A receita não tinha como dar errado. A mais de uma hora do início do desfile, marcado para as 18h desta sexta-feira, já Diogo Miranda nos dizia: “Acho que esta é a minha coleção mais romântica”. O bom tempo brindou o Porto e convidou o criador a apresentar a coleção do próximo verão na margem do Douro, numa passerelle improvisada rente ao edifício da Alfândega. O cenário parecia encomendado — a serenidade do rio conjugada com uma luz difundida pela hora, ali entre o pôr-do-sol e o lusco-fusco.

Coincidentemente, a inspiração do designer para a coleção foi, também ela, cinematográfica. A figura de Tilda Swinton, silhueta eternamente esguia, clássica e sofisticada, no filme “I Am Love”, foi o mote de um desfile onde sobressaíram várias tonalidades de azul, o bege, um rosa tímido, os verdes, um amarelo e um laranja intenso, este último especialmente refrescante naquela que é a paleta habitual do designer. É bom recordar que, na última estação, a referência tinha sido Catherine Deneuve no filme “Indochina”.

Diogo Miranda © Cristóvão Costa/Observador

Porém, agora, a protagonista de Luca Guadagnino não foi o único ponto de partida, a arquitetura presente no filme também ajudou a pintar a coleção. Com o trabalho dos volumes — essa sim, a assinatura de Diogo Miranda —, a personalidade da coleção veio ao de cima. Cinturas sustidas evidenciaram as curvas naturais do corpo feminino, viram-se mangas abalonadas, laços, punhos e golas de renda e decotes que deixaram os ombros a descoberto. O vestido foi a peça central. Num modelo preto, a determinação de uma femme fatale, num azul bebé, a inocência de Alice no País das Maravilhas.

Nycole: um homem sabe o que quer e uma designer também

Tânia Nicole abriu o terceiro e penúltimo dia de desfiles na Alfândega do Porto. A coleção “Boruca” foi uma surpresa. A designer surgiu focada num guarda-roupa casual, assente em peças de design mais limpo e versátil, deixando cair para segundo plano o registo streetwear que a caracteriza desde o primeiro dia. “Não vou dizer que não as cores não são tendência, mas não quis que as peças fossem demasiado marcadas, quis que fossem mais intemporais. Tendo em conta os homens enquanto clientes, que tradicionalmente compram menos e melhor, talvez não vão optar por peças tão ousadas”, explicou a criadora ao Observador.

Para esta nova fórmula — que, tudo indica, será a Nycole daqui em diante — a jovem designer convocou uma mistura de materiais, elementos de alfaiataria e, claro, a cor. Uma harmonia improvável de laranja, vermelho e azul intercalados com bege,branco, preto e um verde esbatido. Aí, sobretudo nos tons mais vibrantes, entra a inspiração da coleção, uma tribo perdida na Costa Rica, cujo folclore inclui máscaras e tecidos exuberantes. Quanto a materiais, o destaque vai para os termacolados e para o aproveitamento de tecidos que a criadora tinha no atelier.

Nycole © Cristóvão Costa/Observador

“Se calhar também estou a preocupar-me mais com coisas que antes não me preocupavam tanto”, admite. A coleção apresentada esta sexta-feira foi mais pequena, para além das claras diferenças nas silhuetas (embora tenhamos sempre as sweatshirts a fazer lembrar o ADN da designer). Sem querer vincular a marca a um compromisso de sustentabilidade, há na criadora, sobretudo, um despertar de consciência e, consequentemente, uma vontade de mudar.

“É muito ingrato fazer roupa para um desfile. Os manequins não têm uma estatura normal. As calças então, ficam quase todas em casa. Aqui, não me senti à vontade para estar a fazer mais de 30 coordenados para depois ficar com peças a mais. Tenho de ser mais comedida e consciente e o mercado da moda tem de dar uma volta. Não podemos estar sempre a mandar coisas cá para fora”, refere. Em junho deste ano, Tânia Nicole apresentou esta mesma coleção num showroom em Paris. O principal cliente da designer está no Japão, os negócios estão quase todos fechados. Fala ainda numa mudança de estratégia na própria marca. “Eu própria começo a não me identificar com este sistema de, de seis em seis meses, estar a lançar uma coleção cá para fora”, conclui.

Entre tramas e fatos, o desfecho do dia

Depois de terem passado por Londres e por Paris, Sophia Kah e Hugo Costa, respetivamente, marcaram presença no Porto para antecipar a próxima estação quente. Ela segue galopante na sua cavalgada pelos areais da Comporta, ele continua investido em criar um guarda-roupa sem género, onde a versatilidade das peças está em evidente crescendo, de estação para estação.

Este penúltimo dia de Portugal Fashion contou ainda com o desfile da Pé de Chumbo de Alexandra Oliveira. Com mais de duas décadas de história, estas tramas tornaram-se a sua imagem de marca, ao mesmo tempo que, pela sua força e peculiaridade, tornam mais difícil a tarefa de renovar as propostas a cada estação. Difícil, contudo, possível. A coleção apresentada, Alexandra usou a moda para retratar um dos flagelos do momento: o declínio da floresta tropical. Dos verdes e dos tons terra, a criadora partiu para os vermelhos das chamas, para, no final, os pretos e brancos reavivarem a imagem de uma paisagem destruída.

Pé de Chumbo © Cristóvão Costa/Observador

As silhuetas surgem mais sofisticadas. Da fluidez dos vestidos de festa à informalidade de camisolas relaxadas e confortáveis, da sobreposição dos fios, Alexandra Oliveira cria texturas cobiçadas um pouco por todo o mundo. O xadrez, criado com fitas de organza, os fios metálicos e as franjas destacaram-se como elementos estrela.

Quem também desfez as malas, depois de, pela primeira vez, se ter apresentado no calendário oficial da Semana da Moda de Milão, em junho passado, foi Miguel Vieira. A um mestre, pouca coisa se ensina. Resta-lhe ir moldado as criações e a forma como as apresenta às inspirações e referências do momento. Num desfile marcado pela alfaiataria masculina, onde as mulheres estiveram em clara minoria, o criador apresentou um verão sublimado por verdes menta, petróleo e esmeralda, rosa, bege, azul e bordeaux e por padrões audazes que continuam a redefinir o homem de Miguel Vieira. O final foi triunfal. Os manequins regressaram à passerelle, qual esquadrão, guiados por três manequins internacionais: Maria Miguel, Isilda Moreira e Alécia Morais.

Miguel Vieira © Cristóvão Costa/Observador

Sábado é o quatro e último dia da edição número 45 do Portugal Fashion. O dia começa às 11h, com Marques’Almeida na Fundação de Serralves. Alexandra Moura, Susana Bettencourt, Maria Gambina e Alves/Gonçalves são os nomes mais aguardados no edifício da alfândega. Na fotogaleria, fique os momentos altos do terceiro dia.

O Observador viajou para o Porto a convite do Portugal Fashion.