Um tribunal de Bangladesh condenou esta quinta-feira 16 pessoas a pena de morte pelo assassinato de Nusrat Jahan Rafi, uma estudante de 19 anos que em abril foi queimada viva na sua escola depois de denunciar o diretor por assédio sexual. “O veredito prova que ninguém se vai safar se cometer assassinatos no Blangladesh. Temos um estado de direito”, sublinhou Hafez Ahmed, um dos procuradores, citado pelo The Guardian.

Segundo as autoridades, o assassinato de Nusrat, que morreu cinco dias depois com queimaduras em 80% do corpo, foi coordenado pelo diretor da escola a partir da prisão, depois de a jovem se ter recusado a retirar as acusações de assédio que tinha feito contra ele. Foi, nas palavras da polícia, tudo preparado através de um “plano militar”. Em maio, estas 16 pessoas tinham sido acusadas de homicídio, tendo o chefe da polícia de investigação confirmado que as acusações foram apresentadas com base “nos testemunhos de 92 pessoas”. Já aí as autoridades defendiam “a aplicação de pena máxima”.

O caso chocou o país e originou protestos em massa no Bangladesh, onde muitas das vítimas de assédio sexual se mantêm em silêncio com medo de repressões da sociedade e da família. Pedia-se uma “punição exemplar” e o primeiro-ministro tinha prometido apanhar todos os envolvidos.

Nusrat denunciou o crime a 27 de março junto dos seus familiares e da polícia, argumentando que o diretor a chamou ao seu gabinete e a tocou de forma inapropriada. Pouco tempo depois, um grupo de políticos e estudantes organizou uma manifestação e culpou a rapariga, exigindo a libertação do agressor. Quando, 11 dias depois, Nusrat Jahan regressou à escola para realizar os exames finais, foi cercada no telhado da escola por um grupo de pessoas que exigiu a retirada da queixa contra o diretor. Quando Nusrat recusou, os agressores lançaram fogo à jovem com querosene. 

A intenção era fazer com que tudo parecesse um suicídio. No entanto, e depois de o grupo ter fugido, Nusrat foi levada para o hospital. Na ambulância, gravou uma declaração com o telemóvel do irmão antes de morrer. “O professor tocou-me. Vou lutar contra este crime até ao meu último suspiro”, ouve-se na gravação. A rapariga identificou ainda os agressores como estudantes da sua escola.

Nusrat morreu no dia 10 de abril e milhares de pessoas foram ao seu funeral, na pequena cidade de Feni. Depois deste caso, o Bangladesh obrigou a cerca de 27 mil escolas a criar equipas de prevenção contra a violência sexual. Os advogados de defesa destas 16 pessoas revelaram, entretanto, que vão pedir recurso sobre a decisão.