Não dizem excrementos nem fezes, dizem cocó — e às vezes até na versão da palavra começada por M —, mas apesar de não parecer o objetivo é puramente científico: reunir 100 mil fotografias e criar a primeira base de dados universal de cocó. Tudo para treinar uma plataforma de inteligência artificial que, esperam os cientistas responsáveis pelo projeto, no futuro poderá ajudar pacientes diagnosticados com condições crónicas do microbioma intestinal, como a doença de Crohn ou a síndrome do intestino irritável. Já tínhamos avisado: apesar de parecer, não é escatologia, é ciência.

“Todos os dias deitas por água abaixo uma mina de ouro de informação — o tamanho, a forma, a cor, a textura e a consistência do teu cocó, bem como a frequência com que o fazes, podem dar pistas muito importantes sobre a tua saúde.” É desta forma que a Seed, uma empresa americana que reúne especialistas de várias áreas para estudar a ciência dos microbiomas, introduz a campanha em curso de angariação de imagens de fezes.

No total, serão necessárias contribuições de pelo menos 100 mil pessoas, explicam os responsáveis pelo projeto na página criada para publicitar a campanha. O que não deverá ser assim tão complicado como parece: “79 milhões de pessoas estão neste preciso momento a fazer cocó em todo o mundo”, pode ler-se também na página. Não chega como incentivo? O anonimato está garantido e as imagens só serão vistas por sete gastrenterologistas que vão analisar e classificar cada cocó numa escala de sete que permitirá dizer à partida se o cocó pertence a alguém saudável, com problemas de obstipação ou com uma dieta pobre em fibras, por exemplo.

A partir daí será o auggi, a plataforma de inteligência artificial desenvolvida pela startup com o mesmo nome nascida no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), a fazer o resto do trabalho. Nada sujo: o hashtag da campanha é #giveashitforscience mas não há amostras reais envolvidas.

Para participar e ser um “cidadão cientista” só é necessário aceder ao site, escrever o seu e-mail e carregar a fotografia. Não está com vontade agora? Os cientistas da Seed e da Auggi pensaram em tudo: basta dizer a que horas do dia costuma ir à casa de banho e receberá um lembrete na altura. Também pode participar mais do que uma vez — aliás, deve. “Quando o auggi for suficientemente inteligente, vamos poder disponibilizar o algoritmo aos que mais precisam dele, bem como aos investigadores que estão a desenvolver novos tratamentos. Isso pode dar origem a novos biomarcadores digitais e possibilitar até a deteção e o diagnóstico precoces para doenças como o cancro do cólon“, esperam os responsáveis pelo projeto.