Pés frios, coração – e cabeça – quente e as costas largas de Pepe (a crónica do Marítimo-FC Porto)

Os mesmos jogadores e tática nem sempre dão o mesmo resultado – e o FC Porto que o diga, após o empate com o Marítimo (1-1) num jogo onde quis mais do que conseguiu e deu mais do que recebeu.

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Pepe marcou um golo caricato de costas para a baliza mas minimizou estragos do FC Porto na deslocação à Madeira

GREGÓRIO CUNHA/LUSA

Pepe marcou um golo caricato de costas para a baliza mas minimizou estragos do FC Porto na deslocação à Madeira

GREGÓRIO CUNHA/LUSA

Marega ficou de fora, Marega vai voltar, Marega está em dúvida, Marega não viajou. Desde a surpresa no jogo com o Famalicão, em que Sérgio Conceição deixou o maliano na bancada por questões físicas, que as análises ao jogo e ao próprio quotidiano do FC Porto andaram muito à volta do avançado. Ainda mais, claro, havendo um encontro com o Marítimo – clube de onde chegou ao Dragão e com quem tinha a média de um golo por cada jogo (e foram cinco). Agora, a perspetiva mudou. E essa tinha sido a maior vitória dos azuis e brancos, que quebraram em 90 minutos o paradigma que se ia criando de um futebol demasiado dependente da profundidade que o número 14 dava à equipa. No entanto, o fato que se tornou de gala numa noite acabou por não servir no encontro seguinte.

“Somos uma equipa pressionante, uma equipa que, ao contrário do que as pessoas dizem e pensam, vê a baliza adversária mas não de uma forma cega. Uma equipa que sabe a forma de chegar e não é chegar de qualquer forma à frente, não é chutar a bola para a frente como já ouvi alguns papagaios dizer”, tinha referido Sérgio Conceição no lançamento da partida na Madeira, que lhe poderia valer a título pessoal a subida ao quinto lugar dos treinadores com mais vitórias ao serviço do FC Porto, superando nesse ranking particular o seu ex-técnico José Mourinho. “Os nossos princípios defensivos e ofensivos não se alteram de um dia para o outro. Agora, há nuances diferentes: como reagimos à perda, como olhamos para o adversário, como ocupamos o espaço com e sem bola, como transitamos no momento da perda em momentos defensivos é igual…”, disse ainda sobre o jogo anterior.

Mais do que táticas, entre um 4x4x2, um 4x3x3 ou um 4x2x3x1, um coletivo funciona melhor ou pior consoante a capacidade ou não de ocupar muito e bem os espaços. Com mais ou menos bola, com maior ou menor capacidade de chegar com perigo à baliza, essa questão do espaço permite dominar o tempo de um jogo. E foi quase como um prémio que, pelo tempo em que conseguiram dominar o espaço frente ao Famalicão, Sérgio Conceição repetiu as opções iniciais frente ao Marítimo, mantendo Alex Telles ou Zé Luís no banco de suplentes. No entanto, nunca existem dois jogos iguais. Porque o adversário tem uma estrutura diferente, porque o adversário apresenta unidades com características distintas, porque o adversário consegue criar outro tipo de problemas.

Ficha de jogo

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Marítimo-FC Porto, 1-1

9.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Marítimo, no Funchal

Árbitro: Jorge Sousa (AF Porto)

Marítimo: Amir; Nanú, Bambock, Douglas Grolli, Fábio China; René Santos, Pedro Pelágio; Edgar Costa (André Teles, 90′), Correa (Rodrigo Pinho, 79′); Luciano Nequecaur (Marcelinho, 62′) e Daizen Maeda

Suplentes não utilizados: Charles, Bebeto, Vukovic e Erivaldo

Treinador: Nuno Manta Santos

FC Porto: Marchesín; Mbemba (Nakajima, 63′), Pepe, Marcano, Wilson Manafá; Danilo, Uribe (Zé Luís, 60′); Corona, Otávio, Luis Díaz (Alex Telles, 80′) e Soares

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Loum, Bruno Costa e Fábio Silva

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Bambock (11′) e Pepe (84′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Corona (24′), Mbemba (33′), Amir (42′), Marcelinho (64′), Otávio (76′), Pelágio (76′), Edgar Costa (77′), Alex Telles (82′) e Marchesín (90+5′)

