Cristina Ovídio foi professora de português e trabalhou 15 anos em editoras livreiras, experiência mais do que suficiente para estar ao leme de um projeto como este. “Sempre tive o sonho de ter um espaço assim, de convívio e partilha, onde pudesse combinar os livros, a minha grande paixão, mas também bebidas e alguns petiscos”, começa por explicar ao Observador.

Inspirada nas livrarias de Paris e Copenhaga, abriu em 2017, no Cais do Sodré, a Menina e Moça, uma livraria que também é um bar. “A ideia foi trazer um bocadinho o espírito que tenho na minha própria casa.”

Cristina conta ter descoberto o Porto há uns anos à boleia do evento Correntes D’Escritas, na Póvoa do Varzim, mas só há seis meses é que encontrou junto ao Jardim Cordoaria, mesmo em frente à Cadeia da Relação onde Camilo Castelo Branco escreveu o famoso romance “Amor de Perdição”, a morada ideal para se instalar.

“O meu pai chegou a viver cá um ano, quando estudou engenharia, mas eu não tinha qualquer tipo de relação com a cidade. Quando comecei a vir mais frequentemente, apercebi-me da beleza das pontes, que têm tanto de trágicas como de românticas, das gaivotas e desta herança literária que o Porto tem.”

No espaço em Lisboa há um piano para concertos de jazz ao domingo, conversas culturais, sessões de poesia e lançamentos de livros. No Porto, a responsável quer fazer exatamente o mesmo. “O conceito vai manter-se, do mobiliário às cores vivas presentes na decoração”, revela ao Observador, acrescentando que o espaço foi arquitetado por Henrique Vaz Pato, as pinturas do teto e das paredes ficaram a cargo da ilustradora Mariana Rio, já as casas de banho têm elementos da cidade e figuras como Sophia de Mello Breyner ou Agustina Bessa Luís.

Numa altura em que são cada vez mais as portas do comércio tradicional a fechar na cidade, o mercado livreiro parece resistir à mudança dos tempos. Os alfarrabistas permanecem, a Livraria Lello continua a merecer longas filas de turistas à porta e, graças ao projeto Bairro dos Livros, há até um guia literário e um roteiro de visitas históricas a alguns espaços literários. É neste cenário que a Menina e Moça quer vingar e crescer, apesar do nome. Foi inspirado pela obra homónima de Bernardim Ribeiro, que sempre acompanhou a proprietária, e também por ser um fado de Carlos do Carmo que homenageia a capital. “Espero que seja entendido e bem recebido”, brinca Cristina Ovídio.

O que combina com livros? Vinhos e petiscos

Nas estantes do Menina e Moça no Porto vão estar à venda livros do acervo do cientista António Manuel Baptista, pai da mentora do espaço. Nele cabem todos os géneros literários, ficção, poesia, romances e até algumas edições infantis. Os exemplares são maioritariamente portugueses, pois a intenção de Cristina Ovídio é divulgar a literatura lusófona, mas também traduzir para outras línguas clássicos de Saramago, Pessoa ou Lobo Antunes, de forma a chegar ao público estrangeiro. “Queremos dar destaque aos ilustradores portugueses de livros infantis e temos como critério não ter best sellers, os chamados livros de ocasião ou de auto-ajuda”.

Para acompanhar a leitura, dentro de portas ou na esplanada, caso S. Pedro permita, pode pedir bebidas quentes, frias ou alcoólicas. O chá da casa tem limão, gengibre, hortelã e canela, já o cocktail homónimo da livraria contém bagaço, vinho do Porto, lima e água tónica. Há vinhos brancos, tintos, verdes e rosés portugueses servidos a copo ou em garrafa, sendo que o destaque vai para o vinho Saramago, original do Alentejo. Se a fome apertar, não se preocupe, o Menina e Moça tem tostas de presunto ou guacamole, tábuas de queijos com compota artesanal e bolo de chocolate sem glúten.

Não admire se encontrar uma caixa de correio com selos à entrada, é um convite para escrever uma carta ou um postal, regressar ao passado e esquecer as mensagens do telemóvel e os emails.

Rua Mártires da Pátria, 44, Segunda a domingo, das 12h às 02h. 22 243 6855