O encontro já tinha passado do primeiro quarto de hora da segunda parte e Noel Gallagher, antigo vocalista dos Oasis e fã mediático número 1 do Manchester City, ainda andava de pé no seu camarote no Ettihad Stadium. Na esquerda, Kevin de Bruyne cruzou em arco, a bola atravessou uma floresta de pernas e acabou por entrar mesmo na baliza do Aston Villa, num lance que mereceu uma demorada análise do VAR mas que foi considerado depois de se concluir que ninguém em posição irregular tinha tocado. Estava feito o 2-0, estava acabado o jogo.

Depois do inesperado 9-0 do Leicester fora ao Southampton que abriu a jornada (maior goleada de sempre desde que há Premier League nos atuais moldes), que permitiu ao conjunto de Ricardo Pereira subir de forma provisória ao segundo lugar, o Manchester City entrava obrigado a ganhar na receção a um conjunto de meio da tabela mas que fez um enorme investimento na presente temporada para assinalar o regresso ao primeiro escalão. E, mais uma vez, havia aquela dúvida que consiste na maior fronteira atual entre Liverpool e City nos jogos em casa: nos reds, a dúvida é por quantos ganha; nos citizens, a melhor versão acaba sempre em goleada mas existe uma pior que dá uma certa margem aos adversários de poderem surpreender – como aconteceu com o Wolverhampton.

Na primeira parte, a pior versão do City superiorizou-se à melhor e até foi o Aston Villa a beneficiar das melhores oportunidades, com Ederson a brilhar na baliza com as mãos antes de voltar também a fazê-lo com os pés: logo no arranque do segundo tempo, um pontapé longo do brasileiro a uns 60 metros não foi cortado da melhor forma pela defesa dos visitantes e Raheem Sterling, quem mais, inaugurou o marcador (46′).

Como explicava esta semana o The Guardian, o crescimento recente do avançado inglês em termos goleadores é tudo menos obra do acaso e tem uma referência: Romário, o brasileiro campeão mundial de seleções em 1994 que foi companheiro de Pep Guardiola na década de 90 em Barcelona. “Naquela era do Dream Team, sempre que via o Romário de costas para os defesas, nunca lhe dava a bola, mas no instante em que o via dar meia e pensava que poderia arrancar, passava de imediato”, explicou uma vez em entrevista o treinador catalão.

“Queríamos que ele ficasse muito mais perto da marca do penálti porque era como se ele estivesse com medo do golo. Queríamos que ele se tornasse o tipo de jogador que marcaria um golo por jogo, que gerasse uma ameaça de golo constante. Precisava acreditar nele, acreditar que podia ser melhor. Hoje ele mudou alguns maus hábitos que tinha ao longo da sua caminhada, onde jogou muito por dentro ou na ponta esquerda”, acrescentou à publicação Mikel Arteta, antigo médio espanhol que está agora como adjunto do City.

Sterling está longe de ser um novo Romário. Aliás, pelas próprias características físicas e de jogo de ambos, nunca serão comparáveis. Mas se o estilo é diferente, a forma como marcam golos começa a assemelhar-se e o inglês deu mais um exemplo disso mesmo diante do Aston Villa, tendo marcado o 13.º golo em 14 encontros pelo City na presente temporada entre Premier League, Liga dos Campeões, Taça da Liga e Supertaça de Inglaterra. Um golo que acabou por abrir espaço para o triunfo do bicampeão inglês, confirmado com os golos de Kevin de Bruyne (sendo que assim se chegou a pensar que poderia ser de David Silva, que se tornou o jogador do City com mais encontros feitos na Premier League) e de Gundogan, apenas cinco minutos depois do 2-0.