Num clube de futebol, os problemas desportivos originam muitas vezes problemas institucionais. Não que um fator esteja diretamente relacionado com o outro: mas a verdade é que, mesmo se o panorama institucional deixar a desejar, se aquilo que acontece dentro de campo for ao encontro do que os adeptos querem, do que os jogadores querem, do que o treinador quer, então dificilmente existe espaço e margem de manobra para questionar todas as decisões exteriores. Se, por outro lado, os resultados desportivos não correspondem, abre-se a porta a uma tendência compreensível que procura encontrar respostas fora das quatro linhas.

Ora, no Arsenal, e principalmente na última semana, viveu-se um clima que representa em toda a linha esta segunda hipótese. Depois de na última semana, contra o Crystal Palace, a equipa de Unai Emery ter desperdiçado uma vantagem de dois golos e ter concedido um empate — algo que já aconteceu mais do que uma vez esta temporada –, o tema premente entre os gunners deixou de ser o deslize, deixou de ser o quinto lugar que não dá acesso à Liga dos Campeões e deixou de ser a nostalgia de outros tempos. Granit Xhaka, o suíço que é um contestado capitão de equipa, foi substituído com o Crystal Palace, saiu sob assobios das bancadas, incentivou os adeptos de forma irónica, insultou-os e ainda tirou a camisola assim que deixou o relvado, entrando diretamente para o túnel sem passar pelo banco de suplentes.

De repente, no norte de Londres, pedia-se a destituição de Xhaka de capitão, pedia-se a saída de Unai Emery e até já se falava em José Mourinho, visto como o substituto ideal para o treinador espanhol. Na ausência de uma reação oficial por parte do clube, Emery reconheceu que o jogador errou e confirmou que não estaria presente contra o Liverpool, em jogo da Taça da Liga a meio da semana. Numa partida com dez golos que só terminou nas grandes penalidades com a vitória dos reds, o Arsenal foi eliminado de uma das três competições internas e regressava este sábado à Premier League com o Wolverhampton. E sem Xhaka, que não estava nem no onze inicial nem no banco de suplentes — depois de já ter emitido um comunicado nas redes sociais onde não pediu desculpa e garantiu que queria dar apenas “uma explicação”.

Do outro lado, o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo também voltava à Liga depois de ter sido eliminado da Taça da Liga pelo Aston Villa durante a semana. O treinador português procurava claramente apagar esse fantasma com um resultado positivo no Emirates, já que colocou uma equipa mais ofensiva do que o normal, com Adama Traoré a subir no terreno para jogar ao lado de Jiménez e Jota (algo que só costuma acontecer em caso de desvantagem ou empate na segunda parte). O Arsenal respondia com a titularidade do reforço Tierney na esquerda da defesa e era Lucas Torreira, no meio-campo, que ocupava o lugar de Xhaka. No banco, estava o jóquer Gabriel Martinelli, o brasileiro de 18 anos que leva sete golos em sete jogos esta temporada.

O Arsenal demorou apenas 20 minutos a chegar à vantagem, com um lance pela direita que terminou com uma assistência de Lacazette para Aubameyang, como não poderia deixar de ser. O avançado gabonês, que só precisou de um remate preciso para bater Rui Patrício (21′), tornou-se o jogador mais rápido a chegar aos 50 golos pelo clube inglês (só precisou de 78 jogos) — isto no dia em que, graças à ausência de Xhaka, utilizou a braçadeira de capitão.

Na segunda parte, Emery lançou precisamente Martinelli no lugar de Lacazette, para tentar procurar o segundo golo que daria tranquilidade ao Arsenal, e Nuno Espírito Santo reagiu com a entrada de Rúben Vinagre para a saída de Doherty, assumindo o objetivo de ir à procura de pontos em Londres. O empate apareceu já a um quarto de hora do apito final, por intermédio de Raúl Jiménez e com assistência de João Moutinho (76′), e o Wolves a provocar um deslize a um dos big six ingleses. O Arsenal voltou a permitir um empate depois de estar a ganhar durante grande parte do jogo, pode ficar a seis pontos do Chelsea e do Leicester, a oito do Manchester City e a 14 do Liverpool e vê a Liga dos Campeões da próxima temporada cada vez mais longe. Mais do que isso, somou a terceira partida consecutiva sem ganhar na antecâmara da visita a Guimarães — e Aubameyang, que este sábado foi o capitão que as bancadas querem, não alterou sozinho uma onda negativa que está a passar pelo norte de Londres.