Há quatro décadas que Alberto Fernández não abandona aquele bigode. Era ainda jovem quando decidiu mantê-lo em homenagem a Litto Nebbia, pai do rock n’roll argentino, que lhe deu aulas de violão. Quase tão antigo quanto esse bigode é a ligação de Alberto Fernández ao peronismo, uma ideologia que fez mover, mas sempre nos bastidores, há 30 anos. Agora vai sair das sombras. E após ser eleito presidente da Argentina este domingo, Alberto ressuscita o espírito de Juan Domingo Perón à frente do país.

O amigo de Lula que irrita Jair Bolsonaro

A notícia não agradou a Jair Bolsonaro, que a partir de Brasília — a qualquer coisa como 2.500 quilómetros de Buenos Aires, capital argentina e terra natal de Alberto Férnandez — torcia o nariz ao novo homónimo do país vizinho. “É uma afronta à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro. Ele está a afrontar o Brasil de graça”, acusou após se recusar a congratular o novo presidente da Argentina, segundo a Folha de São Paulo.

Uma visita ao Twitter de Alberto Férnandez esclarece os motivos das palavras de Jair Bolsonaro. É que o novo presidente da Argentina foi eleito no mesmo dia em que Lula da Silva, de quem Alberto Férnandez é amigo, celebrou 74 anos. E o líder não deixou passar a coincidência em branco: logo após ter agradecido a vitória com 48% dos votos, publicou uma fotografia em que desenha um “L” com o indicador e o polegar da mão esquerda — um símbolo do movimento que pede a libertação do antigo presidente do Brasil, Lula da Silva.

A fotografia vinha acompanhada da descrição: “Também hoje faz anos o meu amigo Lula, um homem extraordinário que está injustamente preso há um ano e meio. Parabéns para si, querido Lula. Espero ver-te em breve”. A finalizar a mensagem, uma hashtag: #LulaLivre.

Jair Bolsonaro não gostou da mensagem, tanto que ameaçou “tomar alguma decisão em defesa do Brasil”, continua o Folha de São Paulo. Mas também admitiu que não pode ir muito longe nos incidentes diplomáticos com o vizinho do lado. “A Argentina, em grande parte, faz comércio com o Brasil. Não queremos romper nada. Se houver algo contundente, buscaremos conversar com a Argentina para, de facto, saber qual é a posição deles. Não vamos fechar as portas”, suavizou em declarações aos jornalistas.

A amizade com os Kirchner que o impulsionou à presidência

Alberto Férnandez sabe que se pode sentar confortavelmente no cadeirão da presidência argentina. A antiga presidente do país, Cristina Kirchner, é agora vice na Casa Rosada e amiga de longa data de Alberto Férnandez.

Cristina, o marido Néstor e Alberto conhecem-se deste os tempos da faculdade por intermédio Eduardo Valdés. Os dois davam aulas de Direito da Universidade de Buenos Aires em 1997. Seis anos mais tarde, Alberto impulsionaria a candidatura de Néstor Kirchner à presidência em 2003, rosto de um peronismo à esquerda que contrastava com o de direita de Carlos Menem — que levaria a melhor.

Segundo a BBC, ainda antes de estabelecida essa amizade, Alberto Férnandez admirava o trabalho de Néstor enquanto governador de Santa Cruz. Dirigiu-se então a Eduardo Valdés, de quem se aproximou por trabalharem juntos de segunda a quinta, para o apresentar ao casal Kirchner: “Apresenta-me ao Néstor, quero conhecê-lo”. Também Néstor nutria o mesmo interesse por Alberto. Após ter lido um artigo dele num jornal, pediu a Eduardo: “Este é o teu amigo de que me falaste? Convida-o para jantar”.

Alberto e Néstor tornaram-se colegas no Calafate, um grupo político progressista que tinha por objetivo dar uma lufada de ar fresco ao peronismo e reposicioná-lo como uma oposição às políticas de Carlos Menem. A oportunidade perfeita surgiu em 2001, quando o então presidente argentino decidiu reter as poupanças por um ano para fazer frente à dívida pública. Néstor Kirchner surgiria como imagem da alternativa ao menemismo. Entre ele e Alberto, a aproximação profissional transformava-se em amizade.

Era uma daquelas amizades em que uns visitavam a casa dos outros. Estanislao Fernández, filho de Alberto, agora 24 anos — uma estrela do Instagram por causa das transformações drag queen, das máscaras cosplay e dos streamings do jogo League of Legends —, disse numa entrevista que Néstor e Cristina são “como tios” para ele: “Cresci com o Néstor e a Cristina a vir a minha casa. A Cristina sempre foi amorosa comigo. Nos anos em que o meu velho trabalhava na Chefia de Gabinete, separado da minha mãe, ia sempre buscar-me à escola, sem guarda compartilhada, sem nada”, recordou o jovem, segundo a BBC.

A mãe de Estanislao é Marcela Luchetti, ex-mulher de Alberto desde 2005. Entretanto, o novo presidente da Argentina, 60 anos, voltou a casar com Fabiola Yáñez, de 38 anos, jornalista com trabalhos publicados na CNN, colunista do programa de televisão Incorrectas e comentadora da rubrica Común y Corriente da Radio 10. Fabiola é também atriz e, no início do ano, participou na comédia “Otra vez Papá”.

Zangam-se as comadres… mas fazem as pazes pelo peronismo

A amizade entre Alberto e os Kirchner não seguiria imaculada até à atualidade, no entanto. Quando Cristina Kirchner chegou à presidência da Argentina, Alberto Fernández era chefe de gabinete mas demitiu-se ao fim de oito meses quando a presidente aprovou uma resolução que permitia ao Estado reter uma parte da receita das empresas exportadoras de soja. Alberto não gostou, afastou-se e tornou-se crítico de Cristina. A amizade fragmentava-se. O peronismo também.

Estávamos em 2008. Dez anos depois, é precisamente a necessidade de reunificar o peronismo que serve de cola para a amizade Férnandez-Kirchner. Cristina sabia, porque as eleições ao Senado em 2017 já o tinham evidenciado, que não tinha capacidade para, sozinha, reavivar a ideologia vinda de Juan Domingo Perón. E Alberto Férnandez já tinha um plano em andamento quando abriu um think tank com sangue novo para reestruturar a liderança do peronismo. Juntou-se o útil ao agradável.

Esse sangue novo também corre em Alberto Férnandez — ou, pelo menos, nas redes sociais que gere. Ativo no Twitter e no Instagram, partilha o estrelato com o cão Dylan, que tem a própria conta. O cão, um collie, foi batizado em homenagem a Bob Dylan— mais uma referência que Alberto faz ao mundo do rock n’roll — e surge muitas vezes nas redes sociais do dono.

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¡Buen domingo electoral para TOD☀S!

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