Numa altura em que se fala tanto da desumanização da sociedade por causa da robotização e do papel cada vez maior, e alegadamente mais perigoso, da inteligência artificial nas nossas vidas, “Exterminador Implacável — Destino Sombrio”, a continuação “oficial” dos dois primeiros filmes da série realizados por James Cameron (que participou na escrita do argumento e produz, e pede-nos para esquecermos os outros três que entretanto foram feitos), tem uma máquina que se humanizou. É um ciborgue nosso velho conhecido, o Modelo T-800, de novo personificado pelo já septuagenário Arnold Schwarzenegger, que é a melhor coisa de um filme que nunca devia ter sido feito, por não chegar nem aos calcanhares desses dois clássicos absolutos que são “O Exterminador Implacável” e “Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento”.

[Veja o “trailer” de “Exterminador Implacável: Destino Sombrio”:]

O T-800 chama-se agora Carl e vive no Texas, distante dos grandes centros urbanos. Arranjou uma família adotiva e começa a ter cabelo branco. O contacto prolongado com os humanos fê-lo desenvolver aquilo a que se pode chamar uma consciência, e experimentar sentimentos. E tem um pequeno negócio de cortinados e reposteiros, que leva muito a sério. Schwarzenegger interpreta-o com gentileza, melancolia e um toque de amargura. E é pena que o resto de “Exterminator Implacável — Destino Sombrio” não seja como Carl e não esteja à altura da composição de Arnie, um dos melhores papéis da segunda fase da sua carreira, desde que deixou a política, juntamente com o pai extremoso de “Maggie”, de Henry Hobson (2015).

[Veja uma entrevista com Arnold Schwarzenegger e Linda Hamilton:]

Realizado por Tim Miller (“Deadpool”), “Exterminador Implacável — Destino Sombrio” é uma repetição, com pequenas alterações, da história do filme original, “O Exterminador Implacável” (1984). Dani, uma jovem mexicana (Natalia Reyes) é perseguida por um novo ciborgue assassino (Gabriel Luna), o Rev-9, enviado do futuro para a matar, porque a sua existência poderá alterar esse novo futuro apocalíptico em que os robôs dizimaram a humanidade (e no qual a Skynet se passou a chamar Legião). Dani é protegida por Grace (Mackenzie Davies), também vinda do futuro, e meio humana, meio ciborgue. E Sarah Connor (Linda Hamilton), agora uma exterminadora não-oficial de Exterminadores, intromete-se na história. (Adivinharam: o #MeToo também chegou aqui).

[Veja uma entrevista com o realizador Tim Miller:]

“Exterminador Implacável: Destino Sombrio” pouco mais tem para oferecer do que um emaranhado incoerente de linhas temporais e paradoxos cronológicos, um enredo inconsistente e a espectacularidade convencional e repetitiva das perseguições, dos tiroteios, dos confrontos físicos e das sequências de acção ribombantes, cada vez mais vistosas (um avião de carga em chamas despenha-se sobre uma barragem enquanto os protagonistas lutam com o ciborgue futurista no seu interior) e cada vez mais dependentes dos efeitos digitais. Nem sequer o novo Exterminador apresenta alguma novidade tecnológica de embasbacar, tirando a possibilidade algo macabra de conseguir separar-se do seu exoesqueleto.

[Veja uma entrevista com Mackenzie Davies, Natalia Reyes e Gabriel Luna:]

O desleixo na escolha dos intérpretes mais jovens é outra das fragilidades da fita. Não têm carisma, presença nem capacidade de convicção à alyura das personagens que corporizam. A esguia e insípida Mackenzie Davis nem com uma dose extra de boa vontade passa por heroína de acção, parte humana, parte máquina, que anda à pancada com ciborgues numa superprodução ficção científica; o fuinha e lingrinhas Gabriel Luna é simplesmente risível a fazer de novo Exterminador; e Natalia Reyes não tem a genica necessária para fazer de Dani, um papel que pedia uma “tough chick” semelhante a uma jovem Michelle Rodriguez. Têm que ser os veteranos Schwarzenegger e Hamilton a dar ao filme alguma circunspecção, algum peso emocional e sentido de humor. Que não chegam no entanto para o tornar aceitável, quanto mais memorável.

[Veja uma cena do filme:]

Sem quase nada que o distinga ou faça sobressair dos outros “blockbusters” que saem actualmente da linha de montagem de Hollywood, e indigno de ser referido na mesma categoria dos seus ilustres antecessores, “O Exterminador Implacável” e “Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento”, “Exterminador Implacável-Destino Sombrio” mostra que a máquina que faz mexer esta série já não dá mais, e o melhor mesmo era desligá-la. Até o melancólico Carl já percebeu isso. E quem quiser um fim coerente, bem arrumado e totalmente satisfatório para esta história, só tem que ir ler dois “comics” da série,  ‘T2: Cybernetic Dawn” e “‘T2: Nuclear Twilight”. Fica muito mais bem servido do que com esta espaventosa cangalhada.