Quem o vê ao longe pode não o imaginar destemido. A figura, magro e baixo, a indumentária composta — com a camisa por dentro das calças — o bigode e a idade não denunciam que se trata de alguém que está a ser descrito como “um herói” pela imprensa e por muitos conterrâneos catalães. Na internet e nas ruas de Barcelona, José Frias, um reformado de 72 anos, está a ser enaltecido pela “coragem” que demonstrou ao opor-se a manifestantes irascíveis pró-independência da Catalunha.

A ação de José Frias ficou registada pelos jornalistas que deram a conhecer, esta sexta-feira, um cenário inesperado: um septuagenário a colocar-se entre o cordão policial e os manifestantes que atiravam objetos à polícia. Como relata o jornal El Español, que falou com este “herói” catalão de 72 anos, José “retirou com as suas próprias mãos sinais de trânsito” que haviam servido de armas de arremesso, “tirou aos [manifestantes] violentos alguns paus de ferro que tinham nas mãos” e deu um sermão aos rapazes e raparigas que “em vez de estarem a desfrutar da juventude, estavam a prejudicar Barcelona, a Catalunha e Espanha”. Terá utilizado mesmo um limpa pára-brisas para enfrentar os manifestantes mais revoltos, como aponta o El Confidencial.

A pergunta que se impõe foi feita pelo jornal El Español, que está a cobrir os protestos pró-independência que em Barcelona têm provocado diariamente dezenas de feridos: afinal, o que move este reformado de 72 anos que arriscou a pele para ajudar a travar a violência? Ele respondeu: “Quero paz. Se estes miúdos não param, o melhor é a Guarda Civil juntar-se à Polícia. E se fizer falta, que venha também o Exército. Tenho pena da minha terra”.

No sangue, José tem veia republicana. O pai lutou contra Franco na segunda metade dos anos 1930, antes de ter enveredado pelos negócios, abrindo um quiosque de jornais. Nascido na Catalunha, José trabalhou como administrativo toda a vida, primeiro numa empresa de têxteis, depois numa empresa de venda de material elétrico, segundo o El Español. Não tem filhos. Chegou a casar-se, mas a mulher “desapareceu uma noite e nunca mais soube dela, deixou-me”.

Esta sexta-feira, tornou-se uma celebridade nas ruas da Catalunha. As pessoas param-no para lhe agradecer. Foi uma noite longa: só terá chegado a casa, segundo diz, às 4h. Mas desde o início das manifestações que José garante que anda pelas ruas a travar “os miúdos que se empenharam numa coisa que sabem que não terão” — a autodeterminação do território catalão. Este sábado, tencionava fazer o mesmo. “Não tenho medo. Ponho-me à frente deles para que recuem e não cheguem aos polícias. A maioria respeita-me e diz-me que me afaste. Outros chateiam-se e gritam comigo”.

O projeto independentista notoriamente não o atrai. Ao El Español diz que “isso separa as pessoas e o que precisamos é de união”. Mas o que José quer mesmo, política à parte, é paz nas ruas.