O Papa Francisco anunciou esta segunda-feira que o Arquivo Secreto do Vaticano vai deixar o “Secreto” e passar a chamar-se Arquivo Apostólico do Vaticano. Na base desta decisão está uma interpretação errada e até negativa que a palavra “secreto” ganhou nos últimos anos, face às “progressivas mudanças semânticas que ocorreram nas línguas modernas e nas culturas e sensibilidades sociais de diferentes nações”.

A experiência histórica ensina-nos que toda a instituição humana, também nascida com as melhores proteções e esperança vigorosas e bem fundamentadas de progresso, fatalmente afetadas pelo tempo, apenas para permanecer fiel aos objetivos da sua natureza, sente a necessidade não só de mudar a sua aparência, mas de transpor os seus valores inspiradores em diferentes eras e culturas e fazer essas atualizações que são convenientes e às vezes necessárias”, começou por referir numa carta.

Também o Arquivo Secreto do Vaticano, acrescenta, “não escapa” a estas mudanças, mesmo tendo em conta que os pontífices romanos “sempre reservaram solicitude e cuidado por causa da grande e significativa herança documental que preserva, tão preciosa para a Igreja Católica quanto para a cultura universal”. Este arquivo, nascido entre a primeira e a segunda década do século XVII, é atualmente dirigido pelo arcebispo português José Tolentino Mendonça, recentemente elevado a Cardeal.

Um dia no Vaticano com Tolentino Mendonça, o bibliotecário e arquivista do Papa

O termo “Secreto” não foi o primeiro termo a surgir associado a este arquivo. Inicialmente, o Arquivo era intitulado de “Arquivo Novo”, depois de “Arquivo Apostólico” e só depois passou a ser “Arquivo Secreto”. Na altura, o termo Secretum foi aplicado porque esta biblioteca “não passava de um arquivo privado, separado, reservado pelo Papa”.

O problema, conta o líder da Igreja Católica, é que a mudança nas línguas veio trazer um preconceito associado este termo, tendo mesmo mudado o seu significado: “Com as progressivas mudanças semânticas que ocorreram nas línguas modernas e nas culturas e sensibilidades sociais de diferentes nações, em maior ou menor grau, o termo Secretum, vinculado ao Arquivo do Vaticano, começou a ser mal compreendido, colorido. Tons ambíguos, até negativos“, explicou na carta.

Tendo perdido o verdadeiro significado do termo “segredo”, e associando instintivamente o seu valor ao conceito expresso pela palavra moderna “segredo”, em algumas áreas e ambientes mesmo de certa importância cultural, essa expressão assumiu um significado prejudicial de estar oculto, para não ser revelado e apenas reservado a alguns”, acrescentou ainda Francisco.

Este arquivo, referiu, pretende ser “o completo oposto” do que a palavra significa hoje em dia. “A Igreja não tem medo da história, aliás, adora-a, e gostaria de adorá-la ainda mais e melhor, tal como Deus a adora”, terminou. A mudança de nome foi pedida por bispos e colaboradores próximos e, garante o papa Francisco, “em nada muda a sua identidade, estrutura e missão”. 

Este arquivo, conta a Agência Ecclesia, tem cerca de 85 quilómetros de estantes e pode ser visitado por qualquer investigador devidamente acreditado por uma universidade ou instituto cultural, sem distinção de credo.