zé Pedro Rock ‘n’ Roll”. Diogo Varela Silva já assinou vários documentários sobre músicos portugueses, “Celeste”, “Fado Celeste” ou “Fernando Maurício — O Rei Sem Coroa”, universos que sempre estiveram próximos de si, com o fado como protagonista maior. aquim a proximidade também existe, mas com origens distintas. O realizador falou com o Observador ao telefone a parir de Chicago, onde está a acompanhar o filho, Gaspar Varela, durante a digressão de Madonna, convidado pela própria para fazer parte da banda de “Madame X Tour”.

[o trailer de “Zé Pedro Rock’n’Roll”:]

Quando é que surgiu a ideia para fazer este documentário sobre Zé Pedro?
Já tive a ideia há bastantes anos, aliás, até tinha falado com o Zé sobre a ideia de fazer este filme, mas foi uma daquelas coisas que fomos adiando, eu e ele. Nunca pensámos que ele fosse embora tão rápido. Damos sempre como garantido ele estar ali ao lado, havia outros projetos que se foram fazendo e esteve estava na ideia de se fazer um dia. Acabou por ser uma forma que eu arranjei de fazer o luto, arrumar esta ideia da morte dele dentro da minha cabeça.

Mas não começou a filmar com ele em vida?
Não, não cheguei a começar sequer. Era uma coisa que estava na agenda um dia fazermos. Lembro-me que houve… não sei se for a Rita [Nunes]… houve uma altura que houve outra realizadora que tinha na ideia de fazer o documentário, mas depois não se conseguiu financiamento do ICA, como este aliás não conseguiu. Foi carolice minha em querer fazer o filme e parte de apoio que se conseguiu foi com a RTP e a Câmara Municipal de Lisboa. Não teve diretos a apoios do ICA.

Após a morte do Zé Pedro, quando é que começou a trabalhar no documentário?
A minha relação com o Zé Pedro é muito antiga e muito próxima, ele viveu em nossa casa, viveu com uma tia minha, quando éramos miúdos vivia connosco. É como se fosse quase um tio. Algum do arquivo fotográfico nós tínhamos em nossa posse. E tive a vantagem de ter a ligação próxima tanto à família Santos Reis como aos Xutos & Pontapés, além do arquivo pessoal do Zé, através da Cristina, a sua mulher, que me facilitou um bocado este trabalho todo de pesquisa. Em parte sabia bem o que queria pesquisar e conhecia parte dos documentos que queria pesquisar. Houve um trabalho de pesquisa que é a vivência de uma vida inteira, quase. No princípio dos Xutos ele vivia em nossa casa, pelo menos 40 anos de relacionamento com o Zé Pedro tinha. De conhecimento e amizade. Há todo um trabalho de pesquisa que foi feito naturalmente, com a convivência com ele. A primeira morada dos Xutos era a morada da nossa casa, da Celeste Rodrigues, da minha avó, vivíamos todos em casa dela. Havia esta proximidade.

Teve acesso a arquivos pessoais, aos arquivos da RTP. Procurou em mais algum lado?
Posso não ter tido acesso a algumas coisas por causa do financiamento. Mas no que toca ao arquivo da RTP tive total abertura e disponibilidade deles para poder fazer a pesquisa. E estão lá muitas das coisas. E tive acesso total ao arquivo inteiro dos Xutos. Tive bastante arquivo à minha disposição. Não foi por falta de arquivo que terá ficado alguma coisa por dizer.

Mas sente que poderia usar mais imagens de arquivo da altura?
Não existem muitos mais registos do que isso, há umas filmagens do Edgar Pêra, que também coloquei no filme. Tudo o que há de mais antigo, que está filmado, está lá. É o quarto ou quinto filme que faço sobre artistas, é o segundo que faço sobre alguém que não está cá, e os problemas com os quais me deparo na maior parte destes casos têm a ver com o parco arquivo que há em relação a cada artista. Uma pessoa da dimensão do Zé Pedro deveria ter um arquivo muito maior do que aquilo que tem. Na rádio não encontrei nada na Antena 1 que fosse anterior a 1994. Fiquei muito espantado como isso aconteceu, como não havia arquivo antes disso.

