Foi no primeiro dia do passado mês de junho. Em Portugal, foi Dia da Criança. No Brasil, foi o Primeiro Dia de Jesus. Depois de deixar praticamente certo que ia rumar ao Rio de Janeiro quando disse que o Flamengo é “um dos maiores clubes do mundo”, o treinador português foi confirmado como novo técnico do clube brasileiro no início do verão. Mas no Primeiro Dia de Jesus no Brasil, o próprio do Jesus estava em Madrid. Afinal, era dia de final da Liga dos Campeões entre Liverpool e Tottenham no Wanda Metropolitano: e o treinador fez questão de deixar desde logo um aperitivo para aquilo que seriam (e que ainda estão a ser) os meses seguintes.

“Isto pode ter história para nós. Este vencedor vai disputar o Mundial de Clubes e nós, se ganharmos a Libertadores, também vamos. Pode ser um destes dois, já estou a ver”, disse Jorge Jesus há mais de quatro meses, no relvado do estádio do Atl. Madrid. As declarações, desde logo, foram alvo de críticas e comentários mais irónicos do que verdadeiros no Brasil. Afinal, o Flamengo tinha acabado de despedir um treinador para contratar outro, o português ia aterrar no Rio de Janeiro com poucas credenciais e a Libertadores escapa ao clube desde 1981. A confiança de Jesus, embora intrínseca ao treinador, surgia apoiada desde logo pelo presidente do Flamengo, que também estava em Madrid e explicou aos adeptos que a aposta no técnico acarretava “esperanças enormes”.

“É um técnico super competente e um dos melhores do mundo, de uma escola reconhecida no mundo como é a portuguesa. Vai contribuir muito não só para o Flamengo mas para o futebol brasileiro. O que ele vai poder levar para o Brasil é mais do que só o trabalho para o Flamengo. Jorge Jesus tem a cara do Flamengo, tem o ADN do Flamengo. É um técnico vencedor, que quer ganhar tudo, detalhista, odeio perder como todos nós. É a cara do Flamengo. Vai ser uma junção muito grande”, atirou Rodolfo Landim. Numa cidade que não o Rio de Janeiro, num país que não o Brasil, num continente que não o sul-americano, as cartas estavam lançadas. E o tónico daquilo que seriam os meses seguintes estava mais do que apresentado.

No Brasil, Jorge Jesus tornou-se um habitué dos noticiários das televisões, das notícias dos principais jornais, das manchetes dos principais sites. Pelo que diz, pelo que dizem dele e por aquilo que o Flamengo tem vindo a fazer desde que o português aterrou no Rio. Atualmente, a meio de outubro, o Flamengo está na liderança do Brasileirão com oito pontos de vantagem em relação ao Palmeiras e está também nas meias-finais da Libertadores, a um pequeno passo de uma final que pode garantir um título continental que foge então há 38 anos. O impacto quase imediato no futebol brasileiro, contudo, não se fez só dentro do relvado: e Jesus aparece cada vez mais nos noticiários das televisões, nas notícias dos principais jornais e nas manchetes dos principais sites por aquilo que diz e por aquilo que dizem dele.

O Flamengo está nas meias-finais da Taça Libertadores e vai à procura da conquista do troféu quase 40 anos depois

O treinador “de 65 anos” que ninguém conhecia

Quando chegou, porém, a situação não podia ser mais diferente. Nos programas de comentário desportivo, a grande maioria dos comentadores abordava o facto de Jorge Jesus não ser conhecido nem reconhecido, de só ter títulos em Portugal e de a única experiência que havia tido fora de portas ter sido na Arábia Saudita. Uma ideia que era global e que foi corroborada, de forma mais explícita, por Luizão, antigo jogador do São Paulo que foi campeão do mundo com a seleção brasileira em 2002. “No Flamengo, ou se está no céu ou se está no inferno. Vai trabalhar num dos maiores clubes do mundo, que tem uns adeptos maravilhosos mas que cobram muito também. Em Portugal, ele é o Jorge Jesus. No Brasil, ele não é o mesmo Jorge Jesus. Não quero tirar os méritos dele, mas muita gente não o conhece no Brasil. O Flamengo é uma nação. No Brasil ninguém quer saber quem é o Jorge Jesus, só querem saber se ele vai chegar para ganhar ou não”, disse na altura o antigo internacional.

