Foi um dos mais influentes homens da rádio em Portugal. Formou o gosto musical de gerações de ouvintes e músicos a quem apresentou punk, garage rock, folk, música industrial, pop experimental, blues, todos os géneros ditos alternativos (ou independentes, como se dizia até aos anos 90), música nova ou velha, mas sempre ousada.

António Sérgio fez do Direito À Diferença o slogan unificador de desconhecidos, a senha secreta de um clube de desalinhados que seguiam e participavam na Lista Rebelde (um top com votações de ouvintes) paravam tudo para ouvir passatempos como Bandas em Branco (em que eram apresentados medleys com pequenos excertos de várias canções obscuras, a participação era por carta e o vencedor ganhava um pacote de discos) ou rubricas como Sinais de Fumo (em que Ana Cristina, mulher de António Sérgio, apresentava sempre excelentes especiais com bandas novas, foi aí que conheci os Bauhaus e ouvi falar pela primeira vez em William Burroughs).

Em programas como Rotação, nos anos 70 na Rádio Renascença, Som Da Frente, nos anos 80 e parte dos 90, na Rádio Comercial; aos microfones de Rádios alternativas como XFM, nos anos 90, e Radar, a última onde trabalhou, António Sérgio foi sempre um exemplo de autonomia, a poderosa voz que falava pela música em que acreditava, mesmo quando nem todos os seus pares estavam preparados para fazer o mesmo. A sua paixão pelo metal, por exemplo, nunca foi bem compreendida por uma certa fação dos seus seguidores, convencidos que tinha pouco crédito indie. Mas Lança Chamas, o programa de metal que fez em simultâneo com o Som da Frente nos anos 80, se deixou desconfortáveis alguns ouvintes mais vanguardistas também converteu outros ao metal (não sei se vice versa…). E isso é ter influência.

[o documentário “Uivo”, de Eduardo Morais:]

Eu não era ouvinte regular do Lança Chamas, mas seguia religiosamente o Som da Frente e embora na altura estivesse longe de pensar que algum dia viria a fazer rádio, à distância, tenho a certeza que ouvir o António Sérgio teve um papel determinante no que faço, e como o faço. Tive o privilégio (assustador, na época) de começar a fazer rádio com os meus heróis, na XFM. António Sérgio era um deles. Que magnificas discussões sobre música houve naquela rádio. A paixão com que eram recebidos os discos novos e como era importante passá-los ou não. Havia playlist, mas era mínima, o resto era liberdade para deixar marca de autor e António Sérgio sabia como ninguém vincar a sua assinatura pessoal e fê-lo também quando o borbulhar criativo dos anos 90 começou a disparar em várias direções, música de dança incluída.

O Grande Delta incorporou tudo, o António Sérgio de sempre e o espírito da nova época. Foi essa, de resto, a sua atitude de sempre, quando começou a tocar punk na Radio Renascença e editou a primeira coletânea do género em Portugal (Punk Rock 77, um disco pirata), quando apoiou bandas portuguesas como Corpo Diplomático e Xutos e Pontapés, também quando acompanhou os caminhos do pós punk no Som da Frente, dando a conhecer, no que hoje se chama prime time, bandas como Echo and the Bunnymen, The Fall, Teardrop Explodes, Test Department e tantas, tantas outras que soavam a nada do que tinha sido feito antes (ou só vagamente).

À distância, 10 anos depois da sua morte inesperada, pode parecer que foi fácil para António Sérgio tornar-se num herói da rádio em Portugal. Ele trabalhou quase sempre com material musical completamente novo, desbravou caminhos novos, carregava com convicção a bandeira do ser diferente e independente, e isso nem sempre foi ou é compreendido. Foi a capacidade de seguir orgulhosamente contra a corrente e defender aquilo em que acreditava que o tornou especial e único. O seu exemplo prevalece, tal como a musica extraordinária que nos a conhecer.

Isilda Sanches é jornalista e aninadora de rádio na Antena 3