O que usou do Edgar Pêra?
Ele tem aquela curta em que entra a Anamar, o Manuel Mozos e entram os Xutos. E tem as coisas que ele filmou que agora utilizou para os arquivos Kino-Pop. Utilizo um bocado de um concerto que eles deram numa coletividade do Bairro Alto que era o Rio de Janeiro, nuns anos do Zé Pedro. E utilizo um bocado de nada do filme. É o que há, do Edgar Pêra. O próprio Edgar Pêra tem imensa coisa mas não encontrou mais. E gostava de ter alguma coisa dos Faíscas, visto que foi manager dos Faíscas, antes de ser músico foi manager. Se havia, não consegui encontrar.

Houve algo durante as entrevistas que tenha descoberto sobre o Zé Pedro que não sabia?
Na verdade não. Eu tinha uma grande amizade com o Zé. Ele é o meu padrinho de casamento, éramos amigos mesmo. Toda esta parte que eu retrato mais, a parte mais conhecida dele, profissional, da paixão pela música, foi sempre coisas que ele foi falando nas entrevistas que ia dando. Há pequenas coisas da família que eu sabia mas que acredito que as pessoas que vão ver o filme não sabem ou não saberão tão bem.

Conhecendo-o tão bem, não sentiu a necessidade de introduzir uma voz sua no documentário?
Eu estou lá, não me escondo.

Mas tornar de um ponto de vista mais pessoal, com um narrador.
Não senti essa necessidade. Não é um documentário sobre mim, ou a minha relação com ele. Quero que quem veja o filme conheça o Zé Pedro que eu conheci. Cada um tem de fazer a sua leitura e perceber qual é o Zé Pedro que lhe diz respeito.

Como há pouco mencionou, uma das primeiras ligações dele com a música é como manager…
Começou como crítico, escrevia num suplemento que era o Mosca, do Diário de Lisboa. É aí que começa a sua ligação mais musical. Ele sempre esteve mais ligado à música, muito antes de ser músico. Antes de estar ligado ao meio, ele queria ler, saber.

Quando há pouco mencionou isso, e quando esse momento é referido no documentário, ocorre-me a generosidade dele em partilhar música. Percebe-se mesmo que o Zé Pedro, mais do que ser músico, o que ele queria era partilhar o seu gosto, as suas paixões.
Era mesmo assim. Há muitos intervenientes que falam nisso no filme. Ele estava sempre a apresentar novas músicas, novas coisas. A primeira vez que ouvi Smashing Pumpkins foi numa viagem que fiz aos Estados Unidos e vinha com o recado dele para comprar o disco da banda. Ouvi o disco antes de lhe dar e fiquei… Ele tinha esse lado sempre curioso, de busca, partilhar o que sabia. O Johnny Guitar era muito isso, as sessões, as bandas, a música que ele punha, era um bocado isso, um jogo de partilha constante.

Como é que o Zé Pedro se sentiu quando os Xutos & Pontapés fizeram a primeira parte dos Rolling Stones?
Foi um sonho tornado realidade. Ele próprio assume no filme, o maior ídolo dele foi o Keith Richards. O grande segredo do carisma do Zé passa pelo facto de ele nunca ter deixado de ser um fã, ele próprio. Ele melhor do que ninguém percebia os fãs. Dos músicos todos em Portugal, acho que não há ninguém mais acarinhado do que ele. Ele sempre teve esse conhecimento do que é ser fã, porque ele era de facto um fã. Acho isso lindíssimo, acho isso de uma humildade e beleza ímpar. Não é normal veres pessoas deste estatuto e qualidade serem tão desarmadamente humildes na maneira de ser fã, como ele era.

Voltando à questão inicial, como é que ele se via num filme feito sobre si?
Não sei. Sei que ele gostou da ideia. Como gostou da ideia quando foi apresentada por outra realizadora, acho que foi a Rita Nunes, como disse. Não quero passar a ideia errada, mas sei que havia uma ideia antes também. E é óbvio que eu acho que ele adoraria ver um filme sobre ele. Mas não sei, não está cá agora para ver. Este filme é um filme para nós, para nós que estamos a tentar arrumar a questão da saudade e do luto.

E como é que ele se via a ele próprio?
Acho que ele não queria saber da imagem, queria saber da partilha, ele preocupava-se com a partilha. O verbo dar era tudo. O pagar copos, levar ao cinema, aos concertos, sempre foi partilhado. Das coisas que mais prazer lhe dava era o ato de dar.