As pessoas que tiveram sarampo sem terem sido vacinadas podem ter mais dificuldade em combater outras infeções por vírus e bactérias depois disso. Dois trabalhos independentes, publicados esta quinta-feira na Science Immunology e Science, mostraram que a infeção com sarampo provoca uma espécie de amnésia imunitária de longo prazo.

A equipa de Velislava Petrova, investigadora no Instituto Wellcome Sanger, mostrou que a infeção com sarampo provoca uma espécie de limpeza da memória do sistema imunitário, fazendo com que as crianças não vacinadas fiquem com um um sistema imunitário equivalente ao de um bebé que pouco contacto teve com vírus ou bactérias.

Quando o corpo entra em contacto com um vírus ou bactéria novos há uma resposta imediata e não específica do sistema imunitário contra o agente estranho. Depois, o sistema imunitário cria respostas mais específicas contra o agente patogénico (causador de doença) e guarda a informação para que, numa próxima infeção, a resposta seja mais rápida.

O que a equipa de Velislava Petrova verificou, nas 26 crianças estudadas antes e depois da doença, é que as células de memória (para outras doenças) praticamente desapareceram depois da infeção com sarampo. Como consequência, para uma infeção que o organismo tivesse aprendido a combater, o sistema imunitário já não vai saber como fazê-lo e vai comportar-se como se nunca tivesse visto aquele microorganismo antes. Uma situação que poderá chegar aos cinco anos depois da infeção com sarampo.

A equipa de Michael Mina, investigador no Instituto Médico Howard Hughes e na Escola Médica de Harvard (Boston), chegou a uma conclusão semelhante depois de estudar 77 crianças não vacinadas, antes e depois de terem tido sarampo. Os anticorpos recuperaram naturalmente, mas só depois de as crianças terem um novo contacto com os microorganismos.

“O sarampo causou a eliminação de 11 a 73% do repertório de anticorpos nos indivíduos”, escreveu a equipa de Michael Mina no artigo.

Outro dos pontos relevantes do trabalho de Michael Mina é que a vacina do sarampo não provoca esta limpeza ou amnésia do sistema imunitário, reforçando a importância de que as crianças sejam vacinadas, não só para se protegerem contra a infeção do sarampo, mas contra outro tipo de infeções.

Nikolai Petrovsky, do Colégio de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Flinders (Austrália), não participou no estudo, mas aproveitou para alertar contra as mensagens erradas que são passadas sempre que se afirma que é melhor que as crianças não sejam vacinadas e adquiram uma imunidade natural pelo contacto com as doenças.

“Não só a infeção natural expõe as crianças às consequências potencialmente devastadoras da infeção com sarampo, mas, como foi realçado aqui, vai enfraquecer e não fortalecer o sistema imunitário”, diz. “Portanto, mesmo que tenham a sorte de escapar às consequências sérias da infeção primária, ficam suscetíveis de apanhar outras infeções graças à supressão imunitária de longo prazo provocada pela infeção primária.”

A Europa enfrenta, neste momento, um surto de sarampo: nos primeiros seis meses de 2019 havia mais casos do que durante todo o ano de 2018. Reino Unido, Grécia, República Checa e Albânia, que já já foram considerados países com a doença eliminada, deixaram de ter este estatuto perante a Organização Mundial de Saúde. Mesmo a nível mundial, a OMS refere que desde 2006 que não tinha tantos casos de sarampo.