Já todos tivemos aquilo a que normalmente chamamos “experiências fora do corpo”. Ou seja, momentos tão emocionantes, quer positivos como negativos, em que parece que saímos do corpo físico e observamos de fora, quase como entidade empírica, a tudo o que está a passar diante dos nossos olhos. No futebol, esta “experiência fora do corpo” pode acontecer tanto com uma derrota — uma daquelas derrotas dolorosas, que vale uma eliminação ou o adeus a um título — como com uma vitória: uma vitória daquelas que garante uma conquista e causa arrepios com uma simples memória. Para Pedro Martins, treinador português do Olympiacos, a mais recente “experiência fora do corpo” aconteceu na noite desta quarta-feira, aos 23 minutos da receção ao Bayern Munique.

Nesse minuto, Tsimikas cruzou a partir da esquerda e a bola encontrou a cabeça de El-Arabi ao segundo poste, entrando dentro da baliza de Neuer ainda que o guarda-redes alemão tenha feito tudo para o evitar. Nesse minuto, o Olympiacos estava a ganhar em casa ao mais do que favorito Bayern Munique. A “experiência fora do corpo” de Pedro Martins, porém, durou apenas 11 minutos. Foi esse o tempo necessário a Robert Lewandowski para empatar a partida na Grécia, com um remate forte que não deu hipóteses a José Sá (34′). Além do guarda-redes, também os portugueses Podence e Rúben Semedo estavam no onze inicial grego, que foi para o intervalo a lutar para guardar um valioso empate que era também a esperança de continuar nas competições europeias.

Depois de ganhar ao Estrela Vermelha e golear o Tottenham nas duas jornadas anteriores, o Bayern precisava de confirmar uma terceira vitória para ter como praticamente garantida a passagem aos oitavos de final da Liga dos Campeões e até o primeiro lugar do grupo. Já o Olympiacos, que empatou com os spurs mas cedeu uma derrota aos sérvios, olhava para o golo de El-Arabi como uma bóia de salvação que poderia garantir a conquista de um importante ponto. Na segunda parte e em menos de um quarto de hora, contudo, o Bayern mostrou o porquê de durante muito tempo ter sido considerado uma máquina de fazer futebol e destruir adversários: Lewandowski bisou e confirmou a reviravolta (62′), tornando-se ainda o quinto melhor marcador de sempre da Liga dos Campeões, e Tolisso, que tinha entrado ao intervalo, puxou de um grande remate de fora de área para aumentar a vantagem (75′). Guilherme ainda reduziu (79′), relançando a partida e o marcador, mas o desgaste físico dos gregos e a evidente disparidade de qualidade individual e discernimento na hora da decisão acabou por favorecer os alemães (que levam 38 golos marcados em 13 jogos esta temporada).

Apesar da derrota — e do quase decisivo ponto que tem no grupo, tornando quase impossível a passagem aos oitavos e complexa a repescagem para a Liga Europa –, o Olympiacos saiu do jogo com o Bayern com uns convincentes 10 remates efetuados, três deles à baliza de Neuer e cinco dentro da grande área, uma eficácia de passe de 79%, 52 dos duelos ganhos e sete cantos conquistados, os mesmos que os alemães. Os gregos não perdiam em casa para as competições europeias há dez partidas consecutivas mas deram luta ao Bayern, que teve de se esforçar para dar a volta a um resultado surpreendente mas justificado. Pedro Martins, fora ou dentro do corpo, tem no Olympiacos uma equipa competitiva e bem montada, que não recusa uma batalha e olha de frente para os adversários: e que pode causar estragos na Liga Europa, se acabar por cair para a segunda competição europeia.