É a tela pintada a óleo mais colorida do icónico Salão Nobre da Universidade do Porto. Leopoldina Ferreira Paulo aparece solitária numa coluna, com fundo num camaleónico rosa misturado com laranja, ao lado de 49 homens que com ela partilham aquelas paredes.

É a primeira mulher a ter lugar na sala icónica da universidade e para isso foi preciso ter feitos importantes no passado. Leopoldina foi a primeira a doutorar-se naquela instituição, em 1944, após defender a tese Alguns caracteres morfológicos da mão nos portugueses. Mas não antes de ter construído um distinto percurso académico.

Recorte do dia 14 de junho de 1945 do jornal Comércio do Porto, que noticiava a cerimónia dos novos doutorados da Universidade do Porto, em que Leopoldina estava incluída.

Sabe-se que saiu do liceu Carolina Michaelis com 17 valores de média antes de ingressar no Curso de Ciências Histórico-Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que acabou com média de 16 valores. Mas, para Susana Barros, responsável por “escavar” na história da instituição o percurso da antiga aluna e professora, “o que é interessante é que durante o curso ela apostou numa educação mais polivalente. Achou que não era suficiente estudar ciências e por isso fez cadeiras de História de Arte e de Estética, na Faculdade de Letras, de Desenho na Faculdade de Belas Artes e até de Desenho Rigoroso na própria Faculdade de Ciências”.

Mesmo depois de se licenciar, Leopoldina quis estudar mais e, por isso, fez Ciências Pedagógicas em Coimbra. Foi professora de liceu em Guimarães e no Porto e em 1935 tornou-se professora da faculdade onde se licenciou, no grupo de Antropologia e Zoologia.

Foi uma longa carreira até se jubilar, em 1976, que passou também por estagiar “em diversos países europeus, como a França, a Alemanha, mas também a Bélgica”, acrescenta Susana. “É uma mulher que se destacou num mundo dominado completamente por homens”, resume.

O retrato de Leopoldina Ferreira Paulo foi pintado por Mário Bismark.

Pouco se sabe desta mulher para além da atividade científica. Talvez por se ter dedicado tanto aos livros, não deixou descendência. Mas parte da investigação que produziu foi sobre as ex-colónias portuguesas. Em 1945, chega mesmo a ser diretora da Mocidade Portuguesa na cidade do Porto.

A chegada de Leopoldina ao Salão Nobre aconteceu na sequência de um ciclo de conferências na Universidade. “E contudo, elas movem-se”, organizado pela Vice-Reitora Fátima Vieira, procurou explorar a invisibilidade da mulher e a forma como ela poderá ser reparada.

“Era muito óbvio que era impossível contar-se a história da universidade neste salão que não fosse uma história no masculino”, considera a Vice-Reitora Fátima Vieira.

Leopoldina inaugura para as mulheres aquele que pode ser considerado para a instituição de ensino do Porto como um dos “Lugares de Memória”, termo cunhado pelo historiador francês Pierre Nora nos anos 80, “numa altura em que os sobreviventes do holocausto já estavam a começar a desaparecer e era preciso contar às novas gerações aquilo que tinha acontecido no holocausto. Foi aí que se começaram a erguer as estátuas, a escrever os livros, a fazer filmes”, enumera Fátima. Leopoldina, Ela, representa agora todas as mulheres que até 2019 não conseguiram ali lugar.