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Danilo Mello é mais um dos milhões de adeptos do Flamengo que se deixou levar pela onda de vitórias consecutivas e não demorou a garantir bilhete num Maracanã que não demorou a esgotar para a segunda mão das meias-finais da Taça dos Libertadores mas, como o futebol é só a coisa mais importante das coisas menos importantes na vida, decidiu leiloar a sua entrada para poder suportar o tratamento de um cancro diagnosticado ao seu cão, Doze. Assim foi, conseguindo a verba necessária para a dispendiosa operação. Poucos dias antes do jogo, uma marca de cerveja que tomou conhecimento da história decidiu fazer uma surpresa e foi a casa de Danilo deixar um ingresso para o jogo. E um grupo criado para ajudar o Doze já tinha quatro vezes mais do que era necessário em doações entregues por anónimos sensibilizados com o gesto de um adepto que colocou o cão à frente de tudo.

Jesus tem um sósia mas não há nada como o original: Flamengo empata (com três golos anulados) nas meias da Libertadores

Esta terça-feira, na antecâmara deste Flamengo-Grémio que se tornou o jogo do ano por promover o regresso de uma equipa brasileiro à final da competição mais importante de clubes da América do Sul, a Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu pelo menos 20 suspeitos que estavam a planear uma invasão ao Maracanã por altura da partida, numa investigação que foi monitorizando conversas em grupos de redes sociais que estavam a combinar, além da falsificação de bilhetes, assaltar os adeptos que fossem encontrando até acederem ao interior do recinto. Ao longo do dia, foram feitas inúmeras buscas e detenções preventivas, além do reforço das entradas em causa com cerca de mil efetivos para garantir que nada passaria à prática numa noite em que todos os olhos estavam no espaço desportivo mais emblemático dos cariocas – e teve de haver recurso a bombas lacrimogéneo para garantir que nenhuma confusão passava a barreira de acesso ao Maracanã.

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Estas foram apenas duas histórias paralelas num autêntico livro que se foi montando em torno da receção do Flamengo ao Grémio, ainda mais depois do empate a um golo em Porto Alegre há três semanas. Ponto comum? Essa parte de haver uma espécie de justiça divina pelas ações e pelo timing. Uma justiça divina que, das bancadas para o relvado, era apontada também ao conjunto de Jorge Jesus antes do apito inicial – até porque, durante esse caminho até às meias, os rubro-negros estiveram em risco de cair da competição depois da derrota por 2-o fora com o Emelec (que venceriam na segunda mão após desempate por grandes penalidades). Uma justiça divina que não tem nada de milagre, que aumentou a fé dos adeptos e que tem Jesus no centro de tudo.

Apesar da densidade competitiva acima até do que se passa na Europa (porque quando as seleções jogam as provas nacionais não param), o Flamengo não só conseguiu aumentar a vantagem na liderança do Campeonato para dez pontos em relação ao perseguidor Palmeiras (e 13 do Santos) como estava a 90 minutos de pela segunda vez na sua história atingir a final da Taça dos Libertadores, repetindo o feito da equipa vencedora de 1981 que tinha Zico como a principal referência. O mesmo Zico que, antes do jogo, se desfez em elogios ao técnico português, aquele que é cada vez mais reconhecido até pela forma como continua de dedo em riste a dar indicações a ganhar.

“Conseguiu implementar no Flamengo aquilo que os adeptos querem: uma equipa ofensiva, que jogue para ganhar, que faça marcações incessantes. É por isso que os adeptos estão de volta. Por isso, está de parabéns porque a torcida andava meio esquisita com a equipa. Muitos jogadores estavam na sua zona de conforto e o Jesus tirou isso tudo, agora o Flamengo está a jogar o melhor futebol no Brasil. Sou grato a um treinador estrangeiro que me lançou no Flamengo: Don Fleitas Solich, que ganhou o apelido de Feiticeiro, lançou o Tita no Flamengo. O Jorge Jesus veio para fazer um belo trabalho. Já o conhecia da Europa, comentei vários jogos de equipas dele na Champions. Recebeu-me muito bem quando visitei a Academia do Sporting, que é maravilhosa”, comentou à Rádio Tupi um dos maiores ídolos do Flamengo que tem também ligações familiares a Portugal.

