Até ao minuto 80 do jogo deste domingo entre o Everton e o Tottenham, André Gomes estava a ser o melhor jogador da equipa de Marco Silva. O Everton até estava a perder, graças a um golo de Dele Alli contra a corrente, mas era o conjunto mais perigoso, o conjunto mais decidido, o conjunto que mais tinha procurado a vantagem. André Gomes, enquanto figura fulcral do meio-campo, estava a ser o grande motor dessas ações, enquanto pêndulo entre a defesa e o ataque.

Já perto do final da primeira parte, o internacional português teve o primeiro susto do jogo. Um susto que, agora que já se conhece o triste desfecho do encontro, parece nesta altura quase inofensivo. Na sequência de uma bola dividida na grande área do Tottenham, André Gomes caiu no chão agarrado às costelas e não se moveu durante alguns segundos. A equipa médica do Everton entrou em campo para assistir o jogador e no banco pensou-se o pior: os comentadores da transmissão televisiva, nesta altura, apressaram-se a lembrar que uma simples fissura numa das costelas poderia ser sinónimo de uma dor impossível de suportar para continuar em jogo. André levantou-se depois da intervenção dos médicos do clube, ainda com um semblante que era o espelho da dor que estava a sentir, e permaneceu em campo até ao intervalo e durante 35 minutos da segunda parte.

Aos 80 de jogo, 35 desse segundo tempo, uma entrada de Son provocou a queda de André Gomes e um choque com Aurier. Assim que os três caíram no relvado, a reação dos adeptos que estavam junto à linha lateral, o desespero de Son Heung-min e a pressa dos jogadores do Everton em confortar o médio português deixaram perceber que a consequência do aparato era muito grave. Resultado? Uma fratura séria no tornozelo que provocou a deslocação do pé e que vai afastar o jogador dos relvados durante vários meses. André Gomes deixou Goodison Park de maca, sob aplausos dos adeptos dos dois clubes e perante imagens arrepiantes de elementos do Tottenham a confortar colegas de profissão do Everton e vice-versa.

Horas depois do final do jogo — que o Everton acabou por conseguir empatar, graças a um golo de Cenk Tosun no sexto minuto de descontos –, o clube de Liverpool revelou a lesão do jogador português e adiantou desde logo que o médio seria operado esta segunda-feira. Menos de 24 horas depois da lesão, André Gomes já foi submetido a um intervenção cirúrgica que, segundo o clube, correu “extremamente bem”. “O André vai agora passar algum tempo no hospital a recuperar até voltar para começar o processo de reabilitação sob a vigilância da equipa médica do clube. É esperado que faça uma recuperação total”, acrescentou o Everton em comunicado.

A grave lesão de André Gomes motivou uma onda de solidariedade no futebol internacional: o Benfica, clube onde o médio realizou toda a formação e se estreou a nível profissional, o Barcelona, por onde passou quando saiu de Portugal, e a Federação Portuguesa de Futebol foram apenas alguns dos organismos que demonstraram publicamente o apoio ao jogador neste período mais difícil. Além dos colegas de equipa, como Pickford ou Richarlison, também José Fonte, Ricardo Quaresma, Cédric e Bruno Alves, todos companheiros do jogador na Seleção Nacional, enviaram mensagens nas redes sociais.

O jogador sul-coreano ficou inconsolável quando se apercebeu da gravidade da lesão de André Gomes

O momento em que André Gomes se lesiona, a dez minutos do apito final, tornou-se marcante para quem estava a assistir ao jogo no estádio ou mesmo através da transmissão televisiva não só pela componente gráfica da lesão como pelas reações cruas dos intervenientes. Cenk Tosun, o avançado turco que foi dos primeiros a chegar perto do português e que acabou por marcar o golo que valeu o empate ao Everton, revelou isso mesmo já esta segunda-feira. “Está toda a gente tão triste. Alguns jogadores estavam a chorar. O André estava em choque. Os olhos dele estavam esbugalhados. Estava a chorar, a gritar, a berrar. Só tentei segurá-lo e falar com ele. Tentei dizer-lhe para ficar calmo. Não conseguíamos perceber o que dizia”, explicou o jogador turco. Já Son, o internacional sul-coreano que está na jogada e que acabou por ver um cartão vermelho direto na sequência do lance, foi o principal espelho da seriedade da situação: ficou totalmente descontrolado, de mãos na cabeça e em lágrimas, e acabou envolvido num quase colete de forças por colegas e adversários antes de sair para o balneário.

Já após o final da partida, Mauricio Pochettino, treinador do Tottenham, revelou que o jogador sul-coreano foi confortado não só pelos colegas de equipa como por elementos do Everton no balneário. Seamus Coleman, irlandês que em 2017 sofreu uma lesão semelhante à de André Gomes e que é capitão do conjunto de Marco Silva, deslocou-se pessoalmente até ao balneário adversário para garantir a Son que não tinha tido culpa. O avançado asiático, que entretanto terá sido alvo de insultos racistas por parte de adeptos do Everton, vai ainda ver o Tottenham recorrer do cartão vermelho que recebeu.