Uma multidão compacta voltou a desfilar esta sexta-feira no centro de Argel pela 35.ª sexta-feira consecutiva, num novo desafio ao chefe de Estado-Maior das Forças Armadas e pela rejeição das presidenciais convocadas para 12 de dezembro.

Na sequência de demissão do Presidente Abdelaziz Bouteflika em 2 de abril, os ativistas do ‘Hirak’, o inédito movimento de contestação ao regime desencadeado a 22 de fevereiro, continuam a manifestar-se semanalmente para exigir o desmantelamento do “sistema” no poder desde a independência da Argélia em 1962.

Antes de dispersarem sem incidentes pelas 17h locais (mesma hora em Lisboa), os manifestantes exigiram o afastamento do conjunto do sistema que circulava em torno do ex-Presidente, em particular o chefe de Estado-Maior, general Ahmed Gaid Salah, e do chefe de Estado interino Abdelkader Bensalah, e recusando que organizassem o escrutínio destinado a eleger o sucessor de Bouteflika. “Gaid Salah, demissão!”, “Não às eleições este ano” foram frases que voltaram a ecoar pelas ruas da capital, numa forte mobilização que não emite sinais de desmobilização desde o final do verão, e que também decorrem em muitas outras cidades do país magrebino.

A multidão também se insurgiu contra um projeto-lei sobre os hidrocarbonetos, acusado de delapidar a riqueza nacional em proveito das multinacionais e também com forte rejeição por todo o país.

Na perspetiva do general Salah, alguns manifestantes são pagos “com dinheiro sujo” para desfilarem nas ruas. E advertiu os que pretendem desencorajar o “empenho” do povo argelino “em participar na [eleição] presidencial”. “Com esta acusação, ele [Gaid Salah] tenta atingir o ‘Hirak’”, disse Amar Medqueb, agente imobiliário de 57 anos que integrou a manifestação desta sexta-feira, citado pela agência noticiosa AFP. “Não existe outra escolha do que tentar dividir o movimento por todos os meios” face à amplitude da contestação, assegurou.

O atual poder tenta organizar pela terceira vez eleições presidenciais em 2019. Face à contestação, Bouteflika adiou para data não especificada o escrutínio de 18 de abril, ao qual concorria a um quinto mandato. De seguida, a eleição convocada por Bensalah que deveria encerrar em 4 de julho a governação interina foi anulada pelo Conselho Constitucional por ausência de candidatos.

Esta sexta-feira, os manifestantes voltaram a erguer cartazes com fotos de manifestantes, jornalistas ou bloguistas que foram detidos nos últimos meses e envolvidos no ‘Hirak’. O Comité Nacional de Libertação dos Detidos (CNLD) “políticos e de opinião” identificou uma centena de pessoas detidas em ligação com o ‘Hirak’, alguns há mais de quatro meses.

Na véspera, e após um apelo nas redes sociais, o centro de Argel foi invadido no final da tarde, durante 30 minutos, pelos sons do “mehraz” (almofariz de metal) e de caçarolas, e ainda toques de buzinas, em solidariedade com estes “presos políticos e de opinião”.

Foram emitidos apelos para repetir todas as quintas-feiras este protesto sonoro, que também se estendeu a outras cidades do país, à semelhança do que tem sucedido às sextas-feiras desde finais de fevereiro.