Essa é a veia portuguesa em comum na ponte de 38 anos entre a presença do Mengão na final da Libertadores. E se Zico ficará para sempre como uma das maiores glórias do clube, a química que existe entre o técnico e os adeptos começa a ser um case study. Mais: camisolas com a inscrição “Mister” à parte, basta ver o exemplo do sósia do técnico, que tem agora como objetivo perder peso para ficar ainda mais parecido com o português, para se perceber o número de fiéis ao Jesusball que nos últimos 18 jogos ganhou 15, empatou três e leva 41-8 em golos. Em termos coletivos, individuais, técnicos e físicos, o Flamengo deu um salto brutal com a mudança no banco mas foi nas bancadas e no ambiente criado no Maracanã que começou a vitória dos cariocas frente ao Grémio (5-0).

Como nem tudo se pode controlar, os 20 minutos iniciais ainda trouxeram uma imagem enganadora de equilíbrio no encontro face à ansiedade dos visitados, com alguns passes falhados que iam anulando as tentativas ofensivas da equipa. Gabriel Barbosa, num cabeceamento após cruzamento do regressado Arrascaeta da direita, deixou o primeiro sinal de perigo (10′) antes de Maicon ter a melhor oportunidade para o Grémio, numa defesa incompleta para a frente de Diego Alves após centro de Everton que o médio do conjunto de Porto Alegre atirou depois à figura do guarda-redes contrário quando este continuava ainda no chão (19′).

A partir desse momento, tudo foi mudando. Com muitas nuances táticas já vistas antes no Benfica e no Sporting, como a colocação de Arão no meio dos centrais em fase de construção a partir de trás; os posicionamentos mais interiores de Everton Ribeiro e Arrascaeta; a subida dos laterais Rafinha e Filipe Luís para dar profundidade ao ataque; e a ordem de explosão de Bruno Henrique e Gabriel Barbosa entre linhas ou nas costas da defesa, o Fla começou a agarrar no jogo e encostou o Grémio (que teve apenas o “prémio” de condicionar a margem de manobra de Gerson no centro) ao seu meio-campo, ficando perto do 1-0 num cabeceamento de Bruno Henrique a rasar o poste (27′), num cruzamento remate de Arrascaeta (35′) e num remate na área de Gabriel Barbosa para defesa apertada de Paulo Victor (40′). Só faltava mesmo o golo, que surgiu a dois minutos do intervalo: Everton Ribeiro conseguiu roubar a bola a Maicon, e Bruno Henrique começou e acabou a jogada, tendo lançado Gabriel Barbosa para fazer depois a recarga à defesa incompleta do desamparado Paulo Victor.

O Flamengo tinha muito mais bola (63%), tinha quatro vezes mais remates (9-2) e mais do triplo dos passes com sucesso (202-60). Em condições normais, e com a eliminatória em 2-1, o provável era que se visse um Grémio a entrar forte para chegar ao empate e relançar a eliminatória. O que se viu? Um autêntico atropelo do Flamengo logo a abrir, que decidiu o que havia ainda por decidir em pouco mais de dez minutos: já depois de um lance com perigo cortado para canto com apenas 35 segundos disputados, Gabriel Barbosa justificou a alcunha de Gabigol e fez o 2-0 com uma bomba na área de pé esquerdo (46′), bisando dez minutos depois numa grande penalidade cometida pelo capitão Geromel (ex-Desp. Chaves e V. Guimarães) sobre Bruno Henrique.

A cara de Renato Gaúcho, técnico do Grémio que ainda tentou “picar” Jesus nas últimas semanas até perceber que daqui não iria ganhar nada, dizia tudo. E como se não bastasse a cara, o facto de se ter sentado no banco quase que deu o mote para uma rendição que terminaria numa goleada histórica em confrontos entre ambos no Maracanã… e com Renato Gaúcho já a assistir incrédulo ao rolo compressor que estava a atropelar a sua equipa de pé com as mãos na cintura: Pablo Mari (67′, após canto de Arrascaeta) e Rodrigo Caio (depois de um livre lateral de Everton Ribeiro, 71′) fizeram o 5-0 final, numa goleada com contornos de humilhação onde a banda sonora passou do já habitual “Olê, olê, olê, olê, mister, mister” para simples “olés” que coroaram uma noite de sonho que vai colocar o Flamengo na final da Taça dos Libertadores para defrontar os argentinos do River Plate.