Durante anos, as operadoras clássicas de televisão por cabo ofereciam-nos pacotes com um número absurdo de canais. Podemos ainda hoje fazer zapping inerte até ultrapassar a barreira do 200 – um exercício que, apesar de tudo, recomendo, já que foi assim que descobri a alegre fritaria de um canal de entretenimento na Coreia do Sul perdido nos confins da box aos quais poucos ousam chegar. Mas a realidade é que sempre vimos um décimo dos canais que vinham na fatura mensal, o que acalentou em muitos de nós o desejo de só pagar os tipos de conteúdos que queríamos efetivamente ver. Para quê pagar o Caça E Pesca ou uma espécie de CNN da Galiza quando eu sabia perfeitamente que ia andar sempre entre noticiários e umas temporadas requentadas dos Simpsons? Pois cuidado com o que se deseja: cada vez mais as grandes séries, filmes, documentários e até animação vão estar em serviços de streaming pagos à parte, o que tudo junto ainda causa mossa num orçamento familiar. Por cá, já tínhamos o Netflix e a HBO. Chegou no dia 1 a Apple TV+.

Posso já poupar-lhe uns minutos e ir direta à questão: não, a Apple TV+ não vale (ainda?) a pena. Apesar de se perceber que é uma aposta que a marca da maçã leva a sério e encara como estratégia para o futuro, não tem nem a dimensão nem a qualidade de catálogo que mereça dar mais 4.99€ por mês para ver televisão. Neste arranque, tem apenas um total de oito programas: três séries de drama, um documentário, dois desenhos animados, uma série para YA (Young Adults) e uma série infanto-juvenil. Cada série tem apenas disponíveis os primeiros três episódios. Na homepage é possível antever mais quatro estreias até ao fim do ano, incluindo o muito divulgado regresso de Oprah, apesar da popular apresentadora estar na sua versão de aposentada – o seu programa sobre livros vai ter apenas um episódio a cada dois meses. É, portanto, uma plataforma que nos quer cobrar uma mensalidade semelhante à da HBO com uma ínfima parte do cardápio. É pagar para ir a um buffet de all you can eat que só tem croquetes e arroz branco.

O período grátis para experimentar a Apple TV+ é de apenas uma semana (e não um mês, o modelo mais recorrente na concorrência), o que na verdade chega e sobra para ver tudo o que está disponível. Uma das diferenças em relação aos rivais é que a Apple quer apenas produção própria, recusando comprar catálogo externo, como fazem os outros serviços de streaming. O resultado é, obviamente, mais pobre, mas nada que me pareça fazer ralar o CEO – este serviço é grátis durante um ano para utilizadores Apple com aparelhos comprados recentes e parece-me que estão focados essencialmente nesses primeiros convertidos. É aquilo que meterem o álbum dos U2 à força num iPod sem ninguém o ter pedido, mas desta vez mais polido e, vá, apetecível.

[“The Morning Show”:]

Ora se, tal como eu, calha a ser uma dessas pessoas viscosas e sem noção de trendsetting que usam um PC, está encontrado o primeiro obstáculo. É que a Apple TV+ funciona melhor se todo o equipamento que usar estiver a contribuir para a renda do jazigo de Steve Jobs. Para quem não tem um Mac, inscrever-se no trial period é uma saga de Apple Ids, de mails que não chegam e de IPs que não sabem em que país se está. Também mandou o meu Chromecast pastar, pois para transmitir para a televisão tenho obviamente de ter o apetrecho da Apple e não da concorrência. Nada que, na verdade, não aconteça geralmente com esta marca. Citando ad lib Sérgio Conceição, eles não se ralam muito com quem não é da sua equipa.

A Apple TV+ aparece relativamente tarde na guerra dos conteúdos de excelência em streaming. Não é fácil bater a Netflix, que basicamente se tornou no símbolo máximo destes serviços, tal como toda a gente sabe que uma Bic é sinónimo de uma caneta e um Kleenex é sinónimo de um lenço de papel. A HBO consegue nos seus melhores momentos ombrear, mas o seu catálogo herdado da era tradicional é clássico e irrepreensível – e teve a sorte de fazer a série da década em termos de impacto, o “Game Of Thrones”. A Hulu dá nas vistas essencialmente com “Handmaid’s Tale” e a Amazon Prime ganha prémios com “The Marvelous Mrs. Maisel” e “Fleabag” (que, na verdade, é da BBC). A Disney Plus ainda não chegou, mas já se sabe que é uma matrioska de Pixar, Star Wars, Marvel, Simpsons e mais 763 coisas que adquiram até lá. É preciso muito para a Apple entrar nesta guerra a fazer reféns. Cientes disso, tentaram colmatar o tempo perdido bem ao estilo de Silicon Valley – atirando-lhe vários camiões de dinheiro a fundo perdido para cima. Resultou? Eu diria que nem por isso.