Já não há ninguém que não conheça Jorge Jesus no Brasil. Mas ainda assim, esse pormaior que é o facto de o treinador português ser um perfeito desconhecido na altura em que foi apresentado pelo Flamengo, continua a ser uma farpa utilizada para tentar afetar e desestabilizar o técnico. Renato Gaúcho, que orienta o Grémio e foi até agora o único treinador do Brasileirão a investir nos mind games pré-jogo em que Jesus era exímio em Portugal, disse no fim de setembro que estava “curioso” porque nunca tinha ouvido falar do português. “Só ganhou dois ou três títulos em Portugal, saiu de Portugal e foi para a Arábia Saudita, nunca treinou um grande clube na Europa, nunca conquistou nada e está com 65 anos. Só fico curioso”, atirou o técnico do Grémio.

As comparações com Guardiola (dentro e fora de campo)

No futebol, assim como em quase tudo na vida, as comparações são inevitáveis. Uma nova atriz a dar nas vistas é desde logo a nova Meryl Streep, um novo cantor a ter sucesso é o novo Mick Jagger e um novo jogador de futebol a impressionar é o novo Messi ou o novo Ronaldo. O mesmo se aplica aos treinadores, onde Mourinho, Guardiola e Klopp, nos últimos anos, adquiriram o estatuto de ser termo de comparação com nomes mais recentes ou mais desconhecidos. No Brasil e com Jorge Jesus, o treinador espanhol tem sido o mais mencionado: tanto pelas atitudes durante os jogos como pela forma de pensar futebol, técnica e taticamente.

Um dos primeiros a comparar Jesus com Guardiola foi Rafinha, o veterano jogador do Flamengo que foi treinado pelo espanhol no Bayern Munique, de 2013 a 2016. Depois de ser protagonista de um momento mais inflamado com Jesus, em que o treinador o confrontou diretamente enquanto o árbitro expulsava o adversário Paolo Guerrero, durante um encontro com o Internacional, o brasileiro garantiu que se tratou de um “papo reto”. “É normal, já são quase 17 anos de profissional. Foi papo reto. O mister tem o pensamento dele e eu o meu. Às vezes uma informação ou outra não bate, uma palavra indelicada surge, faz parte. Temos total respeito por ele. Com o Pep [Guardiola] era algo muito parecido”, explicou Rafinha.

Além da presença efusiva e quase hiperativa junto ao banco de suplentes, também a forma como o Flamengo se apresenta em campo tem merecido comparações entre Guardiola e Jesus. Paulo Andrade, jornalista da ESPN brasileira, defendeu que o treinador português consegue potenciar a qualidade dos jogadores que tem no plantel, assim como o espanhol faz no Manchester City. “Vemos jogadores no Manchester City que rendem muito mais do que com qualquer outro treinador. É o caso do Agüero e do Sterling. O Guardiola é reconhecido por fazer os jogadores renderem mais. E, guardadas todas as devidas proporções, é isso que está a acontecer no Flamengo, com o Willian Arão e o Gerson”, concluiu. Já Fábio Sormani, também jornalista, foi mais longe e garantiu que este Flamengo o recorda do Barcelona de Guardiola. “O jeito do Flamengo jogar é um jeito que me lembra bastante aquele Barcelona do Guardiola, que ganhou 4-0 ao Santos. Em Porto Alegre, o Flamengo não deixou o Grémio passar do meio-campo”, disse Sormani na FOX Sports brasileira.

