Da entrevista mais intimista à ITV (que foi seguida por outras menos “mediáticas”) à passagem pela zona mista do Olímpico de Kiev após marcar o golo 700 da carreira, a presença de Cristiano Ronaldo junto da imprensa tem sido um pouco mais assídua na presente temporada e essa tendência confirmou-se antes do encontro da Juventus para a terceira jornada da Champions. Quase um ano depois, o português voltou às conferências de antevisão. No final, 14 minutos depois, riu-se e questionou: “Nem uma pergunta sobre o Lokomotiv? Incrível!”.

O avançado falou um pouco de tudo, é certo. Das mudanças protagonizadas por Maurizio Sarri depois da saída de Massimiliano Allegri, das ambições pessoais à volta da Bola de Ouro, do que o deixa satisfeito e triste, da idade. E foi nestas duas últimas que mostrou como numa vida de números, de recordes e de marcas históricas, a felicidade pode ser obtida pelos pormenores não quantificáveis. “Quero ganhar com a Juventus e com Portugal. A idade não é importante, é só um número para mim. O que me deixa triste na vida? Fico magoado quando não dizem a verdade. No futebol há poucas coisas que me deixem zangado, é a indústria e faz parte do jogo. Estou neste mundo desde os 17 anos e sei bem o que vende. Todos podem criticar e exprimir opinião mas desde que se fale de futebol não tenho problemas. O que me deixa satisfeito? Ganhar, voltar para casa e ver os meus filhos felizes. Esta é a minha motivação para entrar em campo e dar sempre o máximo”, resumiu o madeirense.

Depois de um início de época mais discreto, com apenas um golo nas primeiras três jornadas da Serie A (com duas vitórias e um empate), o português reassumiu o protagonismo na Juventus: entre os sete golos apontados só em quatro partidas pela Seleção, tinha marcado em quatro dos cinco últimos encontros pela Vecchia Signora, numa clara identificação mais próxima da equipa com a ideia de j0go de Sarri: “Melhorámos, estou muito contente. Fizemos um grande trabalho com Allegri mas com Sarri melhorámos. A minha posição mudou um pouco, tento sempre ocupar zonas do campo em que me sinto melhor. Gosto de ter liberdade de movimentos”.

E o português, aquele que é “diferente de todos os outros porque consegue fazer golos de todas as formas e feitios” segundo a opinião do seu treinador Maurizio Sarri, teve de facto essa liberdade de movimentos mas sem que isso resultasse em efeitos práticos: Ronaldo surgiu mais solto, a pisar outras áreas, a arriscar até o 1×1 a sair de forma orientada para procurar a carreira de tiro que tentou aos 16′ e as 21′, ambas para defesa de Guilherme. E se a Juve não teve propriamente uma primeira parte de sonho, o Lokomotiv apresentou-se de forma bem organizada e a ser capaz de ameaçar a baliza dos visitados até com sucesso: num pontapé de baliza na direção de Éder que acabou por bater no relvado sem qualquer toque, Miranchuk assistiu João Mário, o remate do português foi bem travado por Szczęsny mas o mesmo Miranchuk conseguiu fazer a recarga que fazia o resultado ao intervalo (30′).

No segundo tempo, com Higuaín a entrar cedo para o lugar de Khedira, a Juventus tentou apertar um pouco mais o conjunto russo mas nem por isso criou grandes oportunidades numa equipa onde João Mário foi um dos grandes destaques (Éder também jogou de início, estando mais amarrado a obrigatoriedades defensivas do que no plano ofensivo). Pelos corredores laterais, os caminhos estavam tapados; na área, o físico do setor recuado russo fazia a diferença. Os minutos passavam e, a 15 minutos do final, o Lokomotiv continuava a vencer em Turim.

Foi aqui que entrou em cena “A Jóia”, Paulo Dybala: podendo ocupar terrenos um pouco mais recuados com a entrada de Higuaín, o argentino empatou o encontro com um fantástico golo de pé esquerdo fora da área que deixou Guilherme sem reação (70′) e, três minutos depois, apontou mesmo o 2-1 na área numa recarga a defesa incompleta do guarda-redes brasileiro após remate também de fora da área de Alex Sandro (80). O conjunto russo quebrou em definitivo a (boa) resistência que foi dando e Ronaldo ainda teve oportunidade de alargar a vantagem. Não conseguiu. Mas nem por isso deixou de sair satisfeito com o resultado que reforçou o estatuto de jogador com mais triunfos obtidos em encontros a contar para a Liga dos Campeões.