O filme “Joker”, que conta a história do famoso vilão das histórias de Batman, não está só a bater recordes de bilheteira. Depois de ter atraído às salas de cinema portuguesas mais de 155 mil espectadores apenas no fim de semana de estreia, o filme — e sobretudo a personagem — já se tornou um símbolo de protesto em todo o mundo.

Como conta a CNN, em protestos por todo o globo, desde o Médio Oriente a Hong Kong e à América Latina, têm surgido manifestantes mascarados de Joker.

É o caso do Líbano, país onde se tem multiplicado protestos nas ruas contra o governo devido ao mais recente pacote de medidas económicas, e do Iraque, onde dezenas de milhares se têm manifestado todos os dias contra a corrupção. Ali, um designer usou a imagem do Joker para criar imagens que se têm tornado num dos símbolos dos protestos.

Em Hong Kong, onde já duram há meses os protestos contra a lei da extradição para a China, o disfarce de Joker tem surgido recentemente como forma de contornar uma proibição de usar máscaras em manifestações. A chamada “lei anti-máscara” foi anunciada com o objetivo de ajudar a acabar com a violência — mas abriu portas ao surgimento das pinturas faciais com referências à personagem.

Em muitos lugares, a personagem tem sido considerada uma representação fiel dos sentimentos do povo. “Esta é a situação da sociedade libanesa neste momento, cheia de pessoas oprimidas que estão extremamente frustradas e à procura de uma janela de esperança”, argumenta um artista de rua libanês, que tem usado a imagem do Joker em protestos em Beirute, à CNN.

Também no Chile, onde uma onda de protestos contra o governo, a falta de serviços públicos e as más condições dos serviços de saúde e do sistema de pensões tem enchido as ruas, a personagem tem sido recorrente.

“O Joker é uma personagem incompreendida, vulnerável e abandonada. Os chilenos, os que não pertencem a uma classe social privilegiada — que são a maioria de nós — sentem-se da mesma forma”, disse uma manifestante chilena à mesma estação de televisão.

O fenómeno tem sido objeto de análise. A revista Wired, por exemplo, sublinha que o filme tem sido “inspirador para movimentos de protesto em todo o mundo” e lembra outros fenómenos semelhantes: a máscara de Dali da série “La Casa de Papel”, a máscara de Guy Fawkes de “V de Vingança” ou as vestes da série “The Handmaid’s Tale”.

O disfarce de Joker, sobretudo após o filme que retrata o vilão de Batman como um homem incompreendido e levado à loucura pelas falhas no funcionamento de serviços do Estado como o acompanhamento psicológico, tornou-se rapidamente no novo símbolo do anti-sistema.

Mattias Frey, académico especialista em cinema e comunicação, explicou à revista Wired que a personagem se abre à interpretação de cada espectador. Embora aparecendo como rosto da luta contra o sistema, o filme não se compromete com qualquer ideologia política. “É como uma tela em branco onde podemos projetar as nossas próprias preocupações”, resume o académico.