O futuro num país que “não está preparado” para o show Jesus

Apesar do sucesso inequívoco, dos milhares de adeptos que fazem os mesmos milhares de quilómetros para assistir a jogos do Flamengo com a esperança real de que esta pode ser uma temporada histórica, Jorge Jesus ainda não é consensual. Dificilmente o seria, aliás, num país com mais de 200 milhões de habitantes e onde o futebol é o mais parecido que se encontra com uma religião. Para Paulo César Carpegiani, antigo treinador e jogador do Flamengo, o técnico português falhou, desde logo, na forma como chegou ao clube. “Não gostei do que aconteceu aquando da vinda dele. O facto de ter ido ver o Flamengo jogar, já apalavrado com a Direção, enquanto o Abel [Braga, treinador que antecedeu a Jesus] ainda estava contratado, foi muito mau. É uma coisa de caráter, beira a falsidade. Pode ser um grande técnico, mas faltou-lhe caráter. O Abel ficou muito magoado. Quando fizer qualquer tipo de crítica, tem de se lembrar que a postura dele não digna de alguém do seu naipe”, defendeu Carpegiani.

Luisão garante que o Brasil não está preparado para o sucesso do treinador

Outra das críticas mais profundas a Jorge Jesus veio da equipa técnica da seleção brasileira: não de Tite mas do adjunto do selecionador, César Sampaio. “Na minha avaliação, acho que é um futebol muito bonito, ofensivo, mas não é o brasileiro. É um futebol desequilibrado. São equipas que, para construir, às vezes desestruturam o setor do meio-campo e o setor defensivo. Quando as forças com os adversários se equiparam, se não tiver um jogo mais equilibrado, pode até perder com uma equipa que seja melhor tecnicamente”, explicou Sampaio, em declarações que foram posteriores à ideia — lançada por Fábio Luciano, antigo jogador do Flamengo — de que Jorge Jesus tem vista o cargo de selecionador nacional brasileiro. “Eu acho que ele veio para o Flamengo a pensar na seleção do Brasil. Quem é que não quer treinar a nossa seleção? Ele não está errado. Com um clube do tamanho do Flamengo e com o plantel que tem nas mãos…o Flamengo é gigante. Ele é inteligente, respira futebol mas, na minha opinião, desde que veio para cá, tem esse objetivo de treinar a seleção. Se não fosse por este caminho, não teria hipóteses de o conseguir”, afirmou o atual comentador da ESPN.

Críticas e comentário que, na ótica de Luisão, não são surpreendentes. O atual dirigente do Benfica, que foi orientado por Jorge Jesus durante várias épocas enquanto capitão encarnado, garantiu numa entrevista que o Brasil “não está preparado” para o sucesso do treinador português. “O brasileiro precisa de compreender que não é perfeito em tudo. O ego do brasileiro é muito grande, falta humildade para tirar proveito daquilo que vem de fora. O Jesus conhece o futebol brasileiro, estudou e chegou lá já a saber o que iria encontrar. O Brasil não está preparado nem para o sucesso de Jorge Jesus nem para o sucesso de ninguém, seja de dentro ou de fora. Porquê? Porque nós, brasileiro procuramos sempre encontrar os defeitos dos nossos próprios ídolos, queremos sempre atirá-los para baixo. O brasileiro tem dificuldade em aceitar o sucesso das pessoas, ainda mais se esse sucesso é de quem vem de fora. Muita gente falou mal do Jorge Jesus e ele tinha acabado de chegar. Faltou a humildade de dizer: ‘Vem, seja bem-vindo, mostre o que tem para nós e depois fazemos uma avaliação'”, explicou Luisão.

E o que ele diz, da grandeza ao legado, da estrelinha de campeão à inexistência do verbo “descansar”

“O que me convenceu, principalmente, foi a grandeza do Flamengo. São quatro os clubes mais famosos do mundo: Flamengo, Boca Juniors, Barcelona e Real Madrid. Esse foi um dos motivos para eu aceitar, além de ganhar títulos. O Flamengo vai dar-me a possibilidade de ganhar a Libertadores, de ganhar o Mundial. Fiquei muitos anos no Benfica e ganhei tudo. E esse é o objetivo maior que fez com que eu aceitasse o desafio do Flamengo”. Foi assim que, em junho, Jorge Jesus explicou o porquê de ter decidido rumar ao Brasil depois da experiência na Arábia Saudita. A fome de títulos e de conquistas, de reconhecimento internacional, levou o treinador português para o Rio de Janeiro. E Jesus já não quer voltar a fazer as malas sem ter deixado um legado.

