Milhares de manifestantes saíram esta quarta-feira às ruas de Bagdad, capital iraquiana, pelo sexto dia consecutivo, em protesto contra o governo e o fim da corrupção, depois de o primeiro-ministro, Adel Abdelmahdi, abrir a porta para a sua demissão.

Os protestos concentraram-se esta manhã na praça central Tahrir da capital e nos arredores, onde as forças de segurança dispersaram milhares de manifestantes com gás lacrimogéneo que provocaram mais de 30 feridos por asfixia, indicou uma autoridade do Ministério do Interior iraquiano à agência de notícias Efe.

Ali al Bayati, membro da entidade pública e independente Comissão de Direitos Humanos do Iraque, disse à Efe que a organização registou a morte de pelo menos um manifestante, além de 191 feridos por gás lacrimogéneo desde a meia-noite.

Centenas de estudantes universitários e de escolas dirigiram-se esta quarta-feira a pé até à praça Al Nusur, no oeste de Bagdad, onde foram dispersados pelas forças de segurança.

Esta manhã, os manifestantes tentaram atravessar a ponte Al Yumhuriya, que liga o centro de Bagdad à Zona Verde, onde se encontram embaixadas, edifícios governamentais e o parlamento iraquiano, que tinha previsto para esta quarta-feira uma sessão. Espera-se que esta sessão parlamentar ordinária seja marcada por tensões, após a troca de mensagens entre os líderes dos dois principais partidos do parlamento iraquiano e o primeiro-ministro, que pedem para convocar eleições antecipadas.

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdelmahdi, abriu na terça-feira a porta para a sua demissão, depois de cinco dias de protestos que já provocaram 82 mortos e mais de 3.000 feridos, enquanto o clérigo xiita do principal partido do parlamento de Sairun, Moqtada Al-Sadr, defendeu a sua saída.

Adel Abdelmahdi lembrou na terça-feira que existem duas vias de formar um novo Governo: uma é retirar o apoio ao Executivo no parlamento e a outra é convocar eleições dentro de 60 dias.

Na sua conta da rede social Twitter, Moqtada Al-Sadr alertou esta quarta-feira que “uma não renúncia” do primeiro-ministro “não evitará o derramamento de sangue” e “fará do Iraque outra Síria e Iémen”.   Al-Sadr também chamou Hadi Al-Amiri, líder da coligação Al-Fath, a segunda força mais votada nas eleições de 2018, para retirar o apoio ao Governo, ao qual o líder da oposição respondeu que contribuirá para “alcançar o interesse do povo iraquiano” para salvar o país com base no interesse público”, segundo um comunicado divulgado pelos meios de comunicação locais.

As manifestações no Iraque começaram no dia 1 de outubro para pedir a “queda do regime”, quando se assinala o primeiro ano do novo executivo iraquiano, que implementou uma série de reformas económicas alvo de contestação.

A contestação decorreu até agora em duas fases. A primeira, entre 1 e 6 de outubro provocou, segundo números oficiais, 157 mortos, quase todos manifestantes.

A segunda começou na quinta-feira à noite, após uma interrupção de 18 dias, por ocasião de uma importante peregrinação xiita e fez, até agora, 82 mortos, de acordo com um balanço da comissão governamental de direitos humanos.