Portugal deixa, na terça-feira, de pertencer ao “clube” dos países da União Europeia (UE) sem extrema-direita no parlamento (Irlanda, Luxemburgo e Malta), após a eleição do deputado do Chega André Ventura, nas legislativas.

André Ventura, conhecido por ser adepto e comentador televisivo de um clube de futebol, o Benfica, com uma carreira política curta, depois de uma experiência autárquica, eleito vereador pelo PSD, em Loures, foi o último dos deputados do círculo de Lisboa a ser eleito na noite das eleições.

Ao todo, o Chega, que se define como conservador, obteve, no continente e ilhas, mais de 66 mil votos, 22 mil dos quais no distrito de Lisboa.

A extrema-direita europeia já está presente na quase totalidade dos parlamentos nacionais dos Estados-membros da UE, agora com a exceção da Irlanda, do Luxemburgo e de Malta.

Os partidos sob a denominação de extrema-direita são muito heterogéneos, incluindo populistas, nacionalistas, ultraconservadores e até neonazis, e cresceram nos países da UE a partir da combinação da crise económica, as migrações, o descrédito na política e a desconfiança nas instituições.

Sozinhos ou em coligação, partidos de extrema-direita não só entraram na grande maioria dos Parlamentos nacionais como conseguiram subir ao poder em nove países europeus.

Partidos considerados de extrema-direita governam sozinhos na Polónia, Hungria e República Checa e em coligação em Itália, Áustria, Finlândia, Letónia, Eslováquia e Bulgária.

Além disso, na Dinamarca, o Partido do Povo Dinamarquês dá apoio pontual ao partido do Governo e em França o partido de Marine Le Pen ganha terreno.

A Câmara dos Comuns, no Reino Unido, não tem representantes da extrema-direita, apesar de o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) estar representado na Câmara dos Lordes.

Finlândia e Itália já tiveram governos de coligação com a extrema-direita, mas esses executivos caíram.

Extrema-direita recebida no parlamento entre o silêncio e o ataque frontal

Os partidos com representação parlamentar receberam com um misto de ataque frontal e silêncio a entrada de uma força de extrema-direita no parlamento, o Chega.

A agência Lusa questionou diretamente nove dos partidos com assento parlamentar (PS, PSD, BE, PCP, CDS, PAN, CDS, PEV, Iniciativa Liberal e Livre) sobre se a entrada da extrema-direita na Assembleia da República, com o deputado André Ventura, do Chega, após as legislativas de 6 de outubro, é um desafio ou uma ameaça.

As respostas dos partidos, dadas maioritariamente pelos grupos parlamentares, têm um tom diferenciado, entre o silêncio do PCP, PSD e CDS e a crítica frontal do Bloco de Esquerda e do Livre.

Numa resposta por escrito à Lusa, o Bloco considerou o deputado do Chega, André Ventura, “uma fraude política”.

Ainda há dois anos apoiava o governo de Passos Coelho e da ‘troika’ e os cortes de salários e pensões. É um político que, mudando de discurso como quem muda de camisa, alia ao discurso xenófobo da extrema-direita um programa de entrega de bens públicos – como a saúde ou a segurança social – aos grupos financeiros”, lê-se na resposta do BE.

Já o partido Iniciativa Liberal, que se estreou com um deputado, deu uma resposta em que se distancia de todas as “estratégias identitárias” e que usem “o ressentimento” de minorias contra maiorias e vice-versa.

A Iniciativa Liberal distancia-se de todas as forças que usem estratégias identitárias para afirmação política, sejam os que usam o ressentimento de algumas minorias em relação à maioria como os que usam o ressentimento da maioria em relação a algumas minorias. A nossa política é de crescimento e não de ressentimento. Somos o partido que defende a mais pequena e mais importante minoria de todas: o indivíduo”, escreveu, na resposta escrita à Lusa, o líder da IL, Carlos Guimarães Pinto.

Logo na noite das legislativas, a deputada do Livre, Joacine Katar Moreira, afirmou que “não há lugar para extrema-direita no parlamento”, salientando que o seu partido será “a esquerda anti-fascista e anti-racista”.

Questionada pela Lusa, considerou, numa resposta por escrito à pergunta, que mais do que “um desafio ou ameaça” a entrada da extrema-direita no parlamento “é um alerta”.

“O voto em partidos que hoje representam aquilo que de pior se viveu na Europa e no Portugal do século XX, aliado ao crescimento da abstenção, é um sintoma das políticas que afastaram os cidadãos das instituições”, começou por responder.

Portugal não estava imune à onda xenófoba a que assistíamos lá fora, faltava era o títere que representasse essa frustração, também consequente de anos de forte austeridade e desemprego. Esta política extremista que divide, exclui, e mata, deve ser combatida contundentemente por qualquer democrata e, em nosso ver, através de políticas progressistas, uma opinião pública esclarecida, e de uma reaproximação dos cidadãos à política”, concluiu.

Três partidos – PS, PSD e CDS – não responderam à questão colocada pela Lusa e o PCP optou por não responder.

Já o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) também não respondeu, mas remeteu para um comunicado da comissão executiva divulgado na semana passada, em que mostrou “grande preocupação perante um crescimento alarmante da vertente populista de candidaturas e campanhas eleitorais e a sua valorização pelos media”.

Pelo PS, na noite das legislativas, o líder do PS, António Costa, recusou entendimentos com o Chega.

“Nós não contamos com o Chega para nada”, vincou Costa, numa resposta que foi aplaudida pelos apoiantes do partido, enquanto entoavam “fascismo nunca mais”.