Além dos mais óbvios Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta, Willian Arão tem sido um autêntico jóquer para Jesus

Depois da vitória em casa perante o Atl. Mineiro, o treinador português pediu que se deixasse de falar no Flamengo a partir “do mister, do jogador A ou do jogador B” mas sim como um todo, ainda que tenha reconhecido que tem como objetivo “deixar um legado” — não no clube como no futebol brasileiro. “A forma de jogar do Flamengo é completamente diferente de todas as equipas do Brasil. Não sei se é pior, se é melhor. É a minha, se ganharmos alguma coisa, pode ficar um legado. Como é óbvio, só deixa raízes quem ganha. Mas também sabemos que, no Flamengo, vamos deixar muitas coisas novas que trouxemos. Não são coisas novas da Europa, são coisas minhas e da minha equipa técnica”, adiantou.

Esse legado, mais do que assente em vitórias em conquistas, irá basear-se na atitude do treinador na linha técnica, nas conferências de imprensa muito longe daquilo que é o dito normal, na forma rápida como se adaptou não só ao Brasil como ao clube que o escolheu. No final de agosto, quando confrontado com o caso de Gustavo Cuéllar — o colombiano foi afastado da equipa porque, alegadamente, forçou uma saída –, Jesus agradou de uma vez ao plantel, aos adeptos e à estrutura quando falou em colocar o Flamengo acima de tudo o resto. “É uma decisão que não me compete, é a Direção que tem de analisar. Ele quis estar à frente dos interesses do Flamengo. Está acima o clube — não o jogador ou o treinador. Quando alguém pensa que está acima do clube, terá sempre problemas. Como jogador, faz-nos falta. Mas vai ter que assumir as consequências da atitude que tomou”, defendeu o português.

Além de garantir que São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos — para lá do Flamengo — poderiam lutar pelos primeiros lugares das principais ligas europeias, Jorge Jesus tem elogiado o futebol brasileiro de forma recorrente, sempre admirado com a presença assídua e participativa dos adeptos nos estádios (tanto em casa como fora). Esta quarta-feira, na deslocação a Fortaleza, 15 mil apoiantes do Flamengo viajaram para apoiar a equipa e receber os jogadores: assim como o treinador, que parou a cada pedido de autógrafo ou fotografia, quer antes do jogo como depois do apito final. No rescaldo de uma vitória suada, conquistada com uma reviravolta nos últimos 10 minutos, mas que garantiu a manutenção dos oito pontos de vantagem para o Palmeiras e valeu o 12.º resultado positivo em 13 partidas, Jorge Jesus voltou a deixar explícito que quer ganhar o Brasileirão e afastou a possibilidade de deixar jogadores de fora das opções para os fazer “descansar”.

“Tínhamos muitos jogadores de fora. Não tivemos um jogo ao nível daquilo que estamos habituados a fazer, no primeiro tempo. Fizemos alterações para ver melhorava a equipa, fiz mudanças táticas. Fizemos por onde ganhar. Depois do empate, tivemos a melhor parte. Foi uma vitória com estrelinha de campeão (…) A minha cultura não é de poupar. E os jogadores provam domingo a domingo. Descansar? Isso não existe. Vamos descansar nos dias que temos. Quinta, sexta, sábado…domingo é para correr”, atirou Jesus.

O treinador português está diariamente nos noticiários das televisões, nas notícias dos principais jornais, nas manchetes dos principais sites. Pelo que diz, pelo que dizem dele e por aquilo que o Flamengo tem vindo a fazer desde que Jesus aterrou no Rio. Há quem diga que o português está cada vez mais brasileiro. Mas a verdade é que é o Brasil que está cada vez mais rendido a Jorge Jesus.