Quem assistiu aos hakas que a seleção da Nova Zelândia realizou desde o início do Campeonato do Mundo, pode ter ficado com a ideia de que os jogadores dos All Blacks perderam ímpeto e garra. Quem assistiu ao haka que a seleção da Nova Zelândia realizou este sábado, antes do arranque do jogo dos quartos de final com a Irlanda, terá ficado com a ideia de que o ímpeto e a garra estavam guardados para a fase a eliminar.

Se este Mundial foi apresentado como um dos mais competitivos de sempre, devido ao ressurgimento de seleções como Gales e Irlanda e à desaceleração da Nova Zelândia, a verdade é que a Irlanda aparecia neste jogo dos quartos de final com toda a capacidade e legitimidade para eliminar os neozelandeses e seguir em frente na competição. Com poucos minutos de primeira parte, porém, depressa se percebeu que a tarefa seria bem mais complicada do que aquilo que seria de esperar: a Nova Zelândia aplicou desde logo uma pressão quase perfeita, empurrando os irlandeses para a própria metade do relvado e impedindo que se aventurassem pelos 22 metros adversários.

Aaron Smith assinou dois ensaios em seis minutos e a Nova Zelândia foi para o intervalo a ganhar por 22-0, também graças a um terceiro ensaio de Beauden Barrett, um dos três irmãos Barrett convocados para este Mundial. Na verdade, Beauden, Jordie e Scott tornaram-se o primeiro trio de irmãos a ser titular ao mesmo tempo pela Nova Zelândia ainda durante a fase de grupos, no encontro com o Canadá, e o primeiro trio de irmãos a ser titular ao mesmo tempo de forma global desde 1995 e desde Elisi, Manu e Fe’ao Vunipola, por Tonga. Mais do que o poderio ofensivo, os neozelandeses mostraram nos instantes finais do primeiro tempo — altura em que tiraram um pouco o pé do acelerador — que eram implacáveis a defender, não abrindo qualquer espaço às iniciativas irlandesas.

A Nova Zelândia voltou para a segunda parte com o mesmo ritmo e chegou ao quarto ensaio antes de que estivessem cumpridos sequer cinco minutos de jogo. Codie Taylor tornou-se o 16.º (!) jogador neozelandês a fazer um ensaio desde o início do Campeonato do Mundo e as estatísticas eram o espelho da superioridade dos All Blacks, já que por volta dos 60 minutos tinham apenas duas placagens falhadas contra 18 da Irlanda. Já depois da saída de Aaron Smith, Matt Todd ainda cumpriu um quinto ensaio, Robbie Henshaw assinou o ensaio de honra para os irlandeses e George Bridge e Jordie Barrett fecharam as contas já nos 10 minutos finais (46-14), garantindo a 19.ª vitória consecutiva da Nova Zelândia em Mundiais.

Os irlandeses, que viram ainda o histórico Rory Best despedir-se do râguebi internacional aos 37 anos, tiveram este sábado a prova de que este Mundial foi um ano mais tarde do que aquilo que teria de ter sido para terem sucesso: em 2018, a Irlanda foi a melhor seleção do mundo, teve as melhores individualidades do mundo e dominou os acontecimentos de forma geral. Mas passou um ano. E neste ano, a Nova Zelândia voltou a superar-se e a superiorizar-se, mostrando uma profundidade de plantel em que os substitutos poderiam facilmente ser suplentes em qualquer outra equipa.

A Nova Zelândia eliminou então a Irlanda e vai enfrentar a surpreendente Inglaterra nas meias-finais, no próximo sábado. Beauden Barrett, autor de um dos ensaios neozelandeses contra os irlandeses e melhor em campo, foi o único dos três irmãos a ser titular mas ainda viu Jordie e Scott entrarem em campo nos quartos de final do Mundial: e foram os melhores porta-vozes que a família mais representada no râguebi internacional podia pedir.