Na Madeira, o FC Porto voltou a ter em Danilo um capitão para toda a obra mas ficou longe do que tinha feito no passado domingo com o ex-líder Famalicão. De resto? Uma equipa de pés frios a errar demasiados passes fosse na zona de construção, fosse no último terço; uma equipa de coração (e cabeça) quente que teve tanta vontade que às vezes acabou por ser enganada por ela mesma; e uma equipa que ainda assim resgatou um ponto com as costas largas de Pepe, num lance caricato mas que valeu o empate a seis minutos do final. Após sete triunfos consecutivos, o FC Porto voltou a perder pontos no Campeonato (1-1). Com isso, pode também ter perdido a liderança. Mas, mais do que isso, perdeu a oportunidade de consolidar um novo sistema dentro da mesma ideia.

Com um início onde a primeira indicação até acabou por ser a irregularidade do relvado, o FC Porto ainda deixou o primeiro sinal de perigo com Mbemba a aparecer sozinho na área a cabecear após canto para defesa segura de Amir (6′) mas foi o Marítimo a adiantar-se no marcador por Bambock, médio francês formado no PSG que apontou o terceiro golo da temporada – todos na sequência de bola parada, neste caso com um desvio final de Danilo (que tinha feito o corte após canto que foi cair aos pés do adversário) a trair a trajetória de Marchesin (11′). Se é certo que os dragões tinham entrado com uma carta de intenções bem definida em tentar assumir o jogo com bola, aquilo que começou por ser estratégia tornou-se uma necessidade ainda dentro do quarto de hora inicial.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Marítimo-FC Porto em vídeo]

Em 16 jogos na Madeira frente ao Marítimo no Campeonato, o FC Porto apenas por uma vez tinha conseguido dar a volta e na longínqua temporada de 1977/78. Mais: nos três encontros da presente temporada em que começou a perder, os dragões tinham acabado sempre por sair derrotados. Era esta a tarefa que o conjunto azul e branco tinha pela frente, foi esta a tarefa que, até ao intervalo, foi para trás e para os lados: além do abuso de jogo pelo corredor direito (mais de metade das ações foram nesse flanco), faltaram mais espaços para os criativos da equipa fazerem a diferença, num jogo algumas vezes desligado entre setores e que foi controlado pelos insulares.

Luis Díaz, no seguimento de uma grande combinação entre Uribe e Corona no lado direito com cruzamento do mexicano, teve uma grande oportunidade para chegar ao empate aos 19′, com Amir a defender a dois tempos antes de ver a bola ser afastada para canto. Mais no final da primeira parte, e de novo na sequência de um canto, Uribe surgiu em posição privilegiada ao segundo poste mas o cabeceamento saiu fraco para o guarda-redes iraniano (42′). De resto, muito mais posse, mais remates e um canto a mais para o FC Porto, que dominava em quase todos os parâmetros estatísticos de jogo menos naquele que mais interessa no futebol: os golos.

Depois do intervalo, e quando se esperava um FC Porto mais incisivo e intenso no último terço, aquilo que se viu foi um jogo sem balizas, com pouca ou nenhuma imaginação e um livre direto tentado por Corona que saiu muito por cima da baliza de Amir (51′). Mesmo mudando algumas dinâmicas e posicionamentos, os mesmos 11 que tiveram uma noite “sim” com o Famalicão apenas reforçavam a noite “não” na Madeira, o que levou Sérgio Conceição a pedir por mais do que uma vez “cabeça” e a avançar com duas substituições de rajada, com entradas de Zé Luís (60′) e Nakajima (63′) que fizeram Corona descer para lateral e Otávio ficar mais fixo no meio com Danilo.

Os sinais de desinspiração eram demasiado evidentes: antes de ser substituído pelo avançado japonês, Mbemba arriscou um remate de fora da área mas a rosca saiu tão mal que foi quase um passe sem querer para Corona mais à direita; quase a um quarto de hora do fim, e sem qualquer oposição, Marchesín ia fazer um passe a cinco/dez metros para Marcano mas acabou por colocar a bola fora. O golo teria de ser algo “estranho” no meio do contexto em que se desenrolava o encontro e foi mesmo assim que Pepe chegou ao empate, desviando com as costas para a baliza um cabeceamento de Soares (84′). Soares que, até ao final e nos descontos, teve a oportunidade de fazer a reviravolta mas acabou por desviar ao lado naqueles que foram os dois últimos lances de perigo do jogo.

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