Nenhuma das séries é particularmente imperdível (já lá vamos), mas o mais é gritante a falta de cuidado com que a versão portuguesa é lançada para o mercado. Eu não quero pagar por um serviço com erros ortográficos (na antevisão do filme “Hala” está escrito “viajem” em vez de “viagem”) e no qual as séries para crianças estão dobradas em português do Brasil e sem sequer legendas na língua de Camões e Chagas Freitas – Netflix e HBO têm uma extensa secção Kids com tudo no sítio no que diz respeito ao nosso mercado nacional. Já as séries para adultos têm as legendas em português europeu, mas numa versão que descreve todos os sons que surgem (uma espécie de legendas para deficientes auditivos), geralmente de um modo tolo e intrusivo. Um exemplo: uma cena de discussão fundamental no primeiro episódio de “The Morning Show”, que por acaso ocorre durante uma tempestade, é constantemente interrompida por apartes distrativos como “trovoada ribomba” ou “chuva tamborila”. Trovoada Ribomba e Chuva Tamborila davam dois nomes de personagens incríveis para o “Tal Canal”, mas no meio de um clímax tenso são só ridículos.

E vamos exatamente a “The Morning Show”, a maior aposta da Apple TV+. Reza a lenda (desmentida por um dos produtores) que este drama de dez episódios de uma hora tem um orçamento de 15 milhões de dólares por episódio. Percebe-se para onde vão passando os olhos pelo elenco: Jennifer Aniston, Steve Carell, Reese Witherspoon, Billy Crudup. A premissa é atual, sumarenta e claramente baseada no caso real de Matt Lauer, corrido da NBC em 2017. Aqui, Mitch Kessler (Carell) é despedido da co-apresentação do maior programa matinal de informação ao ser investigado por abuso sexual a funcionárias, deixando desprotegida a sua parceira de mesa de estúdio, Alex Levy (Anniston). A série tem momentos de representação memoráveis (nomeadamente desta dupla), bons nacos de diálogo (sobretudo do administrador, desempenhado por Crudup) e uma realização que enche o olho. Mas tudo isto tem que coexistir com momentos exageradamente explicados, com uma sucessão de acontecimentos deus ex machina, com zero surpresa nos twists e com uma doutrinação sobre o papel dos media feita com a subtileza de um paquiderme num armazém da Vista Alegre. Reese Whiterspoon, vinda do enorme sucesso de “Big Little Lies”, sabe bem que um line up de estrelas ajuda, mas que tem de existir um grande argumento para criar o firmamento. Aqui, infelizmente, temos um guião com demasiados defeitos.

[“For All Mankind”:]

“See” tem Jason Mamoa e boa fotografia, mas é uma série do universo fantástico aborrecida que só convencerá fãs hardcore do género. “Dickinson” apresenta a poetisa à geração millennial, misturando pessoas a morrer de tifo com hip hop, num sonho febril adolescente com algum interesse, mas algo desconexo. “A Rainha Elefante” é um documentário sobre elefantes com imagens lindas, mas colado com uma narrativa azeiteira, bafienta e que não aguenta os 96 minutos propostos. “Ghostwriter” é uma série para miúdos que mistura aventura e literatura, num resultado simpático, mas não surpreendente. As séries infantis “Helpsters” (da equipa de Rua Sésamo) e “Snoopy No Espaço” são boas, mas com a tal questão de só existirem em versão brasileira – e para isso temos o Youtube, e à borla, a ensinar criancinhas a dizer “cachorro” e “galera”.

O melhor da Apple TV+ é mesmo a estreia de “For All Mankind”, uma série de época sem atores famosos que decorre numa realidade paralela na qual a corrida por aterrar na lua foi ganha pelos soviéticos, provocando crises na NASA e nos próprios Estados Unidos. Anda no limiar daquele patriotismo que pode estragar uma boa história, mas é credível, imaginativa e com potencial. É só arranjarem mais três dúzias de séries assim e podemos começar finalmente a brincar ao Netflix.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa