A produção de eletricidade a partir do carvão registou “valores historicamente baixos” nos primeiros nove meses do ano, indicou esta segunda-feira a REN. “No período de janeiro a outubro as centrais a carvão apresentam mesmo as utilizações mais baixas de sempre”, salientou a empresa que gere a rede de transporte.

Dados fornecidos pela REN (Redes Energéticas Nacionais) ao Observador mostram que entre 2000 e 2019 (neste caso contando apenas os primeiros nove meses do ano), a produção a partir do carvão esteve sempre acima das 10 mil Gigawatts/horas, exceto em três casos. Em 2010 ficou-se pelas 6.553 GWh e em 2011 nos 9.128 GWh. Até setembro deste ano, a produção a partir do carvão foi de 4.450 GWh.

Dados da REN relativos à produção elétrica desde o ano 2000.

No que diz respeito ao consumo, o gás natural continua a aumentar (cresceu 4,6% de janeiro a outubro, face ao período homólogo do ano passado), “resultado de crescimentos de 12,3% no mercado elétrico [ou seja, para produção de eletricidade nas centrais a gás natural] e 0,9% no mercado convencional”, que abrange os restantes consumidores.

As duas tendências têm a mesma explicação e resultam do facto do carvão estar a perder competitividade face ao gás natural, como tecnologia de backup para a produção de eletricidade. Em anos de seca, sobretudo nos meses de verão quando o nível de águas nas barragens é menor, é normal que se verifique uma subida da produção elétrica a partir de centrais térmicas.

Só que desde o ano passado, a produção de energia a partir do carvão está mais cara. Por um lado, o preço das licenças de emissões de CO2 no mercado internacional disparou  — e uma central a carvão, que é o maior produtor de emissões de dióxido de carbono, precisa de adquirir estas licenças para funcionar. Por outro lado, e em nome da luta contra as alterações climáticas, o Governo começou a eliminar a isenção de imposto petrolífero de que beneficiava este combustível, o que está a encarecer a geração elétrica a partir de carvão. Logo, quando é preciso compensar uma queda de produção das renováveis, a opção recai sobre o gás natural, menos poluente do que o carvão.

A perda de competitividade das centrais a carvão já tinha sido sinalizada pela EDP e deverá ainda acentuar-se depois do novo Governo socialista ter anunciando a antecipação do fim do carvão e da central de Sines de 2025 para 2023. A central do Pego deverá fechar até 2022. Mas para que estes fechos se concretizem é necessário que duas condições se cumpram — a conclusão do complexo hidroelétrico do Vale do Tâmega, que está a ser construído pela Iberdrola, e uma nova ligação de muito alta tensão para o Algarve, região que era abastecida por Sines.

Nos primeiros dez meses do ano o consumo de eletricidade caiu. Caiu pouco, mas caiu. Já apenas no mês de outubro, o consumo de energia elétrica aumentou 1,7%, ou 1,1% com correção dos efeitos de temperatura e dias úteis. No final de outubro o consumo acumulado anual registou uma evolução homóloga negativa de 1,7%, ou menos 0,8% com correção de temperatura e dias úteis”, indicou a REN.

Por fontes de produção, no mês de outubro a produção renovável “abasteceu 43% do consumo nacional de energia elétrica”, enquanto a não renovável representou 48% do consumo. Os restantes 9% resultaram de energia importada.

Nas renováveis, as eólicas representaram 24% do consumo, as hidroelétricas 13%, a biomassa 6% e as fotovoltaicas 2,3%. Já nas não renováveis o gás natural abasteceu 33% do consumo e o carvão apenas 11%.